18 de novembro de 2008
vou postar rápido, porque nao tenho muito tempo, mas acho que queria colocar algumas coisas importantes:
primeiro, prático. Nao estou escrevendo concretamente nada, estou tentando colocar alguns pontos de discussao pra gente pensar junto, que fazem com que o projeto fique mnais claro na hora que vocês forem escrever.
segundo, sobre os três módulos que vocês propoe: estou de acordo com os dois primeiros, acho duas boas idéias, com coerencia, que se conpletam (nao sei apenas se comecaria com o jogo ou com o mergulho individual, mas isso é uma discussao mais profunda sobre o caminho que queremos percorrer). Quanto ao terceiro, eu nao gosto da escolha. Acho a relacao das acoes físicas com a individualidade mais questionavel, nao é exatamente um trabalho que me interessa desenvolver em profundidade e eu nao vou pessoalmente com a cara do Matteo (pessoal, a energia nao bate, nao quer dizer que nao trabalharia com ele, mas...) Por fim, sinto MUITA falta de um módulo realmente mais centrado em movimento, acho que sinceramente pra mim seria um elemento importante para o meu desenvolvimento dentro do projeto (sem querer puxar a sardinha, mas todos sabemos que as questoes diretamente ligadas ao corpo como forma de expressao sao as que mais me interessam e acho nesse sentido as acoes físicas muito pouco). Me parece, até pelo histórico do grupo e pela importância que o processo sensível parece ter dentro dele, o butoh seria uma opcao mais coerente e para mim mais interessante.
Sobre as oficinas: eu concordo com a Nat que o formato proposto por vocês pode ser uma armadilha, acho muito cedo pra passarmos adiante algo que nós mesmos vamos estar em processo de incubacao. Os módulos propostos por ela poderiam ser uma idéia, mas eu nao sei se nao proporia, de forma mais simples, um núcleo paralelo no projeto, composto de outros atores que nao fazem parte da companhia mas que tem interesse em conhecer um pouco do nosso trabalho, com essa abordagem: vivencia da metodologia de trabalho da companhia. Claro que isso nao pode ser o comeco do projeto, porque há muito o que conversar até se decidir sobre o que é essa metodologia, mas acho que existem pontos, de repente dentro dessa proposta podem haver modulos coordenados por diferentes pessoas (como a questao do corpo por mim, a criacao de uma personagem por um de vocês do seis da tarde, uma abordagem mais performatica da thaisinha, etc.)
Sobre o projeto. Pode ser que vocês (nat e thais) tenham razao e eu nao, mas continua me parecendo muito inconscistente dizer que vamos fazer um espetáculo com uma dramaturgia criada sobre alguma coisa que vai aparecer ao longo do processo. Acho que nao precisamos indicar um material, mas apontar caminhos seria importante. Eu sou totalmente favorável a criar uma dramaturgia própria, mas porque nao criá-la a partir de alguns apontamentos pré-definidos?
Ultima coisa: sobre a Gabi... Como vocês perceberam, ela está bem confusa sobre o que fazer... Isso me deixa, é claro, numa situacao um pouco mais dificil do que eu tinha imaginado. Enfim, só pra dividir o problema com vocês
beijos
mau
17 de novembro de 2008
é a gabi
Ai.....
Aiiiii.......
é isso o que penso a respeito de tudo. Muuuuuuita crise. Pensem em como seria pra voces se agora alguma cia que voces gostam na Alemanha convidasse voces pra mudar de país... É assim que eu me sinto. Crise, crise, crise... Tou num grupo de Trapézio de voo, em estágio embrionário, com perspectivas de turne em 2010 com um circo próprio, mas ainda sem grana, sem projeto... Pensa assim: trabalho de cia, cooperativo, mas no universo do circo... Aí, as pessoas com quem eu trabalho a anos, que eu gosto muito, aparecem com uma perspectiva real e tentadora de largar mao de tudo e voltar... Aiiiiiii, crise, crise... Ai, o Mau quer ir... e aí? Qual as possibilidades????? Ai.....
As vezes nao sei mais se faco parte, as vezes me vejo trilhando outros rumos, mas também pode ser só uma sensacao de trabalho novo, Workshop fresco na cabeca da semana passada e na verdade é tudo mentira, melhor voltar pra minha terra que sei como as pessoas sao...
Mas aí olho as discussoes e idéias, e sabe qual a cabeca que eu tenho pra conceito e teoria agora?...
Eu quero é suar... Ter a mao rachada do trapezio, as pernas doendo de dancar, dor no corpo de todos os lados e a energia de sair de casa pra fazer mais, sem perguntar muito porrque. Quero um chefe que me diga o que fazer, entender que se eu der o impulso meio segundo mais tarde é mais fácil de subir, se eu descer 2cm mais no pliet eu pulo mais alto, concretudes, certezas, verdades...
Mas eu também quero simplesmente olhar nos olhos do publico, nao mover um musculo, nao abrir a boca e dizer tudo, e chorar porque eu sou eu...
Descobri que nao importa o que eu faca, a pessoalidade vai estar lá, vai transbordar pelo ar, vai encher a sala de mágica. Como eu junto isso tudo? Comojuntar a sensacao de voar pro infinito, cairno nada fazer loucuras corporais e estar lá eu mesma, presente, absoluto...
Arranco os cabelos, nao tenho respostas...
Nao dá pra voces virem pra cá nao?????
16 de novembro de 2008
Sobre a reunião
Eu que fiquei de passar o que discutimos na reunião de quinta... desculpe a demora.
Bom, primeiro foi bom ler e saber que você pensou as coisas no caminho que nós também pensamos.
À princípio, levantamos várias "técnicas" e jeitos de abordar a pessoalidade (preciso pesquisar o histórico desta palavra) na interpretação, mas a Naty levantou e concordamos que o lance não é elencar técnicas como num currículo escolar. Além das que vc. elencou, tínhamos pensado bufão/ clouwn, Barba (dentro do trabalho que a Patrícia Leonardelli faz), performance, dança somática (que eu não sei muito o que é, mas a Naty disse que ela contém técnicas como a do nova dança e outras).
Bom com isso, no primeiro ano, pensamos em três módulos que seriam os seguintes:
3 meses
- Dois meses de técnica de jogo no universo do clouwn e do bufão (deixamos aberto assim para conversar com a Dedé paa ver o que ela acha). Achamos que estamos sempre perseguindo o jogo nos nossos trabalhos e que precisamos nos aprofundar nisso.
- 1 mês para "digerir": 2 semanas para fazer a "antropo/metodofagia" com o nosso trabalho, 1 semana para planejar como transformar essa "antropo/metodofagia" numa oficina (eles pedem oficinas e achamos que poderia ser um jeito organico de propor), 1 semana de oficina.
OBS:
- Isso tudo, fora possíveis ensaios do repertório que pensamos no Ruído, Seis da Tarde, Voo Solo e nos perguntamos sobre o Retornarse no sentido de que nos pareceu ser necessário montá-lo praticamente de novo porque senão parece para mim obra de um museu, precisaríamos encontrar o que faz sentido para nós e ... teríamos tempo para isso?? Outras sugestões são bem vindas.
Ahhhh! Aproveitando o ensejo, Gabi, como é isso tudo para você?? Temos vontade de ouvir o que vc. está pensando e dialogar mais porque vc. também estaria neste projeto... ou naõ?????
+ 3 meses
- "A mémória na composição do ator" pensamos no Cacá Carvalho partindo do trabalho dele que achamos ter base em Stan. e Grot.
repete tudo que coloquei lá em cima
+ 3 meses
- Não me lembro bem se o nome era esse, alguém que estava na reunião me ajude: "A pessoalidade no trabalho do ator", fica muito parecido com o do Cacá por isso estou achando que o nome não é exatamente esse. Pensamos no Matteo Bonfitto pelo trabalho com ações físicas/vocais e como levar tudo isso para um texto.
repete tudo o que coloquei lá em cima.
Os 3 últimos meses no primeiro ano seriam para encontrar o que é a pesquisa para o ano que vem (Eu particularmente gosto do recorte rússia, a gente consegue ligar com o que está fazendo e me interesso pelos escritores que conheço).
Além de tudo isso, pensamos em um acompanhamento com algum profissional que fosse constante e pensamos na Isabel Setti que trabalha com a voz partindo muito do corpo e tem uma abordagem mais "energética/espiritual" por trazer referências do tai chi e chi kung ( não sei se é assim que escreve)
Não podemos nos esquecer das mesas redondas que não deu tempo de pensar com calma e da circulação dos espetáculo....
Isso tudo só o primeiro ano.
Ahhh! Levantamos de novo a possibilidade de convidar os atores do ruído....o trabalho com eles tem sido afinado e ficamos com vontade de convidá-los tanto pelo que eles podem enriquecer o trabalho, quanto pela entrega que estão tendo sem receber, por enquanto, nada como troca financeira. O que acham?
Por fim , uma encanação minha: Será que é bom escrever sobre novos projetos no blog, pode ser besteira mas, é um projeto que não está pronto e acho estranho escrever sobre ele numa página, teoricamente aberta. Dependendo do que clicarem em busca, chegam aqui... Sei lá posso estar sendo louca, mas isso é realmente nosso assunto e de mais ninguém !!!
Bj
Ma Corazza
13 de novembro de 2008
Re: [Correspondências] ja comentando
rsrsr
Na primeirta fase eu "não" abriria mão do Butoh, Artaud eu entendo não entrar.
Não duvido que exista uma literatura extraordinária na Russa (conheço alguns dos citados e gopsto muito), mas não sei se precisamos fechar na Russia. Literatura extraordinário tem no mundo todo. a gente sempre vai encontrar alguém que nos instigue muito... enfim...
Mas ainda acho que poderíamos ter uma construção dramatúrgica própria....
Só pra continuar causando...
Beijos
Tha
comentarios breves, já que eu passeipor aqui antes de ir cormir...
primeiro, acho que a gente realmente deve se conter quanto à QUANTIDADE de técnicas experimentadas, para que o trabalho com cada uma delas seja significativo. Por isso propus o numero de 4, me parece que mesmo com as diferentes etapas dentro de cada módulo, conseguimos um tempo bom para apreender a técnica, que é ao meu ver o que mais importa nesse momento.
Segundo, importante: estou tentando falar de técnicas de interpretacao (ok, interpretacao nao é a melhor palavra, já que butoh, por exemplo nao é interpretacao, mas de técnicas cênicas, por assim dizer). É importante ao meu ver, pensarmos sobre essa ótica prática. Artaud, por exemplo, pode ser um grande pensador, mas nao desenvolveu uma técnica, por isso eu nao o tomaria como possibilidade
Terceiro e último quanto aos russos: me parece que foi um direcionamento discutido na nossa reuniao, por isso o coloquei. Por outro lado, entendo a excessiva montagem de Tchecovs como um ponto negativo ao projeto, e esse é um dos motivos pelos quais propus essa abordagem mais genérica. Em tempos, Thais: há muito mais (e muuuuuuuito mais) vida inteligente na literatura russa alem de tchecov. So pra pegar alguns exemplos: dostoiewski, maiakowski, turgeniev, gorki, etc. Alias, alguém conhece um romance chamado verao em Baden-Baden do Leonid Zypkin? É um dos livros mais incriveis que eu li nos ultimos tempos (e é russo)
beijos
mau
--
Postado por Mauricio Veloso no Correspondências em 11/13/2008 07:45:00 PM
--
Thaís de Almeida Prado
http://thathais.multiply.com
grupos:
http://ciaautoretrato.multiply.com
http://corrosivo-olharescaldeiras.blogspot.com
sobre:
http://tr.premiosergiomotta.org.br/?p=95#more-95
ja comentando
primeiro, acho que a gente realmente deve se conter quanto à QUANTIDADE de técnicas experimentadas, para que o trabalho com cada uma delas seja significativo. Por isso propus o numero de 4, me parece que mesmo com as diferentes etapas dentro de cada módulo, conseguimos um tempo bom para apreender a técnica, que é ao meu ver o que mais importa nesse momento.
