Berlin, 31 de janeiro de 2008
Estou numa semana um tanto inutil, mas escrevo pra praticar e pra manter o hábito e a promessa de escrever uma vez por semana. Estou desde sabado trafegando entre os 37 e os 38 graus de febre, e portanto entre a cama e o s sofa. Nao tenho conseguido trabalhar, nao tenho conseguido me manter concentrado nas coisas, enfim, o meu tao ansiado retorno ao trabalho ainda nao aconteceu de verdade. Consegui fazer um ensaio, que teve seus momentos interessantes, mas depois disso veio a febre e com ela o momento de parar tudo de esperar... Acho que meu corpo estava em estado profundo de relaxamento, como há tempos ele nao encontrava. Foram longas férias, nas quais pensei muito pouco ou quase nada em teatro, e a excecao dos tres dias de treino com a erika, fiz menos ainda. É normal que meu corpo estranhe... É normal que eu tenha que ir um pouco mais devagar, mas a gente esquece, acha que já pode tudo, e o corpo reclama. Tem que seguir com calma adiante, respirar fundo, voltar de férias significa isso, reencontrar o ritmo, reaquecer o corpo, reestruturar a rotina até que ele seja a mesmo de antes, ou até que o seu corpo possa suporta-la de novo. Faz muito frio por aqui, e nao tenho muitas novidades. É isso.
Beijos a voces todos
mau
PS. Esqueci de comentar: o caetano gosta mesmo do Galáxia, né? Ele também levou o texto pra gente ler no ausência... hehehe
31 de janeiro de 2008
30 de janeiro de 2008
Ai, ai, ai... esse mundo de blog é muita novidade pra mim. Não estou muito segura que esse meu escrito vá chegar, bonitinho como de vocês. E também não acho mais o ponto de interrogação no meu teclado... Espero que eu não tenha nenhuma pergunta, retórica ou não.
Acabo de chegar de Tiradentes emendado num pulo no sítio, e compartilho da sensação do Mau de retomar a rotina. Na verdade, eu estou bem ansiosa pra retomá-la! Parece que eu tenho andado flanando por aí, e preciso pisar mais firme, com mais direção. Acho que todo o começo de ano é assim pra gente, não< (e lá vai a falta do ponto de interrogação... ó, vida... justo eu que sou cheia das reticências e interrogações).
Eu tive muito um sonho parecido com o da Nati, mas um pouco mais bem humorado. Acho que eu já devo ter contado. Teve uma época, não sei bem qual, não faz tanto tempo, em que eu sonhava frequentemente que nós estávamos numa apresentação lotada do Retornarse. Aí de repente eu me dava conta de que eu não me lembrava de nada, nada... nem de texto, nem de partituras. Eu vagamente me lembrava da cena do giz. E eu ia entrando em pânico, uma sensação horrível de que eu tinha viajado completamente, de que eu tinha que ter ensaiado. Era como se eu tivesse me esquecido de ensaiar e, do nada, fosse parar numa apresentação. Aí - ok, agora vem a parte mais bem humorada - eu resolvia dar uma olhada para todas, saia um pouco do umbigo, e via que tava todo mundo exatamente na mesma situação. Quando a gente se olhava e se percebia e compartilhava o pânico, passava a ser muito engraçado. De repente todo esse desespero sumia, a gente começava a improvisar juntas... muuuito fora do Retornarse, todo mundo perdido, mas se divertindo junto.
