6 de agosto de 2008

Ai meu deus!!!! como escrever o que penso sem bloquear os caminhos?????!!!!!!
Quero que fique muito claro antes de qualquer coisa que o que estou escrevendo aqui expõe desafios, diferenças, mas nós já passamos por momentos de crise muito maiores e que foram importantes para aprofundar nosso trabalho.
Má e Caetano, desculpe tratar isso aqui abertamente e não pessoalmente, mas como eu escrevi abaixo, por motivos que não dependem só de vocês, nós não estamos tendo espaço para dialogar como fazíamos antes e para mim um coletivo se constrói justamente da fricção.
Se está tudo muito morno, insosso, desconfie.
Não é uma ode à crise, mas uma consciência de que precisamos ser provocadores uns dos outros sim! É a necessidade vital da clareza, da sinceridade e do prazer de fazer teatro. Não é por acaso que estamos a tanto tempo juntos!
Beijos e antes de mais nada amo muito vocês e o nosso trabalho!!!
Aqui vai:

Eu concordo muito com o Mau e a Naty, uma coisa não pode estar desconectada da outra. O fluxo, a liberdade, o criar fluem na medida que se tem referências mais claras, não certezas, mas pontos a serem problematizados, provocações que inquietam....
Está sendo muito difícil para mim lidar com a situação de ser a única atriz do grupo, junto com o Caetano e a Má claro, em meio a atores convidados. O problema não são eles, de forma alguma, mas parece que não podemos tratar de assuntos que fujam do "bom andamento da montagem".
Estamos tendo pouco tempo de ensaio por questões de sobrevivência e as poucas vezes que tento nos ensaios questionar algo sobre o percurso, parece fora de contexto. Nos nossos ensaios atuais não há espaço para a crise porque nos comprometemos com as pessoas, temos prazos, etc.
A verdade é que eu estou muito infeliz e isso inclui o que eu acho que os ensaios poderiam ser e não estão sendo (sei que estou exagerando porque não estou em bons dias). Eu estou trabalhando muito, dando muita aula e me sinto burocrática o que é horrível, é tudo o que eu não quero para mim. Bom, o fato é que eu estou me sentindo fraca para insistir em questões que realmente não parecem importantes para o Caetano e a Má.
Eu sei que temos muito material para ler e estudar(as peças do Tchekhov, as cartas), mas parece que estamos num processo cujo foco é simplesmente construir uma dramaturgia cênica e sinto muita mais muita falta mesmo de pensar/agir/experimentar/conceituar/agir sobre o trabalho do ator, sobre o nosso material expressivo, talvez daí vocês pensem "bom, esse é o trabalho de cada um", mas eu acho justamente que é ai que reside a importância de sermos um coletivo, senão somos somente um elenco. Eu tenho tentado levantar questões sobre o jogo, propus que lêssemos o que o Matteo Bonfitto escreve sobre a composição da ação física, mas tudo ficou no vazio.
Estamos correndo contra o tempo por não termos grana, e por isso não nos aprofundamos, mas eu me pergunto então, porquê, qual o sentido?...não quero me furtar de agir com a companhia como sou obrigada a agir com outros trabalhos que tenho que fazer concessões.
No início do ano eu , a Naty, a Má e o Caetano tínhamos conversado que gostaríamos de fazer um processo mais curto, partindo de repente de um texto pronto, mas naquele momento nós estávamos no fluxo do Seis da Tarde, respirávamos nossos procedimentos e metodologias. Agora as coisas mudaram, o material que escolhemos está longe de ser simples e temos três atores diferentes trabalhando com a gente. Não sei se pela trabalho que vocês têm com o cinema ou se pela demanda dramatúrgica deste trabalho, sinto que as questões de vocês estão na encenação, na forma e eu me sinto um pouco desmotivada. Para mim não podemos deixar o trabalho do ator num lugar "de cada um se resolve" e é para mim justamente aí que não podemos de forma alguma deixar de pensar, refletir e propor práticas que tragam à tona essa pesquisa de interpretação sim.
Sei também que cada trabalho é diferente do outro e que numa companhia temos que ceder ora para um desejo mais ardente de um, ora para um desejo mais ardente de outro e que nestes anos todos sempre trabalhamos muito partindo do ator. Por isso acho saudável o fato de vocês estarem na condução deste processo com um olhar mais cuidadoso para o todo, porém, apesar de não precisarmos partir do ator para construir uma peça, não podemos deixar de lado essa investigação e por isso , Má , não dá para não estudar, não buscar referências, não fazer escolhas e seguir simplesmente num fluxo intuitivo. Sei que na nossa dinâmica de pesquisar e ensaiar já moram muitas das nossas escolhas e metodologias anteriores, mas chegamos num ponto que precisamos avançar mais porque sinto que elas já se cristalizaram.
Tudo isso não é responsabilidade só de vocês, mas sinto necessidade de respirar, de poder falar o que penso, de ouvir o que o Edu, a Carla e o Camilo tem a dizer mesmo que o processo saia do controle, do previsto por vocês. Desculpe mas para mim é isso que representa fazer parte de um grupo. Não adianta criarmos todas as cenas e tomarmos as decisões juntos se não existe espaço para realmente dizer o que se pensa.
Aiiii... não sei mais o que falar e não quero bodiá-los, é justamente por querer muito continuar cultivando a nossa parceria que escrevo tudo isso.
Tem sido importante para nós estabelecer prazos, mas não quero que nosso trabalho seja mais um trabalho entre tantos os outros que faço para sobreviver, não quero me furtar de ter espaço para colocar minhas questões artísticas.
Para finalizar, eu gosto de pensar o trabalho do ator, eu gosto de montar quebra-cabeças para provocar a criação, é isso que eu faço nas oficinas que dou e com muito prazer. Eu me ofereço para pensar um pouco mais este aspecto com vocês... sabe, quais instruções escolher, como propor para que o jogo aconteça, o que propor para que os atores sejam estimulados a ir além. Não vou acertar sempre, mas tenho prazer em fazer isso (e certa prática também).
Um grande beijo a todos
Marina Corazza

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