Segundo, importante: estou tentando falar de técnicas de interpretacao (ok, interpretacao nao é a melhor palavra, já que butoh, por exemplo nao é interpretacao, mas de técnicas cênicas, por assim dizer). É importante ao meu ver, pensarmos sobre essa ótica prática. Artaud, por exemplo, pode ser um grande pensador, mas nao desenvolveu uma técnica, por isso eu nao o tomaria como possibilidade
Terceiro e último quanto aos russos: me parece que foi um direcionamento discutido na nossa reuniao, por isso o coloquei. Por outro lado, entendo a excessiva montagem de Tchecovs como um ponto negativo ao projeto, e esse é um dos motivos pelos quais propus essa abordagem mais genérica. Em tempos, Thais: há muito mais (e muuuuuuuito mais) vida inteligente na literatura russa alem de tchecov. So pra pegar alguns exemplos: dostoiewski, maiakowski, turgeniev, gorki, etc. Alias, alguém conhece um romance chamado verao em Baden-Baden do Leonid Zypkin? É um dos livros mais incriveis que eu li nos ultimos tempos (e é russo)
beijos
mau
Re: [Correspondências] projeto petrobras
Oi Mau,
a meu ver é por ai.
me interessaria muito trabalhar na primeira fase com Stanislawski, Artaud, Grotowski, Pina Bausch, Clown, Bufao, Butoh, Estranhamento Brechtiano, Contact Improvisation. Mesmo eles sendo aparentemente tão distintos... mas acho importante descobrir destas formas todas o que é "essencia" na arte.... (pensando grande... rs)
Ja no segundo ano, me questiono se deveriamos nos fechar à russia, se passaremos por tantas culruras e leituras no primeiro ano. e porque não a construção de uma dramaturgia própria??? a partir do trabalho destes estudos do ator e tal... Além do mais ultimamente voltou a estar na moda a russia... (não que ela tenha saido da moda, mas ultimamente todo mundo ta montando um tchekov...)
No geral acho que vai por ai...
mas nao estava na reuniao hoje a tarde então fiquei meio por fora...
Beijos
Tha
projeto petrobras
de forma curta, algumas informacoes que estou pensando para a petrobras. O pinem critiquem, discordem... É mais pra gente poder iniciar uma discussao do que qualquer outra coisa
duracao do projeto: dois anos
primeiro ano: pesquisa sobre técnicas de interpretacao que tomam a individualidade/pessoalidade (existe essa palavra ou é nossa criacao) como ponto fundamental do processo criatico
segundo ano: montagem de um espetáculo a partir da experiencia compartilhada durante o primeiro ano de trabalho. Partindo do processo atual da companhia (sobre as carta do TAM), gostaríamos de continuar nos debrucando sobre o universo russo; durante o primeiro ano serao experimentados trechos de algumas obras de autores russos de importância e a partir dessa experimentacao definiremos a obra a ser trabalhada no segundo ano (pensei em colocar dessa forma pq ainda nao temos certeza sobre o Tchecov - pelo que me lembro, talvez a Nat tivesse problemas e eu nao estou bem convencido - mas ao mesmo tempo é uma forma de indicarmos um universo sobre o qual nos debrucaremos e escolheremos o espetáculo do segundo semestre. Pretendo ainda citar alguns nomes...)
estrutura de trabalho - primeiro ano
quatro módulos de interpretacao:
(definir esses quatro módulos me parece o mais difícil do projeto por enquanto. De qualquer forma, me parece que há dois caminhos possíveis: um seria buscar técnicas o mais distintas possíveis, desde que elas trabalhem essa criacao a partir do individuo, o outro seria já optar por uma linha mais clara de foco pra definir esses quatro módulos (exemplos: construcao de personagem a partir da individualidade, uso do corpo como ferramenta criativa, etc.)
Algumas possibilidades que me ocorrem, de toda maneira:
Stanislawski, Grotowski, Pina Bausch, Clown, Bufao, Butoh, Estranhamento Brechtiano, Contact Improvisation. (como vocês podem perceber, há muitas possibilidades)
Pensei em cada módulo ter entre dois meses e meio (se a gente achar bom reservar um mes antes e um mes no final do ano para questoes burocráticas, de producao e organizacao) e três meses (se vocês acharem isso desnecessário). Pensei também que cada módulo teria quatro partes:
1. aproximacao teórica sobre o tema (feita por nós, sozinhos, a partir talvez de uma bibliografia sugerida pela pessoa que vai trabalhar conosco)
2. etapa de assimlacao técnica (esse nome é horrível): período de mais ou menos um mês em que trabalharíamos ligados a alguma pessoa que tem o domínio dessa técnica e cujo objetiva seria nos debrucarmos sobre ela (a técnica pura, independente das nossas vontades e projetos)
3. etapa de introspeccao: seria o momento de, novamente sozinhos, buscarmos a relacao entre essa técnica e o nosso método de trabalho. Nessa etapa estariamos novamente sozinhos, e poderiamos trabalhar nessa assimilacao tanto individualmente quanto em grupo
4. contato com o público: seria o momento em que testaríamos essa tecnica/sua introspeccao em relacao ao espectador. Essa etapa implicaria provavelmente também num breve momento de aglutinacao do material, mas num processo, ao meu ver, muuuuito simples, sem se preocupar com a construcao do discurso.
ok, acho que pra comecar a visualizar a primeira etapa é isso...
segunda etapa: essa é uma grande névoa pra mim. Nao sei nem por onde comecar, considerando que nao temos o texto definido, nao sabemos ainda exatamente em que estrtura vamos trabalhar, qual o nosso objetivo cênico, etc. Me parece que o que vale a pena tentar pensar aqui, sao conceitos gerais e coisas objetivas, do tipo:
conceitos, e por aqui entendo coisas que sao inerentes ao trabalho da auto-retrato, por exemplo, a questao da intimidade e de uma relacao próxima com o público; um olhar poético sobre a realidade e sobre a linguagem cênica, etc.
seria talvez pra se pensar: quando, onde e como queremos apresentar. Já que tudo é tao abstrato, acho que seria de bom tom se conseguíssemos trazer um pouquinho de concretude, e isso ajudaria. É claro que nao dá pra dizer, estreamos em 15 de outubro de 2010 na igreja da sé, mas pelo menos uma declaracao de intencoes, por exemplo de uma duracao de temporada, eu sugeriria estratégias para captacao de público, etc.
isso é o comeco da ideia, opinem...
beijos
mau
2 de setembro de 2008
coisas práticas... de vez em quando é bom, rsrsrs!
acho super bacana a coisa do edital do intercâmbio mas o fato é que nesse momento não vou me comprometer a olhar por falta absoluta de tempo. Se vc tiver esse tempo, pode olhar e passar pra gente?
Mau, algo novo sobre o espaço?
Beijos a todos
Nat
ps: nessa semana, pra quem não sabe, eu fui ver o ensaio do Ruído...
Tão bom entrar num lugar e sentir que você conhece aquilo... com nuances e novidades, mas a Auto-Retrato estava ali!
Beijos e beijos e vou mais!
27 de agosto de 2008
Apresentação do Mau
Faz tempo que não escrevo, mas estou por aí...
acho bacana a gente dar uma olhada com carinho no edital de intercambio cultural.
Sobre a apresentação do Mau, acho que posso arranjar um espaço, duas probabilidades:
um é um ateliê muito bacana aqui perto de casa... tenho uns projetos com eles, o dobras do extemporaneo;
e outro na casa das caldeiras porque estou desenvolvendo um projeto com o "corrosivo" um coleitvo de artistas que estou fazendo parte...
no caso da casa, teria que ver com O responsável pelas residencias...
no ateliê acho que é mais fácil e eles adorariam tb.
Todos são artistas que querem fazer intercambios, isso nos dois coletivos.
os blogs deles eu coloquei aqui na lista de links.
NESTA QUINTA ESTOU PROGRAMADA PRA VER O ENSAIO DA CIAAAA.
BEIJOS
THA
19 de agosto de 2008
Por hora, só para avisar que não dá pra ser aqui no salão do prédio - no final de agosto vai começar uma reforma...
Conversando com a Má Co a gente pensou na casa dela ou na Balagan. Inclusive, se for na Balagan, de repente é o caso da gente pensar também em mostrar algo do Ruído.
Acho que a gente precisa, sim, fazer um encontro Auto-Retrato. Pelo menos, uma grande conversa/discussão.
Beijos e até breve!
Má Tranjan
17 de agosto de 2008
Que delícia que vc. está vindo pra cá!!
Não sei se a Má viu o Blog, então vou perguntar para ela do salão do prédio.
Apesar de estar a maior correria podemos fazer um segundo encontro parecido como aquele que fizemos em janeiro, o que acham????
Estou numa semana bem corrida, foi o prazo para enviar projeto para o PAC (estadual)... então por isso não consegui ainda escrever como quero sobre nossas escolhas e , em especial, sobre o Seis da Tarde.
Tenho pensado muitas coisas para escrever mas não quero escrever de qualquer jeito, gosto de escrever quando não tenho que me preocupar com o que eu tenho que fazer nas próximas horas, só daí consigo encontrar as palavras adequadas e que podem gerar mais movimentos.
Essas escrita não deixa de ser um processo criativo e eu quero respeitá-la como tal.
Tal tardarei... prometo!
Beijos e saudades
Marina Corazza
14 de agosto de 2008
Eu estou indo pro Brasil chego no 07 de setembro.
Nós vamos fazer algum tipo de encontro da companhia?
no 01 de setembro eu faco um ensaio aberto do meu solo por aqui.
Gostaria muito de poder fazer o mesmo por ai. Vocês me ajudam a organizar?
(uma coisa intima, só pra voces e mais alguns amigos)
pensei de repente que poderia ser no salao de festas do prédio da Matran. Mesmo que eu tenha que pagar alguma coisa, desde que nao seja muito. Pra minha seria legal ser logo que eu chegar ou logo antes de eu ir embora (no 19 de outubro, por exemplo)
beijos
aguardo noticias
mau
12 de agosto de 2008
Berlin, 12 de agosto de 2008
primeiro, é bom ter noticias, mesmo que as noticias talvez nao sejam exatamente as que a gente gostaria de ouvir... É bom saber que ainda existe a vontade de discutir, de experimentar, e todo conflito é importante como etapa de acerto, de nova percepcao do que está acontecendo, o confronto só acontece porque ele é necessário e porque todas as partes se importam e querem se sentir representadas. Antes o confronto do que a indiferenca, do confronto é possivel se encontrar um novo caminho, da indiferenca só pode surgir a estagnacao. Só pra pontuar a discussao, e ajudar a expressar o que eu penso, vou recorrer a um trecho do texto de Ludwik Flaszen, o "dramaturgo" do teatro de Grotowski, escrito para o programa de Doktor Faustus:
" (...) o treinamento do ator aqui nao pode ser separado do desenvolvimento completo do trabalho; para nós, cada personagem, cada producao nao deveria ser um objetivo em si, e sim um exercício, a preparacao para um exercício ainda mais complexo, a entrada em um universo até entao nao investigado (...)"