Outro sonho que eu tive muito no ano passado - e esse é só angústia! - é um sonho em que eu tô na escola, no colegial, e é como se eu tivesse chegado no meio do semestre. Eu tô totalmente perdida em todas as matérias. E eu tenho que passar de ano pra validar meu diploma de teatro, ou algo assim. Como se toda minha vida pós-colegial estivesse ainda pendurada, dependendo do úlitmo ano da escola. Como se eu tivesse pulado, abandonado alguma etapa. E aí eu percebo que isso é impossível, quer dizer, vou fazendo uma força pra perceber que é impossível, que eu já tô formada em Teatro e que nada vai me tirar isso. É uma força de acordar, de sair do sonho... até que eu consigo. Mas é sempre um parto. Eu contei esse sonho pra compartilhar de uma sensação da Nati e amedrontá-la um pouco, hehehe. Porque a penúltima vez que eu tive esse sonho eu fiquei muito feliz porque ele mudou, o final era diferente. Era tudo igual, mas com menos angústia e, no meio do sonho, eu percebia que eu estava me despedindo da escola. Eu não iria mais voltar lá, eu tinha fechado um ciclo e o sonho todo era apenas uma despedida. Triste como todas as despedidas, mas um ponto final bem vindo para uma nova fase. Pois bem, fiquei toda satisfeita, contei orgulhosa à minha terapêuta. Mas... em Tiradentes eu voltei a ter o mesmo sonho e, o que é pior, versão antiga! Me senti traída pelo meu inconsciente... então eu jça não tinha superado, oras pipocas! Uma chateação... Portanto, Nest, nem sempre nós caminhamos para o alto e avante. Acho que a coisa é mais espiralada, não estranhe se você voltar a se congelar em algum outro sonho... Faz parte. Talvez essa nossa crise entre movimento, paralisação e improvisação, seja eterna, a maldita, e, quem sabe, bem vinda!
Acho que vou parando porque, afinal de contas, eu nem sei se a minha mensagem vai chegar direitinho.
Bons retornos a todos (por aqui ainda tem o Carnaval!), também amo vocês.
Acabo de chegar de Tiradentes emendado num pulo no sítio, e compartilho da sensação do Mau de retomar a rotina. Na verdade, eu estou bem ansiosa pra retomá-la! Parece que eu tenho andado flanando por aí, e preciso pisar mais firme, com mais direção. Acho que todo o começo de ano é assim pra gente, não< (e lá vai a falta do ponto de interrogação... ó, vida... justo eu que sou cheia das reticências e interrogações).
Eu tive muito um sonho parecido com o da Nati, mas um pouco mais bem humorado. Acho que eu já devo ter contado. Teve uma época, não sei bem qual, não faz tanto tempo, em que eu sonhava frequentemente que nós estávamos numa apresentação lotada do Retornarse. Aí de repente eu me dava conta de que eu não me lembrava de nada, nada... nem de texto, nem de partituras. Eu vagamente me lembrava da cena do giz. E eu ia entrando em pânico, uma sensação horrível de que eu tinha viajado completamente, de que eu tinha que ter ensaiado. Era como se eu tivesse me esquecido de ensaiar e, do nada, fosse parar numa apresentação. Aí - ok, agora vem a parte mais bem humorada - eu resolvia dar uma olhada para todas, saia um pouco do umbigo, e via que tava todo mundo exatamente na mesma situação. Quando a gente se olhava e se percebia e compartilhava o pânico, passava a ser muito engraçado. De repente todo esse desespero sumia, a gente começava a improvisar juntas... muuuito fora do Retornarse, todo mundo perdido, mas se divertindo junto.