Sobre o segundo tema, com o qual eu realmente posso colaborar, a discussao que eu e a Nat comecamos sobre a pesquisa do grupo. Acho que nao preciso acentuar o quanto julgo a discussao importante, acho que já disse e repeti isso, por isso vou partir direto pra prática e propor uma nova abordagem pro problema a partir da solucao colocada pela Má. Proponho, pra comecar o raciocício, que facamos o caminho inverso: pensar, a cada processo, quais foram as questoes investigadas, o que nos motivou a fazer cada espetáculo. Pra mim parece ser mais simples como organizacao, porque nao tenho bem certeza das temáticas que cada um abrange, e pensar a partir deles me parece facilitar o desenvolvimento do raciocinio. Ai vai:
O Silêncio dos Mortos - possibilidades de combinacao entre texto e movimento; uso do corpo como uma ferramena expressiva com significado próprio, além da mera representacao do proposto no texto.
Esbocos sobre Picasso - novamente possibilidades de combinacao entre texto e movimento; início da pesquisa sobre como a individualidade de cada performer poderia ser utilizada como ferramenta criativa; composicao de uma dramaturgia criada a partir do processo de ensaio; criacao de uma dramaturgia presente, que só pode ser compreendida em conjunto com a encenacao na qual está inserida.
Voo Solo - combinacao entre texto e movimento; aprofundamento da pesquisa sobre o uso da individualidade como ferramenta criativa; aprofunamento da pesquisa de dramaturgia, propondo um tema como elo de ligacao entre as diferentes cenas do espetáculo.
Retornarse - ápice da pesquisa sobre a individualidade do performer, tornando-se ferramenta e tema do trabalho. Busca de uma forma performática nao interpretativa, nao representativa; investigacao sobre a possibilidade de comunicacao direta com o espectador; intensificacao da dramaturgia presente a partir do uso da improvisacao como jogo de cena. Busca de um novo espaco de apresentacao, que permitisse/aprofundasse a possibilidade de relacao entre ator e espectador.
80 por minuto - ?
Nao distância - como o processo de criacao a partir da individualidade de cada performer ( a essa altura já uma metodologia de trabalho) pode ser influenciado pela presenca de um material anterior que conduza o processo criativo. Como a dramaturgia do presente e a encenacao podem ser influenciadas por esse material criativo pré-existente. Aprofundamento da pesquisa de descoberta de um espaco cênico apropriado ao tipo de comunicacao pretendida entre ator e espectador
Ausência - mesmas questoes do nao distancia, a excecao do uso do espaco.
Seis da Tarde - ?
Acho que é isso pra comecar. Se eu fosse pensar nas minhas inquietacoes do trabalho, eu listaria elas portanto nessa ordem, de forma cronológica:
1. Uso do corpo como ferramenta expressiva independente do texto
2. Investigacao das diferentes relacoes possíveis entre corpo e texto
3. Busca de uma potencialidade expressiva pertencente a cada corpo.
4. Busca de uma qualidade criativa/expressiva ligada ao uso e expressao da história de cada corpo.
5. Desenvolvimento de uma dramaturgia específica para permitir a expressividade desse corpo, baseada na composicao interrelacionada entre interpretacao, encenacao e dramaturgia
6. Busca de um tempo (presente) e um espaco (intimidade) na qual essa dramaturgia pudesse se concretizar.
7. Busca de estímulos para aprofundar a pesquisa da individualidade, através do ampliamento do potencial de cada corpo.
acho que é isso, pra comecar
acho que agora estamos aquecendo
outro dia escrevo sobre os procedimentos de trabalho, mas acho que senao fica muita coisa de uma vez só pra assimilar.
beijos a todos
mau
7 de agosto de 2008
Conversei um pouco com a Ma Tranjan hoje, mas ainda não abrimos totalmente as questões para o grupo do Ruído porque o Caetano não está em São Paulo, vamos conversar na segunda.
Escrevi muita coisa sobre o trabalho que estamos ensaiando mas pouco sobre a relação dos núcleos e a questão inicial sobre nossa identidade.
Só queria amarrar tudo isso.
Acho que a dificuldade que estamos tendo de trocar sobre nossas pesquisas começa na fragilidade que temos (nós nucleo MaNatMaCae) em conceituar o que estamos fazendo. Refletir sobre a nossa prática levando em conta tudo o que coloquei no e-mail anterior vai não só aprofundar o trabalho que estamos fazendo aqui, como enriquecer nossas trocas e nos levar na direção de que coletivo é esse que culminou nestes três núcleos. (sei que estou escrevendo como uma professorinha, mas não me julguem por favor, é o sono).
Assim, para começar de forma simples e objetiva proponho que a gente enumere desde os primórdios, as investigações que nos interessaram (acho que isso mora no recorte da metodologia, dos princípios) e descreva sinteticamente quais procedimentos foram escolhidos e transformados para desenvolver essas pesquisas.
Também estou propondo isso como forma de nos auxiliar a olhar para todo este material e identificar o que faz sentido ser redescoberto neste novo trabalho, como atualizar para este contexto caminhos que já começamos a trilhar.
Para ser mais clara:
- movimento x texto - em esboço sobre picasso existiam partituras corporais criadas por meio da relação com determinadas obras. A essas partituras sobrepunham-se fragmentos de depoimentos dos próprios artistas. (Quais instruções eram mais adequadas, quias eram os perigos, etc...) Quais eram as referências teóricas e práticas? Pina Bauch?
- busca por estados e não personagens - processo que começou no Não-distância??? Mesmas perguntas
- a busca pelo depoimento sincero - Retornarse, quais foram os procedimentos
- a busca pela relação com a platéia - retornarse, identidade em crise
- o gérmen da performance - idem
- a persona - Seis da Tarde
Enfim , estou sendo superficial para lançar um debate pela rede sobre estes nossos caminhos de forma cronológica como se pudéssemos montar um mapa de como temos tentado resolver expressivamente/cenicamente nossas inquietações.
Além disso vou propor pra o núcleo Ruído na segunda que a gente traga mais as referências especialmente de Stanislavski para problematizar nossos improvisos, a criação das cenas. Não estou propondo que a gente pare para "pesquisar", mas que a gente crie maneiras de deixar essa pesquisa dialogar mais com o trabalho...
Bom, mil coisas
O que acham
Beijos
Marina Corazza
Mesmo tão distante (por absoluta falta de tempo) vocês são minha referência, minha casa, meu pertencimento, para onde se destinam meus pensamentos, sempre.
beijos e quero tentar ir semana que vem a um ensaio, ok?
Saudades
Nat
6 de agosto de 2008
Quero que fique muito claro antes de qualquer coisa que o que estou escrevendo aqui expõe desafios, diferenças, mas nós já passamos por momentos de crise muito maiores e que foram importantes para aprofundar nosso trabalho.
Má e Caetano, desculpe tratar isso aqui abertamente e não pessoalmente, mas como eu escrevi abaixo, por motivos que não dependem só de vocês, nós não estamos tendo espaço para dialogar como fazíamos antes e para mim um coletivo se constrói justamente da fricção.
Se está tudo muito morno, insosso, desconfie.
Não é uma ode à crise, mas uma consciência de que precisamos ser provocadores uns dos outros sim! É a necessidade vital da clareza, da sinceridade e do prazer de fazer teatro. Não é por acaso que estamos a tanto tempo juntos!
Beijos e antes de mais nada amo muito vocês e o nosso trabalho!!!
Aqui vai:
Eu concordo muito com o Mau e a Naty, uma coisa não pode estar desconectada da outra. O fluxo, a liberdade, o criar fluem na medida que se tem referências mais claras, não certezas, mas pontos a serem problematizados, provocações que inquietam....
Está sendo muito difícil para mim lidar com a situação de ser a única atriz do grupo, junto com o Caetano e a Má claro, em meio a atores convidados. O problema não são eles, de forma alguma, mas parece que não podemos tratar de assuntos que fujam do "bom andamento da montagem".
Estamos tendo pouco tempo de ensaio por questões de sobrevivência e as poucas vezes que tento nos ensaios questionar algo sobre o percurso, parece fora de contexto. Nos nossos ensaios atuais não há espaço para a crise porque nos comprometemos com as pessoas, temos prazos, etc.
A verdade é que eu estou muito infeliz e isso inclui o que eu acho que os ensaios poderiam ser e não estão sendo (sei que estou exagerando porque não estou em bons dias). Eu estou trabalhando muito, dando muita aula e me sinto burocrática o que é horrível, é tudo o que eu não quero para mim. Bom, o fato é que eu estou me sentindo fraca para insistir em questões que realmente não parecem importantes para o Caetano e a Má.
Eu sei que temos muito material para ler e estudar(as peças do Tchekhov, as cartas), mas parece que estamos num processo cujo foco é simplesmente construir uma dramaturgia cênica e sinto muita mais muita falta mesmo de pensar/agir/experimentar/conceituar/agir sobre o trabalho do ator, sobre o nosso material expressivo, talvez daí vocês pensem "bom, esse é o trabalho de cada um", mas eu acho justamente que é ai que reside a importância de sermos um coletivo, senão somos somente um elenco. Eu tenho tentado levantar questões sobre o jogo, propus que lêssemos o que o Matteo Bonfitto escreve sobre a composição da ação física, mas tudo ficou no vazio.
Estamos correndo contra o tempo por não termos grana, e por isso não nos aprofundamos, mas eu me pergunto então, porquê, qual o sentido?...não quero me furtar de agir com a companhia como sou obrigada a agir com outros trabalhos que tenho que fazer concessões.
No início do ano eu , a Naty, a Má e o Caetano tínhamos conversado que gostaríamos de fazer um processo mais curto, partindo de repente de um texto pronto, mas naquele momento nós estávamos no fluxo do Seis da Tarde, respirávamos nossos procedimentos e metodologias. Agora as coisas mudaram, o material que escolhemos está longe de ser simples e temos três atores diferentes trabalhando com a gente. Não sei se pela trabalho que vocês têm com o cinema ou se pela demanda dramatúrgica deste trabalho, sinto que as questões de vocês estão na encenação, na forma e eu me sinto um pouco desmotivada. Para mim não podemos deixar o trabalho do ator num lugar "de cada um se resolve" e é para mim justamente aí que não podemos de forma alguma deixar de pensar, refletir e propor práticas que tragam à tona essa pesquisa de interpretação sim.
Sei também que cada trabalho é diferente do outro e que numa companhia temos que ceder ora para um desejo mais ardente de um, ora para um desejo mais ardente de outro e que nestes anos todos sempre trabalhamos muito partindo do ator. Por isso acho saudável o fato de vocês estarem na condução deste processo com um olhar mais cuidadoso para o todo, porém, apesar de não precisarmos partir do ator para construir uma peça, não podemos deixar de lado essa investigação e por isso , Má , não dá para não estudar, não buscar referências, não fazer escolhas e seguir simplesmente num fluxo intuitivo. Sei que na nossa dinâmica de pesquisar e ensaiar já moram muitas das nossas escolhas e metodologias anteriores, mas chegamos num ponto que precisamos avançar mais porque sinto que elas já se cristalizaram.
Tudo isso não é responsabilidade só de vocês, mas sinto necessidade de respirar, de poder falar o que penso, de ouvir o que o Edu, a Carla e o Camilo tem a dizer mesmo que o processo saia do controle, do previsto por vocês. Desculpe mas para mim é isso que representa fazer parte de um grupo. Não adianta criarmos todas as cenas e tomarmos as decisões juntos se não existe espaço para realmente dizer o que se pensa.
Aiiii... não sei mais o que falar e não quero bodiá-los, é justamente por querer muito continuar cultivando a nossa parceria que escrevo tudo isso.
Tem sido importante para nós estabelecer prazos, mas não quero que nosso trabalho seja mais um trabalho entre tantos os outros que faço para sobreviver, não quero me furtar de ter espaço para colocar minhas questões artísticas.
Para finalizar, eu gosto de pensar o trabalho do ator, eu gosto de montar quebra-cabeças para provocar a criação, é isso que eu faço nas oficinas que dou e com muito prazer. Eu me ofereço para pensar um pouco mais este aspecto com vocês... sabe, quais instruções escolher, como propor para que o jogo aconteça, o que propor para que os atores sejam estimulados a ir além. Não vou acertar sempre, mas tenho prazer em fazer isso (e certa prática também).
Um grande beijo a todos
Marina Corazza
5 de agosto de 2008
o Mau postou algo exatamente no momento em que eu ia postar também. E pra dizer coisas muito parecidas, rsrsrsr.
Na verdade, tenho medo de que a necessidade de conceituar se torne uma obrigação. Mas acho que é um exercício necessário, uma forma de não separar as coisas, prática e conceito. E sinceramente acho que conceituar é uma forma de ampliar a nossa própria prática. Cada vez mais tenho certeza disso. Minha experiência na Balagan tem me mostrado demais o quanto as duas coisas são indissociadas, alimentam-se mutuamente. O conceito faz emergir uma prática às vezes muito mais potente, uma reflexão sobre o que foi realizado às vezes faz dar saltos e saltos no caminho que, de outra forma, seria lento e bem mais tortuoso; além disso, a prática inevitavelmente cria conceitos o tempo todo. Sempre insisto com vocês no fato de que temos sim, ao longo desses anos todo, criado nossos próprios caminhos poéticos e conceituais, e ainda quero insistir mais um pouco (e lembrando que eu acho muito que isso vai além da dicotomia corpo X palavra...)!
Todo grupo tem aqueles momentos na criação em que acontecem uns entraves, momentos em que a coisa se repete e não se renova, no sentido negativo mesmo, não estou sequer falando das formas. Mas sinto que, no nosso caso, cresceríamos muito se tomássemos consciência do que temos feito, porque isso certamente nos eluciadaria muito sobre o que queremos fazer, sobre o que estamos fazendo agora. E, parece bobo o que vou dizer, mas a consciência é o primeiro passo para buscar outras coisas. É claro que podemos dizer, Má, que não é nosso momento, mas talvez porque a gente esteja entendendo conceituação como algo acadêmico, o que não é, e esteja desacostumados mesmo, e isso dá mesmo preguiça, parece mais difícil do que é.
A intuição, como diz o Mau, também gera conceitos, gera procedimentos, gera condutas, gera vontades. Enfim... concordo com o Mau que é um momento de fazermos esfrços pra pensarmos sobre nossa prática, e sinto muito a necessidade de ouvir mais todo mundo.
Isso que escrevo não é uma pressão. Acho que manifesta mais minha profunda crença na importância dessa nossa discussão.
beijos a todos
Nat
ps: Má, estou sim lendo o Van Gogh (aliás, ele me alimenta muito nesse sentido todo dessa nossa conversa...)
abaixo, trechinho dele que me tocou muito, ontem, quando li:
"Ah, parece-me cada vez mais que as pessoas são a raíz de tudo e, embora seja eternamente melancólico não viver a verdadeira vida, no sentido de que valeria mais trabalhar a própria carne que a cor ou o gêsso, no sentido de que valeria mais fabricar crianças que fabricar quadros ou fazer negócios, ainda assim sentimo-nos vivendo quando pensamos que temos amigos entre os que também não estão na verdadeira vida."
(Van Gogh)
4 de agosto de 2008
Berlin, 04 de agosto - Resposta e convocatoria
escrevo rapidinho para comentar a postagem da Má...
Pensar da um pouco de preguica, eu sei, mas realmente acho que temos que tomar cuidado pra nao deixarmos de refletir sobre a prática que fazemos. Especialmente nós diretores... Isso é o que faz com que o trabalho evolua, ainda que seja sem dúvida muito mais prazeroso se envolver pelo fluxo da prática. Você bem sabe o quanto meu processo criativo é intuitivo e que muitas coisas sao na prática mais fruto de um "acaso" do que de uma premeditacao. E exatamente por isso é que a reflexao se torna tao importante, porque senao o processo continua no inconsciente, pensar nos faz ter mais clareza sobre o processo que desenvolvemos, nos permite aplicá-los com mais eficácia e profundidade, nos faz definir objetivos futuros... Claro que pra nós, cuja prática nao está diretamente ligada à prática da companhia essa reflexao se torna mais latente, talvez mais necessária, mas ela nao se completa se as pessoas que hoje fazem parte do núcleo "ativo" (para dar algum nome) da companhia nao entrarem na friccao. Porque se só eu a Nat e a Thais opinarmos, tenho certeza de que certos aspectos do trabalho vao ser enfatizados, porque fazem parte da nossa história e da nossa característica individual, mas só com uma discussao realmente ampla e coletiva é que podemos chegar a alguma conclusao realmente interessante.
Só pra convocar todo mundo mais uma vez pra discussao, especialmente Caetano, Macô e Matran, que sao as pessoas que podem fazer o link entre passado e presente de maneira mais precisa, já que vivenciaram/vivenciam os dois.
E falei, e nao vou continuar antes de ouvir vocês...
beijos
Mau
31 de julho de 2008
Estou há um tempo lendo pra me colocar em dia com o blog. Desde que eu fui viajar, ele tinha saído do meu cotidiano e não tinha voltado mais a fazer parte da rotina. Agora, estou de volta!
(gostei tanto do texto que a Carla postou, o do Borges...)
Acho importante a discussão sobre a Cia, e acho que vocês estão colocando a coisa toda de um modo leve, interessante. Foi gostoso ler, pensar a respeito. Mas confesso que exatamente agora eu não tenho vontade de me manifestar sobre o assunto - apesar de ter sido chamada na chincha... hehe.
Repito: a questão não é achá-lo desinteressante ou desimportante. Parte da questão é apenas o avançado da hora... Mas, falando sério, tenho de dizer que, por algum motivo que eu ainda estou tentando identificar, eu tenho a cabeça com menos perguntas do que a de vocês. Eu confesso que frequentemente me sinto burra ou vazia por isso. Mas hoje é um dia de bom humor e eu me sinto apenas diferente.
Lendo algumas "dicas" que vocês, talvez principalmente o Mau, vão colocando no caminho, me dá aquela sensação de alguém colocar em palavras algo que se intue e se sente. Mas eu só tenho vontade de ir atrás dessa clareza de palavras quando é para escrever algum projeto. De resto, acho que o fazer vai dando conta de suprir esse questionamento em mim, ou de preencher esse espaço de dúvidas (não preencher no sentido de resolvê-las, mas sim, no sentido de dialogar com elas de outra maneira). Eu estou muito, muito ligada ao novo processo e sei que é complicado falar do fazer numa companhia que se encontra parte cá, parte lá. Mas talvez essa seja a minha questão. Eu acho que muito do que é da gente surge e se manifesta no dia-a-dia do trabalho. Minha sensação é a de que, se hoje o Mau e a Gabi, ou a mesmo a Nati e a Thaisinha que, por motivos diferentes, estão "afastadas", voltassem a entrar em sala de trabalho com a gente, faria perfeito sentido. E isso não é pouco. E, como a Gabi sabiamente falou na carta dela, o simples fato de que essas presenças estariam lá, faria dos resultados coisas completamente diferentes. Acho que eu já falei isso, mas para mim é curioso que, enquanto nós estamos sempre às voltas com essas perguntas, o Rui, que tem um pé dentro e um pé fora, não tem nunca nenhuma dificuldade de reconhecer nossos trabalhos como da Companhia. Quando ele viu o Seis da Tarde, ele achou claramente uma continuidade de pesquisa, sem dúvida alguma (coisa que eu também acho), quando eu conto coisas do Ruído Branco, em várias delas ele fala "bom, isso não precisa nem falar" (siginificando que pelo simples fato de ser da Companhia, tal característica já era de se esperar, já é parte intrínsica do nosso modo criar). Eu confesso que tenho essa sensação, sempre tive - que a gente tem mais coisas juntos do que da conta de falar. O que não é orgânico pra mim agora é tentar colocar isso em palavras claras - que fique claro, eu estou falando somente de mim. Me parece que isso vai ser uma questão infinita e insolúvel sempre que estivermos separados; talvez nada substitua o criar juntos, o dia-a-dia de uma companhia.
Estava me sentindo mal de escrever isso quando, lendo coisas mais antigas do blog, me deparei com um texto da Nati que fala de uma mulher que a Maria Thaís trouxe para o Ecum, sabem? Enfim, a Nati falava bastante da questão da simplicidade e contava que depois do sei-lá-o-quê da mulher (palestra? aula?) houve um silêncio de 10 minutos, até que alguém resolveu perguntar sobre o Grotowski; e que ela teria questionado se aquela pergunta era realmente a mais espontânea que aquela pessoa queria fazer naquele momento. Meu resumo foi péssimo, tentem reler. Mas me deu uma sensação de que ok, tudo bem essas perguntas não serem espontâneas pra mim agora, sem que isso queira dizer que eu estou desinteressada da cia, ou algo do gênero. E eu acabei fazendo uma pergunta pra mim mesma: por que é que eu vivo querendo pensar menos, ser menos analítica ou crítica, viver o que está acontecendo, coisa e tal, e quando eu estou finalmente nesse estado, como é o caso do meu momento na Cia, eu fico achando obrigatório buscar tudo isso de volta?
Enfim, trocando em miúdos, explicitamente me abstenho da discussão por hora. Quando eu achar que tenho algo a acrescentar ou quando ela repercutir mais dentro de mim, prometo me manifestar.
Nati, você está lendo o Cartas a Théo? Ou ainda está na paquera?
Mau, eu já vi um espetáculo da Dani Lima e gostei bastante. Mas não lembro o nome (existiam umas formas geométricas vazadas no palco, e os bailarinos se relacionavam com elas)... Você sabe qual é?
Bom, a hora avançou mais ainda. Vou dormir.
Beijos grandes e saudades!
Ma Tranjan
22 de julho de 2008
parte de um trecho que o Mau me escreveu e que, ainda sem autorização dele, compartilho com vcs.
Gostaria de ouví-los... Má Tranjan, Cae...?
bjs
Nat
"... vamos tentando clarear um pouco que diabos é isso que se chama companhia auto-retrato nos dias de hoje... Volto ao ponto que me parece mais polêmico, ou pra usar uma palavra melhor, mais obscuro... A questao do uso da pessoalidade como ferramenta criativa.
Tenho por um lado uma tendência a concordar com você quanto à importancia, ao destque que isso tem no histórico da companhia. Todo mundo trabalha a partir da pessoalidade de uma forma ou de outra, como eu disse antes, mas talvez a clareza de definir isso como método principal de trabalho seja um ponto importante. Acho apenas que dizer: processo criativo baseado na pessoalidade é muito vago, acho que precisamos entao encontrar o que é realmente específico dentro do nosso uso da pessoalidade, que difere por exemplo de uma construcao de personagem com memória emotiva ou as perguntas da Pina Bausch... E de repente, enquanto eu escrevia pra você e refletia simultaneamente, me ocorreu que talvez nao seja o fato de que partimos da individualidade pra criar, e sim o fato de que buscamos expressar essa individualidade o fator diferenciador do nosso processo. Ou, colocando em outras palavras, a gente nao trabalha a individualidade como forma de preencher uma referencia externa, seja ela um texto ou uma encenacao pre concebida, mas sim como uma tentativa de dar uma forma concreta a essa individualidade, pela qula ela possa se expressar. E a busca das potencialidades criativas do corpo, nesse sentido, é só uma consequencia natural, já que o corpo é um aspecto importante dessa individualidade..."
ps: Mau, desculpa, mas achei importante demais o que vc disse e essa nossa conversa toda pra ficar só entre a gente
Beijos
Nat
11 de julho de 2008
Momentos de reflexao
Como sempre, penso demais. Mas o fato é que tenho pensado muito sobre a Companhia, especialmente depois de toda essa conversa ao redor do fomento, de quais espetáculos deveriam ser incluídos em um projeto de repertório da companhia, e do fato do mas nao ser ou nao parte desse repertório, e há uma pergunta que nao me sai da cabeca:
O que nos faz, hoje, uma companhia, mesmo que separados no espaco?
Ou melhor colocado: o que nos une a ponto de podermos dizer que temos trabalhos guiados pelos mesmos principios, a ponto de serem considerados de um mesmo grupo?
Ou pro fim: qual a filosofia que nos mantem unidos, apesar da distancia espaco tempo?
coloco essa discussao porque algumas vezes sinto que muito do fato de sermos uma companhia está ligada a coisas que aconteceram no passado, e acho que uma discussao como a que houve só aconteceu porque nao está claro pra ninguém qual é o principio que nos une. Eu, por exemplo, nao acredito que qualquer trabalho que eu dirija ou faca faz parte da companhia simplesmente pelo fato de ser dirigido por mim, mas entao preciso entender e conseguir separar os meus principios de trabalho individuais daqueles que sao coletivos.
Pode parecer uma mera punhetacao filosofica, mas eu realmente acredito ser importante... A companhia esta em claro processo de transformacao, e acho importante sabermos pra onde estamos querendo ir, pra evitar que simplesmente sejamos conduzidos pela correnteza do trabalho prático.
Comeco a discussao tentando levantar algumas pistas... Pelo que me recordo, a companhia tinha, na sua origem, três pontos básicos de investigacao (ainda que naquele momento a gente nao tivesse tanta clareza ou pudesse se expressar de forma adequada) : a busca das possibilidades expressivas do corpo e do movimento; a pesquisa de uma dramaturgia específica que conjugasse corpo e palavra, uma dramaturgia que fosse composta junto e para o movimento; o uso da individualidade de cada performaer como fator determinante do processo criativo.
Ao que me parece, e por favor, nao quero em momento algum fazer uma crítica ou discutir a qualidade do rumo que está sendo trilhado, os dois primeiros aspectos nao parecem mais tao importantes dentro do processo do núcleo central da companhia. Quero dizer, observando o seis da tarde (o novo processo eu nao posso opinar, porque o que sei dele é quase nada) eu nao posso dizer que é um espetáculo centrado no uso expressivo do corpo, é claramente um espetáculo centrado na construcao dramatúriga e esta, por sua vez, também nao me parece ter como objetivo, como uma dia, a busca de uma conjugacao entre corpo e palavra... Mais uma vez quero dizer que isso nao é um julgamento de valor, apenas uma tentativa fria de análise objetiva do espetáculo, buscando descobrir que diabos é a identidade da auto-retrato hoje em dia.
A questao da individualidade do performer ainda é válida, mas ela sozinha me parece vaga. No fundo, todos os processos se baseiam de uma forma ou de outra na individualidade dos performers (da memoria emotiva de Stanislawski ao teatro coletivo do Living Theatre ou ao clown do LUME)... Por isso, me parece que os valores do passado sao valores do passado. Dai a pergunta: qual sao os valores do presente?
Tenho uma intuicao: pra mim, tem alguma coisa a ver como um olhar nostálgico sobre o mundo e a realidade. Quando vejo os espetáculos da companhia, existe sempre uma sensacao de inadequacao à realidade presente, que pode ser expressa de forma direta pelos performers (como no retornarse) ou de forma indireta (como no ausencia ou no seis da tarde). Ainda tenho a insistencia de achar que tem alguma coisa a ver com o corpo, apesar de nao saber bem qual a relacao que vocês tem estabelecido com ele nos últimos tempos. Também há algo do método de criacao, mas tudo o que penso a esse respeito é tao generico que poderia ser enquadrado a pelo menos outros duzentos grupos.
Lancei algumas ideias?
Alguém quer comentar? Mais alguém acha essa uma discussao importante?
beijos a todos
mau
PS. Macô: explicando a minha outra postagem.
Existe um orgao ligado à UNESCO que é o ITI (International Theatre Institute). Na Alemanha eles sao bem ativos e um dos eventos que eles produzem é um festival de teatro denominado Theater der Welt. O festival acontece a cada dois anos em uma cidade diferente da Alemanha e a idéia é levar companhias do mundo todo, muitas com obras feitas para estrear no festival, em duas semanas de apresentacoes. Esse ano, dentro do Festival o ITI resolveu desenvolver um projeto específico para discutir liberdade e vigilância nos espacos públicos e dentro desse projeto foram convidados três videomakers e quatro coreógrafos de diferentes locais do mundo pra realizarem intervencoes em espacos públicos. Uma dessas coreografas foi uma brasileira chamada Dani Lima ( ninguém conheca ela? Eu ja tinha visto dois espetáculos dela aí no Brasil) que resolveu, por sua vez, que queria um grupo de doze pessoas de diferentes origens, idades e tipos de movimentacao, e eu fui um dos escolhidos... Acabou sendo um work in progress, porque a cada dia experimentavamos coisas novas em sala de ensaio e depois nas ruas da cidade, nao havia uma forma fixa, mas era teoricamente um espetáculo dentro do festival. Sobre ela: ela mora no rio, tem um trabalho muito interessante entre espetáculo e performance, uso do momento presente, improvisacao em cena, etc. Quanto ao grupo, duvido que nos vejamos de novo. Na verdade, estou botando fogo pra ver se a gente manda uns projetos pra uns outros festivais, porque pra mim foi uma experiencia bem interessante... Mas nao sei se vai rolar...
Ah, adorei a carta...
10 de julho de 2008
Eu fiquei curiosa, não sei se você explicou em outra mensagem, mas o que foi este processo que você viveu (uma oficina? uma pesquisa pontual?). Esta pessoa que coordenou é brasileira? Vive aqui ou ai? O grupo irá se encontrar novamente? Podem parecer curiosidades bobas, mas gosto de saber dos trâmites "burocráticos". Às vezes pode ser um conhecimento útil que abre nossas possibilidades de estrutura e organização....
Agora... o que você escreveu sobre o trabalho... me veio à cabeça uma das cartas que trabalhamos por coincidência hoje no ensaio. É uma carta de Meierhold para um destinatário desconhecido, gosto muito dela.
No ensaio, a Marina e o Caetano selecionaram algumas cartas que já trabalhamos anteriormente como estímulo para explorarmos diferentes estados que surgem pela voz de seus remetentes.
Vou transcrever um trecho dela aqui:
(...)
Sofro frequentemente porque tenho uma consciênciamuito exigente. Sofro frequentemente porque sei que não sou como deveria ser. Estou constantemente em desacordo como meu meio ou comigo mesmo. Duvido constantemente, amo a vida, mas eu a evito. Desprezo minha falta de personalidade e quero força, procuro empenho. Sou mais infeliz que feliz, mas encontrarei a felicidade quando parar de me absorver nas análises, quando recuperar minhas forças para lançar-me na luta enérgica. Na peça de Górki alguém diz: "É preciso se incorporar à substância da vida". É verdade. E Seriojka, o miserável, diz em Malva: "É preciso sempre fazer algo para que, em torno de si, as pessoas se agitem e sintam que há vida. É preciso agitar a vida mais frequentemente para que ela não se torne azeda". (...) Tenho vontade de ferver, de me fazer força impetuosa para criar, não somente destruir, mas criar destruindo. Agora estou em crise. O momento mais perigoso. E uma consciência muito exigente, dúvidas, hesitações, auto-análise, atitude crítica em relação ao que me rodeia, entusiasmo pelas doutrinas, tudo isso não deve ser um fim, mas um meio. Tudo isso deve existir somente como evidência de algo mais.
Sofri e Sofro. Tudo a que fiz alusão nesta carta, fique claro, estimulou meu trabalho criativo.
Minhas criações carregam a marca das pertubações de nossa época.
Diante de nós figuram novas criações, porque a vida também será nova. Uma nova onda já se apoderou de mim.
Beijos
Marina Corazza
6 de julho de 2008
De volta pra casa
Mas nenhuma volta é na verdade uma volta, um recomeco...
tem mais a ver com continuar em frente, ou mais ainda em ao mesmo tempo voltar e prosseguir, uma mistura de tempos e sensacoes distintas... Olhar o passado com os olhos do presente...
O trabalho com a Dani (desculpem, a Dani Lima), foi incrível...
Em um dos poucos e-mails que pude escrever enquanto estive lá, lembro de ter escrito como era incrível que eu tivesse esperado tanto pra voltar a trabalhar como performer, se isso me dava tanto prazer... Mas é também incrível que logo na primeira tentativa eu tenha encontrado um projeto que me dissesse tanto, compartilhado por algumas pessoas que tivessem tanta sintonia comigo, e principalmente coorenado por alguém tao especial. Foi um encontro desses que poucas vezes acontecem, quinze dias de trabalhos intensos, muitas vezes difíceis, mas nunca desinteressantes.
Em alguns momentos, me senti de novo em grupo de amigos, de pessoas interessantes com objetivos comuns, uma sensacao que nao tinha desde abandonar a auto retrato rumo a alemanha, uma sensacao que mesmo na auto retrato já havia perdido quando fui embora... Trabalhamos muito com improvisacao de movimento a partir de jogos, em alguns momentos numa linha próxima a que haviamos trabalhado com o alex (sem a parte da consciencia corporal, mas jogados direto no jogo com o espaco, o tempo e o outro). Depois iamos para a praca central da cidade e tentavamos fazer com que o ambiente transformasse o jogo, com que as pessoas, mesmo inconscientemente, interferissem e determinassem o rumo das improvisacoes. Em outros momentos, tinhamos acoes claras determinadas com o objetivo de criar um estranhamento na vida quotidiana da cidade, mas buscando o tenue limite entre o real e o performático. Tudo partindo do uso do corpo como ferramenta expressiva, mas com um conceito de danca muito mais amplo do que o que é tradicionalmente associado a ela.
Engracado, porque comecei essa carta com a idéia do retorno, mas as vezes sinto como se o verdadeiro retorno tivesse sido o trabalho em Halle, e nao a volta pra casa. Um retorno muito mais antigo e muito mais profundo, há um tempo que nem eu mesmo sei aonde se localiza, se é que algum dia existiu. Estou mais nostálgico do que nunca, mas sinto mais do que nunca que nao tenho patria, que nao tenho casa, que sou apenas eu... O resto gira ao meu redor, mas pode ir embora a qualquer instante...
E já que estamos nas postagens com anexos, vou colocar trechos do meu diário de trabalho... Quem quiser, de uma lida
beijos
mau
Diario de trabalho (trechos)
Escalators - Halle, junho 2008
Primeiras impressões (15.06)
“(...)Halle é uma cidade simpática, e depois de estar perdido por algum tempo (essa maravilhosa sensacao de chegar a um lugar desconhecido) parece fácil de se entender e locomover (...) Primeira impressao da Dani Lima: incrível conhecer uma diretora que parece gente normal, que conversa como uma pessoa normal, que nao tem ataques de estrela (...)”
Primeiro dia de trabalho (16.06)
“(...) as bases sobre o qual ele (o trabalho) é construído sao muito próximas àquelas nas quais acredito: comunicacao em grupo, percepcao do outro e do espaco, por exemplo (...) Os exercícios na galeria foram um pouco frustrantes. A primeira pergunta clara é: como retomar a sensacao de percepcao e contato com o grupo num lugar cheio de estímulos e sem aquecimento prévio? (...)”
Segundo dia de trabalho (17.06)
“(...) Uma sensacao diferente tomou conta de mim hoje. De manha estive displicente, agindo de forma pouco consequente e automática. Me deixei envolver pelo jogo e pelas regras, e acabei respondendo de forma pouco criativa, e pior, pouco presente (...)Certamente nao entrei na sala de trabalho com a energia de ontem e isso foi definitivo (...) Fui almocar chateado, decepcionado comigo mesmop e decidido a dar mais atencao pra mim e escutar mais o meu corpo. Comecei almocando sozinho e aceitando o fato de que precisava descansar pra aguentar a tarde (...) (a tarde) trabalhei de forma mais tranquila com o fato de ser o equilibrio da balanca, o peso de controle, aquele que está lá nao para ser o foco mas para funcionar de contrapeso contra o excesso. Sai muito mais satisfeito (...) Percebi hoje que a experimentacao em sala de ensaio é mais voltada pra que nós, performers, entendamos cada jogoe suas possibilidades/limites, enquanto as improvisacoes no espaco sao muito mais importantes para a decisao de “pensamentos coreográficos” (caracteristicas que o jogo tem que ter naquele espaco) (...) PS: Novamente uma pequena nota de rodapé para comentar a loeveza e a generosidade com a qual a Dani nos orienta e nos acompanha. Por enquanto, mais do que qualquer coisa, o projeto serve pra entender e me identificar com essa referência de direcao (...)”
Terceiro dia de trabalho (18.06)
“(...) dia de muitas sensações confusas (...) tudo comecou no aquecimento, mover-se livremente mas sendo observado por alguém. (...) saber que eu posso me aquecer “como eu quiser foi para mim maravilhoso, e ao final da primeira hora de trabalho eu estava, talvez pela primeira vez, realmente pronto e ligado. A presenca do observador nao representou uma pressao, em alguns momentos foi até um estímulo para trabalhar com a atencao redobrada e nao cair no lugar comum. (...) A improvisacao na escada rolante foi bem intensa e prazerosa. Porque foi realmente uma improvisacao, estavamos livres pra buscar as solucoes a cada momento, e essa necessidade de decisoes muito rápidas despertou um estado incrível de atencao e reacao as propostas. (...) Depois fomos para o Marktplatz experimentar a cena das roupas. (...) O contato estava extremamente enfraquecido, e a gente correu MUITO na acao. Nao sei bem como definir, mas tenho certeza de que o ela entre a gente se perdeu. Nao sei até que ponto eu contribuo para isso, ou o que eu posso fazer para mudar. Tenho a sensacao de estar concentrado, focado e de tntar ser preciso, mas pode ser que seja uma impressao errada (...)”
Quarto dia de trabalho (19.06)
“(...) Hoje foi um dia difícil em muitos sentidos, mas principalmente porque comeca a ficar clara a expectativa de cada pessoa, sua opiniao a respeito do trabalho e sua maneira de agir ligada a isso (...) Sintomas: uma longa discussao que nao interessava a quase ningue, um pedido de treinamento em danca no comeco do trabalho (...) percebo que durante o trabalho sou tentado a procurar sempre as mesmas pessoas e que jogo somente com elas, como se uma rede de conexao se criasse entre uma parcela do grupo, que tenta de alguma forma dar sustentacao ao trabalho como um todo (...) a afinacao do grupo parece emperrar sempre nos mesmos lugares, nas mesmas pessoas, nos mesmos problemas (...) A tarde, no Marktplatz, fizemos o jogo da “passagem”, e eu senti grandes focos de absoluta ausencia de conexao, concentracao e vontade de jogar. Sinto que algumas pessoas estao insatisfeitas e que isso, num trabalho como esse, pode ser comprometedor (...)
Quinto dia de trabalho (20.06)
“(...) Cansaco. Quando você exige do corpo o que ele nao é capaz de dar. Hoje foi um dia difícil, nao ruim, mas difícil. Como já era de se esperar, depois da festa de ontem e da noite mal dormida (...) Houve momentos interessantes, especialmente quando algum tipo de conexao realmente acontecia e eu conseguia usar a energia do outro como catalisador, mas em muitos momentos eu me senti pouco criativo, obvio, incapaz de ultrapassar os limites da primeira idéia (...) Busco as pessoas com quem a conexao realmente acontece, que veem o jogo de forma semelhante à minha, e fujo de outras (...) Também entrei um pouco em crise por causa da minha capacidade de “desaparecer” no espaco (que tem sido ressaltada pela Dani). Tenho medo que, em dias como hoje, em que a energia está baixa, eu desapareca realmente e as pequenas interferencia que eu crio no espaco nao se concretizem (...)”
Sexto dia de trabalho (21.06)
“(...) Como explicar o que aconteceu hoje? Em algum momento, enquanto eu deitava no chao da paraca, uma nova conexao se abriu dentro de mim, uma conexao absoluta entre interno e externo (a praca em movimento e eu ali, parado) que realmente nao passa por nenhum tipo de premeditacao ou compreensao lógica dos ritmos e desenhos de um espaco... Um estado absoluto, fora do quotidiano, um estado leve, sem esforco, sem necessidade, um estado, por assim dizer, sagrado (...) O jogo depois, com a Esther, só podia ser assim: uma sensacao absoluta de comunicacao, de enxergar o espaco através dos olhos do outro e saber antes dele mesmo o que ele vai fazer (...) A pergunta que ficam: as pessoas que respiram, escutam, conseguem transformar um grupo? Em tao pouco tempo? Acho difícil, me parece que vamos ter essas duas forcas (a necessidade de escuta e a incapacidade de nao propor) lutando o tempo todo ao longo do trabalho (...)”
Segunda semana
Sétimo dia de trabalho (23.07)
“(...) Hoje eu estive quotidiano. Nao consegui ultrapassar a barreira, de maneira geral foi assim: nao exatamente bom, nao exatamente ruim. Pouco criativo, grande demais, pouco expressivo (...)Quando estou assim, os movimentos ficam grandes e artificiais, os contatos sao logicos, os jogos se transformam em piada (...) Pelo menso acho que nao fui só eu, percebi várias pessoas aquem do que elas realmente podem, tive dificuldades de encontrar parceiros de jogo, nao vi as coisas aconteceram como em outros dias (...)Sinto falta de me aquecer de verdade, pular, suar, ser tirado da energia quotidiana. Me cobrar, conheco esse caminho e nao dependo de ninguém pra seguir por ele (...)”
Oitavo dia de trabalho (24.07)
“(...) Desde a chegada na sala de ensaio outra postura, mais independente, mais consciente do MEU corpo e das MINHAS necessidades, menos envergonhado. Aqueci de verdade, pulei, suei, criei resistência. Depois a Dani ainda aqueceu mais um pouco e, quando paramos, eu sentia meu corpo completamente acordado, preparado, perceptível, fluido (...) Mas nao fui só eu, o grupo todo estava lá, a rede de seguranca estava montada, e mesmo as pessoas naturalmente menos concentradas mostravam mais vontade e mais escuta do que ontem (...) O jogo na escada rolante foi incrivelmente melhor do que ontem, mais flexível, muito mais criativo, sem tanto atropelamente, com propostas que se completavam ao inves de se repetir. Eu busquei o contraste, o jogo em nivel mais complexo, e isso me abriu possibilidades incabaveis de combinacao (...) Resumindo, a questao parece ser: jogar com a energia quotidiana e nao deixar ser sugado por ela. Mesmo dentro de um espaco e de um tempo quotidiano (e eu diria principalmente) prtecisamos manter nosaa qualidade cenica de atencao e nossa energia dilatada (...)”
Nono dia de trabalho (25.07)
“(...) Frustracao. Hoje fizemos muito pouco (e isso foi terrível, depois da expectativa de ontem). Choveu, e a Dani insistiu em ir pra praca mesmo assim. O chao estava molhado, e pior, escorregadio, o que tornou impossível realizar qualquer coisa decente (...) No Mäc Geiz, o jogo nao chegou a ser ruim, mas a escuta nao estava tao afinada como ontem. Havia jogos interessantes, mas o espaco nao era percebido como um todo, o que gerava muitas propostas simultâneas (...)”
Décimo dia de trabalho (26.07)
Sem anotacao
Décimo primeiro dia de trabalho (27.07)
“(...) o cansaco e o desgaste sao evidentes, o interesse comeca a diminuir e a propensao a repetir padroes ja conhecidos é imensa. Poucos ainda parecem querer jogar, buscar coisas novas (...) De repente a Dani surtou, teve uma gigantesca crise de ansiedade e comecou a querer que a gente “mostrasse coisas”, “fizesse acoes de impacto”, que a coisa “comecasse a acontecer rapidamente” (as palavras sao dela). Conexao, sutileza, deixar o jogo acontecer? Nada. O resultado foi tao obvio quanto catastrofico (...) Sensacao de retroceder no trabalho, mesmo as pessoas naturalmente mais propensas a jogar pareciam ter perdido a calma, a “rede de seguranca” era instável e esporádica, nao dava conta de sustentar o trabalho (...) foi preciso respirar fundo e aceitar que a Dani também é humana, e também püode ficar ansiosa e perder por alguns instantes sua mao precisa na forma de comandar o grupo (...) Trabalhar com improvisacao parece implicar obrigatoriamente em uma confianca absoluta no que os performers sao capazes de realizar, superar problemas e perceber o espaco e as relacoes que eles estao criando, e é preciso ter calma pra saber que as vezes eles vao errar, e que isso é parte do processo de aprendizado (...)”
Décimo segundo e último dia de trabalho (28.07)
“(...) hoje nao fizemos, nao na prática. Cheguei no estúdio e fui aquecer, como todos os dias, e uns cinco minutos depois fui chamado pela Zoe, que me avisou que a gente nao ia aquecer. A incompreensao era latente na voz dela (...) Fomos para a praca, mas parecia que só estavamos jogando pra que a Dani pudesse filmar da cobertura da Kaufhof. Como se o jogo nao tivesse importância, como se as pessoas que estavam na praca nao tivessem importancia. Importante era desenhar linhas no espaco e nao deitar muito perto dos toldos, pra que a camera pudesse filmar (...) Depois, quando tudo já parecia perdido, fui jogar o abraco com a Britta. Nao tinha a menor vontade. E por incrível que pareca, o jogo foi ótimo. É verdade que eu joguei sozinho, porque a Britta nao reagia a qualquer tipo de proposta ou mudanca de dinâmica, mas de repente eu estava acordado, ligado, presente (...) Pena que os últimos dias tenham tirado um pouco do brilho do trabalho que fizemos nas duas semanas (...)”
3 de julho de 2008
Ensaios
Quero compartilhar sem o menor distanciamento como foi bom não dormir, ficar mais de 24 horas acordada com vocês (os que estão próximos ou distantes), um vão no espaço/tempo se abriu e nos dedicamos integralmente a dar formas para os nossos objetivos que, assim mesmo no plural, moram no encontro entre nós. Não houve brigas, nem cara feia apesar do nosso estado. Nem aquela ansiedade que deixa a todos à flor da pele e inibe qualquer tipo de pensamento lógico... Desculpe meu entusiasmo, mas tenho me empenhado no exercício de dar crédito às minhas coisas antes e independente do que Os Outros percebam. Sei que estou escrevendo como uma adolescente no tom e nas palavras, mas às vesperas de completar 29 anos não tenho mais tanto medo de ser mal compreendida ou parecer ingênua ou burra. É isso. Texto para um Retornarse II.
Hoje a Cristiane assistiu pela primeira vez nosso ensaio e novamente... encontros. Essa é uma relação que tende a enriquecer muito o trabalho, ela é muito generosa e traduziu com palavras, sensações obscuras e caminhos meio escorregadios.
Beijos a todos
Marina Corazza
2 de julho de 2008
cada vez que a gente escreve um projeto juntos sinto que gente se modifica, se reorganiza, se reestabelece, não?
Mau, eu vi as fotos da sua performance no seu orkut. Pareceu muito bacana, escreva contando!
Pessoas, empolguei-me na leitura do Vang Gogh e queria compartilhar umas coisas com vcs, que achei que eram a nossa cára (perdoem o excesso de citações!).
Bjs
............................................
Em vez de me deixar sucumbir pelo desespero, tomei o partido da melancolia ativa enquanto tinha a potência da atividade ou, em outras palavras, preferi a melancolia que espera e aspira e que busca, àquela que embota e, estagnada, desespera.
...
Mas qual é seu objetivo definitivo? Você perguntará. Este objetivo torna-se mais definido, desenhar-se-á lenta e seguramente como o croquis que se torna esboço que se torna quadro, à medida que se trabalhe mais seriamente, que se aprofunde mais a idéia, no início vaga, o primeiro pensamento fugidio e passageiro a não ser que o fixemos.
...
... diga-lhe que o quero dizer é que se fotografássemos um homem lavrando, ele certamente não estaria lavrando. Diga-lhe que acho as figuras de Michelangelo admiráveis, embora as pernas sejam decididamente muito compridas , os quadris e as coxas muito largos. Diga-lhe que é por isto que Millet e Lhermitte são aos meus olhos os verdadeiros pintores, porque eles não pintam as coisas como elas são, segundo uma análise rebuscada e seca, mas como eles, Millet, Lhermitte, Michelangelo as sentem. Diga-lhe que o meu grande desejo é aprender a fazer tais incorreções, tais anomalias, tais modificações, tais mudanças de realidade, de forma qeu resultem, sim, mentiras, se lhe apraz, mas mais verdadeiras qeu a verdade literal.
Van Gogh - Cartas a Theo
bjs, mandem notícias
Natacha
12 de junho de 2008
Vespera - Berlin, 12 de junho de 2008
Um mundo do qual você nunca fez parte...
Ou entao algo que está tao distante, tao perdido no tempo que nao pode ser real, nunca foi...
Voltar a ser performer, a propor de forma inconsequente, a nao ter que pensar formatos e lógicas e significados, voltar a me concentrar no ato e nao no conceito, nao me preocupar com o significado, ter a consciencia e a seguranca de que alguém te ampara no que você faz... Estar a servico de alguém, nao querer comandar, nao ter que dar ordens, nao ter que ter sempre a resposta certa e a atitude brilhante que vai solucionar de uma só vez todos os problemas...
Poder se concentrar no movimento de um dedo, numa forma de olhar, na lógica interna que me empurra de um canto para outro da sala. Me preocupar com o como, nao com o que... Estar em laboratório, ser cobaia, ser destilado, decantado, sublimado e condensado novamente... Ser materia bruta, nao ser cientista...
Buscar no corpo as respostas. Na maneira de olhar o mundo.
Buscar no corpo do outro e no olhar do outro...
Estar concentrado em ser, em estar...
Deixar de ser o artista pra voltar a ser artesao...
(me explico, no domingo viajo pra passar duas semanas em trabalho intensivo como performer para a realizacao de um work in progress em espacos urbanos em um festival de teatro aqui da alemanha, coordenado/dirigido por uma coreógrafa brasileira chamada Dani Lima... É a primeira vez que eu mergulho, como performer, em um projeto há muitos anos... Curiosa expectativa, curiosa sensacao de nao saber o que te espera, um pequeno medo de nao saber se vou dar conta, se algo nao ficou perdido no tempo, se ainda sei estar em foco. )
Estar atento ao que acontece e aceitar o que acontece
Jogar no presente e no erro...
nao pensar
nao pensar
nao pensar...
(as vezes acho quenós pensamos demais como atores - escrevo e sei que vou ser criticado por isso)
nao julgar
nao julgar
nao julgar...
respirar fundo e seguir adiante
ter o medo como companheiro de ensaio
entender a ansiedade como energia pulsante e vital...
nao encontrar comodidade...
nao encontrar certezas...
estar sempre em equilibrio precário entre eu e o outro...
(e penso no grupo de treinamento aqui, em plena atividade, quatro corpos dancando pelo espaco, e entendo meu caminho com mais clareza, entendo o que é pensar o trabalho do ator, é algo totalmente único e muito diferente de pensar o teatro ou a encenacao. Talvez seja o que realmente me move, nao é um contrasenso que como diretor eu me importe tanto com o trabalho do ator e como ator eu esteja sempre tao preocupado com a encenacao que está sendo construida?)
sempre respirar...
(ultimo parentesis: pra nao deixar passar - fiquei surpreso e feliz com as novas postagens no blog, tinha já me conformado que ele tinha se tornado um velho livro de memórias juntando poeira num canto da estante)
9 de junho de 2008
manhã de segunda-feira
Hoje a ordem era explorar objetos trazidos pelos colegas, que, por eles, tocavam o universo das coisas todas que, juntos, estamos tateando há algum tempo. Havia neles aquela delicadeza das personagens de Tchekhov que nos olham de viés; muito de cada um por uma pequenina fresta: um cartão postal antigo escrito em esperanto, a carta de um avô escrita em 2002 na Bahia, um curta-metragem de um cineasta paraguaio; Borges, Bishop. Eu poderia ter ficado o dia inteiro estendida ali no chão, lendo aquelas coisas todas, ouvindo cada canção.
O dia começou bem. Depois, no trabalho, revisando um livro pesado de filosofia, resolvi escapar e procurar um certo Borges que me lembrou esta manhã.
A vida é mesmo feita de pequenas alegrias (frase surrada de tão usada e tão verdadeira!).
CK.
Arte Poética
Mirar o rio feito de tempo e água
e recordar que o tempo é outro rio,
saber que nos perdemos como o rio
e que os rostos passam como a água.
Sentir que a vigília é um outro sonho
que sonha não sonhar, e que a morte
que teme nossa carne é essa morte
de cada noite, que se chama sonho.
Ver no dia ou no ano um símbolo
dos dias do homem e de seus anos,
converter o desrespeito dos anos
numa música, num rumor e um símbolo.
Ver na morte o sonho, no pôr-do-sol
um triste ouro, assim é a poesia
que é imortal e pobre. A poesia
volta como a aurora e o pôr-do-sol.
Às vezes numas tardes uma cara
nos mira lá do fundo de um espelho;
a arte deve ser como esse espelho
que nos revela nossa própria cara.
Contam que Ulisses, farto de prodígios,
chorou de amor ao divisar sua Ítaca
verde e humilde. A arte é essa Ítaca
de verde eternidade, não prodígios.
Também és como o rio interminável
que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
e é outro, como o rio interminável.
Jorge Luis Borges
8 de junho de 2008
sobre atalhos e encruzilhadas...
Amanheci com vontade de escrever para vocês.
Não sei bem o que quero falar, mas algo dentro de mim me obriga nessa direção.
Na sexta-feira, assisti à defesa de tese da Cristiane (que escreveu o livro das correspondências do TAM). Seu doutorado é agora sobre a autobiografia do Stanislavski, a tradução do Paulo Bezerra, que estava na banca, foi feita diretamente do russo, sem passar pelo My life in Art que pelo que contam é incompleto e não o representa plenamente, foi escrito num momento em que Stan. precisava pagar as contas de uma clínica na Suiça onde seu filho estava em tratamento (cae, má é isso, né?) e num contexto em que os americanos precisavam que seu livro "comunicasse", achavam-no muito redundante, não comercial. Depois com calma, reescreveu essa autobiografia e por sorte no Brasil temos uma edição traduzida do russo, que está esgotada a muito tempo. Impossível encontrá-la nos sebos, na biblioteca do Centro Culural SP ela está sem capa, toda desfolhando. Com dificuldade, tirei cópia da primeira parte, A Infância Artística, a garota do xerox assim como os americanos não acreditou que tudo aquilo era só o primeiro capítulo e insistiu que eu só podia tirar cópia de um.
Ainda lá, encontrei um livro da Stella Adler em que um terço dele é dedicado a falar sobre Tchekhov e sua relação com as pesquisas de Stanislavski sobre o ator. Ela é americana, foi aluna de Stan. e bateu de frente com a visão de Lee Strasberg (não sei se a escrita está certa) que acabou dando origem ao jeito Actors Studio de ser.
Isso me lembrou quando a Cristiane falou sobre a palavra russa Pirigivani que não tem uma tradução precisa, mas que significa sentir em muitos sentidos, sensações físicas, espirituais, emocionais e o que mais couber, mas que para a tradição americana que nos atinge acabou se reduzindo ao sentir psicológico.
Ontem assisti a "Não sobre o amor" que também bebe em fontes russas e cartas. Os atores estão muito bem (Arieta Corrêa e Leonardo Medeiros), mas o virtuossismo da luz e do cenário me afastaram o tempo todo. Preferia mil vezes que eles ficassem simplesmente se olhando por quinze minutos, mais, meia hora, uma hora que fosse. Estava claro que aqueles dois fariam isso de forma simples e maravilhosa, mas infelismente algum ego onipotente foi muito maior para permitir isso e destruiu a simplicidade do que poderia ter sido.
Saudades
Marina Corazza
2 de junho de 2008
30 de abril de 2008
24 de abril de 2008
Sobre Medos e Desafios
eu gostava mesmo quando o Mau largava a gente no metrô com algumas regras e dizia: "se virem" (claro que não desta maneira.)
ou quando ele largava a gente no meio do mato e falava pra acharmos o caminho de volta.
ou na feirinha com o público... parecendo drogadas perdidas... com medo que alguém nos surpreendesse...
ou com o público e com a Cia no Retornarse última versão, onde necessitava se colocar à espreita e estar preparada para qualquer complicação.
Gosto quando a Cia me propõe uma coisa que me dá cagaço, mas ao mesmo tempo uma puta vontade de enfrentar esse cagaço.
este risco... um frio na barriga... um não saber o que fazer nem como resolver, mas uma puta vontade de se resolver.
Por isso talvez tenha proposto aquele ensaio maluco do Retornarse, quando o Mau e a Gabi estavam no Brasil... Essa vontade de tentar fazer algo que eu sabia de trás pra frente, mas não fazia há mais de dois anos... (será realmente que saberia refazer?) era me colocar em risco ao lado de vocês novamente... e é claro nos divertirmos e termos a tal dinâmica de grupo que não só à partir da fala...
Cia, alguma recomendação mirabolante? (risos) aonde eu devo me largar?
Eu gosto do risco no AGORA! eheheh! tensionar pra gozar!
Beijos
Thaisinha
fluxo de movimento
ando sumida...
...mas não
na verdade venho retomando o ...Mas Não com um artista plástico.
a video arte me instiga a cada dia.
Agora estou num grupo juto com outros artistas filósofos para discutir questões de Deleuzi e Niesztche.
Hoje tivemos uma reunião que começou as 18h e terminou as 01h30 cheia de formigamentos... questionamentos...
meu corpo pulsa. existe.
A minha dificuldade SOLO é conseguir colocar meus projetos no papel... em grupo era mais fácil também... sinto sempre que não está bom...
a cabeça fervilha... sim... fervilha...
sim... fluxos de pensamento....
Eu entendo MaC. e Nat quado vocês falam do fluxo sincero e da dança. Sim o Jêrome Bel fez dança sem dançar, assim como a Maguy Marin e tantos outros, assim como A Meredith Monk que é indefinível... (performer? Bailarina? cantora? video artita?). A Arte não depende do suporte. Ela é por si só. Minha questão realmente não tinha nada a ver com o movimento, apesar de eu não ter sabido como dizer naquele momento... Cheguei a comentar com o Cae a um tempo atrás... (eu também não dancei na Adormecida também... eu era "apenas" um ser Presente, parado... andando... escrevendo, e mesmo em outros trabalhos que eu dirigi, o que me importava era a maneira como eu ia falar. Aliás por isso não gosto dessa definição se eu sou ou não do teatro. esta definição realmente não importa. Sou artista).
o buraco daquele questionamento (o do movimento) pra mim era mais embaixo...
Me contradigo porque na época, e até hoje, não sei bem como dizer o que queria ter dito naquele momento...
Tinha relação com a cia brasil, ou melhor, a minha relação com a cia brasil.... enfim.
e apesar de eu ter medo talvez seja importante para mim continuar seguindo este percursso assim... solo... indo atrás da minha busca artistica individual, do desconhecido, que neste momento me instiga de uma maneira diferente da de vocês... (claro que temos falado dos mesmos temas e temos questionamentos muito parecidos, mas a maneira como cada fragmento da Cia tenta expressar isso é diferente.)
Fico com um aperto de estar de fora do processo, e toda vez que falo com vocês demonstro a minha "carência". Me pergunto muitas vezes... será que enlouqueci? tinha que voltar para o meu grupo, ao mesmo tempo, o que é extemporâneo me puxa com mais força...
preciso me aprofundar mais nestas minhas novas questões... que já são velhas até... desde o "...E o Meu Secador de Cabelos Me Comeu Nesta Madrugada", elas retornaram no "Identidade em Crise", ...Mas Não, Adormecida e continuam me martelando...
Hoje falaram muito de Cartografias... achei o máximo! As nossas cartografias eram deleuzianas mesmo! (risos)
Falamos do Presentificar (olha a Cia Auto-Retrato aí!).
Um objetivo da vida é presentificar talvez?
Não se omitir.
Ler Niesztche e o reler com seus olhos... não se omitir ao pensamento dos grandes mestres...
Como diria um amigo meu (que a gente discutiu durante horas) " Ah, entendi, você perverteu o Greenaway e por isso então posso dizer que não foi uma intérprete da obra dele. Você criou com elementos da obra dele, mas também o perverteu"... é... mais ou menos assim o que ele disse... mas nós continuamos a discussão por longo tempo...
Ler e Reler.
Tá tudo muito confuso e não vou reler meu fluxo... quero deixar ele PRESENTE.
foi como foi.
Foram muitas coisas discutidas, mas todas focalizarma o mesmo tema e todas fizeram o meu corpo pulsar e estremesser... Precisava plantar bananeira e me jogar no chão... me largar....
Li o Mishima esses dias e ele faz uma relação entre teoria e corpo muito Linda... o texto era o Sol e Aço... depois explico melhor, porque agora não consiguirei explicar muito bem. Mas a questão é que corpo e teoria estão juntas... não se separam... o tal Niesztche já disse isso diversas vezes também... (aliás tenho orgasmos sempre que leio algo dele... e da Hilda Hilst também)...
Falei tanto de pular ... e cair....
resolvi mandar um texto que escrevi pra Dedé (por caussa da minha retomada das quedas no experimento do acordo), que aliás, ela defenderá o seu mestrado nesta segunda feira dia 28 de abril as 14h na USP. Gostaria muito que vocês fossem.
aí vai o tal texto que tem a ver com esse jeito thaisinha de ser:
Sobre a Queda ou A vontade de se Levantar
Cair.
Uma complexidade de movimentos...
Quedar-se é bom quando se deixa largar.
é menos doloroso quando se relaxa.
Cair para aprender a se levantar.
Meu prazer pela queda talvez tenha surgido quando era uma criança que gostava de pular.
Uma queda, aos dois anos, deixou minha primeira cicatriz. Uma cicatriz causada por cacos de vidro da minha mamadeira com leite morninho.
Pulei na cadeira e cai. O chão verde. Pessoas a minha volta.
Acho que nem doeu. As pessoas se doeram por mim.
Senti o contato da minha pele com o chão verde. meus ossos e músculos também estavam lá. Havia sangue. um sangue bem vermelho de quem ainda não viveu muito.
O grito não era de dor, era de descoberta. uma nova sensação. algo que desconhecia.
Meu corpo no chão aterrado. aterrado para voar. Voar longe.
Para saltar e se largar. Sem saber exatamente como e onde cair.
Sem olhar para baixo.
Simplesmente ir.
bom... me vou assim.... sem fim...
só soltei imagens e palavras... mas tá tudo aí...
é assim que tenho me movido....
Beijos
Amo Vocês
Thaís
19 de abril de 2008
oi amores-parceiros,
Mau e Gabi, receberam minha breve carta?
Peço desculpas por não escrever muito. Estou numa fase estranha, meio "brigada" com as palavras, tentando captar o mundo e me fazer captar talvez por uma outra lógica.
Aliás, acabo de me dar conta de que é engraçado dizer que ando "brigada com as palavras" quando há na companhia um novo processo que justamente lida com elas, em essência...
Queria dizer uma coisa a respeito do SEIS DA TARDE, e não é para dar ênfase à polêmica, nem nada. É só porque me lembrei disso hoje e para comentar o fato de que, pra mim, o SEIS DA TARDE tem a dança como base, ao menos no meu aprendizado do que entendo por dança.
Embora poucas vezes a gente se lembre, a idéia de trazer o universo das cartas pro processo da peça partiu do Caetano, a partir de uma cena que eu preparei em que duas cartas gravadas e sobrepostas eram como uma música ensurdecedora que às vezes me paralisava, nos gestos cotidianos de lavar a louça e varrer a casa. Não só na forma, a dança para mim ali estáva. Uma das cartas inaudíveis na cena era uma em que eu mesma escrevia para alguém. Falava sobre minha imensa necessidade de aprender a dançar do lado de dentro, porque a forma de fora que eu havia aprendido até então, muitas vezes não me impedia de permancer imóvel.
Uma carta que fala de uma escrita que é fluxo, que é dança, de uma dança que é resposta, de um gesto que é palavra, de uma palavra que é gesto e que é movimento e que não dura mais de um segundo, uma efemeridade que às vezes não faz sentido, mas que no fundo é o que mais importa.
Enfim, estou vaga e sei que me faço muito pouco compreendida nessas minhas frases.
Ontem a apresentaçao em São José dos Campos foi muito legal. Tivemos um público maior do que a média de lá, segundo o programador do SESC. O Vina assistiu ao espetáculo novamente e falou coisas muito bonitas, sobre a sutileza do trabalho, sobre as imagens marcantes que traz, e falou também sobre a necessidade de conseguirmos ainda dançar e falar como uma coisa só...
Antes da apresentação a gente se aqueceu com a música do Mestre Ambrósio, sabem, aquela?... Má Corazza, eu, Má tranjan e Cae; deu saudades do Mau, Gabi, Thaís, deu saudade de todos nós juntos. Mas o mais importante era a memória daquele momento, o que carregamos, o que nos movia, o que nos move agora. Sempre o que nos move.
Neste momento, não sei o que me move. Mas sei que não estou parada. Estou numa fase quase que de dança espontânea, desapercebida.
Esse mês conheci a Moud Roubart, uma alemã-haitiana que desenvolve processos de cantos haitianos sagrados. Ela veio pro ECUM a convite da Maria Thais, por isso tive a oportunidade de conhecê-la um pouco melhor, e fiquei realmente impressionada. Primeiro porque ela é, em si, alguém que comove, move, impressiona. Não faz teatro. Não define o que faz. Canta e ensina a cantar com uma memória ancestral. O que faz, certa vez, chegou aos ouvidos do Grotowski, que a convidou para contribuir com ele. Dizem que ela o influenciou muito na sua busca por esse algo que já quase deixa de ser teatro para voltar a ser rito.
Depois de sua fala no ECUM e da mostra de um vídeo sem tradução de uma "aula" dela, quando abriram para perguntas, houve quase dez minutos de silêncio, numa platéia de mais de cem pessoas. Moud agradeceu ao silêncio e disse que talvez não fôsse necessário perguntar, falar nada. Mas alguém na platéia finalmente se manifestou, e foi para perguntar sobre seu trabalho com o Grotowski... então ela se voltou à pessoa da platéia e perguntou se aquela era a questão mais espontânea que poderia ser feita, a que vinha de fato de seu coração.
A Moud disse ter ficado impressionada com umas brincadeiras populares que nos viu fazendo na Balagan. Disse que é raro no mundo encontrar pessoas que ainda saibam brincar por brincar, dançar e cantar sem um objetivo, apenas pelo prazer da coisa em si. Suas poucas palavras e aquela olhar marcante e atento de alguém que viveu muito em busca da simplicidade de simplesmente ser, enfim, ensinaram-me mais do que talvez dois ou três anos de faculdade.
Sei que é muito difícil ser sempre assim, mas às vezes conseguimos. E, comigo, costuma acontecer quando ando distraída, como agora...
bjs, desculpem a desconexão das palavras, a falta de lógica...
Nat