Outro sonho que eu tive muito no ano passado - e esse é só angústia! - é um sonho em que eu tô na escola, no colegial, e é como se eu tivesse chegado no meio do semestre. Eu tô totalmente perdida em todas as matérias. E eu tenho que passar de ano pra validar meu diploma de teatro, ou algo assim. Como se toda minha vida pós-colegial estivesse ainda pendurada, dependendo do úlitmo ano da escola. Como se eu tivesse pulado, abandonado alguma etapa. E aí eu percebo que isso é impossível, quer dizer, vou fazendo uma força pra perceber que é impossível, que eu já tô formada em Teatro e que nada vai me tirar isso. É uma força de acordar, de sair do sonho... até que eu consigo. Mas é sempre um parto. Eu contei esse sonho pra compartilhar de uma sensação da Nati e amedrontá-la um pouco, hehehe. Porque a penúltima vez que eu tive esse sonho eu fiquei muito feliz porque ele mudou, o final era diferente. Era tudo igual, mas com menos angústia e, no meio do sonho, eu percebia que eu estava me despedindo da escola. Eu não iria mais voltar lá, eu tinha fechado um ciclo e o sonho todo era apenas uma despedida. Triste como todas as despedidas, mas um ponto final bem vindo para uma nova fase. Pois bem, fiquei toda satisfeita, contei orgulhosa à minha terapêuta. Mas... em Tiradentes eu voltei a ter o mesmo sonho e, o que é pior, versão antiga! Me senti traída pelo meu inconsciente... então eu jça não tinha superado, oras pipocas! Uma chateação... Portanto, Nest, nem sempre nós caminhamos para o alto e avante. Acho que a coisa é mais espiralada, não estranhe se você voltar a se congelar em algum outro sonho... Faz parte. Talvez essa nossa crise entre movimento, paralisação e improvisação, seja eterna, a maldita, e, quem sabe, bem vinda!
Acho que vou parando porque, afinal de contas, eu nem sei se a minha mensagem vai chegar direitinho.
Bons retornos a todos (por aqui ainda tem o Carnaval!), também amo vocês.
26 de janeiro de 2008
Queridos,
Desde um tempo (que não me lembro quando começou) tenho um sonho recorrente:
Eu estou em cena prestes a iniciar uma apresentação de dança, com maquigem, figurino, música colocada, coreografia decorada, público à espera. Porém, quando é chegada a hora de iniciar meu movimento, fico dominada por uma opressora paralisia, não sei o que fazer, como me mover. As coisas que eu até então julgava que sabia e que ensaiara me escapam por completo, e aquele momento preparado com tanto cuidado torna-se um pesadelo terrível e frustrante.
Esse sonho repetitivo costumava acontecer às vesperas de estréias ou de participações minhas em concursos ou festivais importantes. Nos últimos anos, no entanto, e principalmente desde que comecei a fazer teatro, ele também me surge em momentos de início dos processos, quando ainda não há a pressão toda pela apresntação em si. Eu deveria dançar mas não danço (porque sempre a dança e nunca o teatro? o simbolo do movimento paralisado, do fluxo congelado?), eu deveria saber mas não sei, não sou ninguém, estou sozinha, exposta.
Ontem, porém, enquanto tentava assistir a uma dessas peças a que se vai ver por que o amigo do amigo do amigo ganhou convites - que você jamais compraria porque é caro e porque não lhe interessa - não sei por que motivo me lembrei que há cerca de um ano atrás esse sonho recorrente de que falava me aconteceu diferente, transformado.
No início tudo igual, com o agravante da sensação pesada que nos acompanha quando parece que sabemos que tudo está fadado a terminar mal. Mas o mal esperado não vinha. No momento da apresentação, quando chegava a minha vez de entrar em cena, o que faltava era justamente o que antes sempre estivera: a maquiagem, a música, a coreografia.
O público me olhava, eu seminua (inexplicavelmemente minha roupa e todo o resto haviam sumido). Era meu momento de dançar e eu não estáva preparada, sabe que não estáva pronta, mas sabia que tinha algo a ser feito e isso bastava.
Não era vontade. Era como se todo o tempo acumulado de trabalho inevitavelmente estivesse grudado em meu corpo. Eu poderia improvisar, o essencial já estava, mesmo que não mostrasse uma forma clara pra mim mesma,o essencial existia porque foi sobre ele que eu me debruçara todo o tempo antes, nos sonhos e pesadelos anteriores. O improviso era sobre um desconhecido que no entanto fôsse muito, muito íntimo. Mesmo sem saber em que resultaria, eu confiava que podia, e devia dançar.
Então eu dançava,uma nova dança sobre algo conhecido.
Neste ano ainda não me aconteceu esse sonho. Esse que acabo de relatar foi há um ano, na iminência de estrearmos um SEIS DA TARDE ainda não pronto. Foi o último que tive.
Mas acho que, se acontecer, será novamente o sonho transformado. Porque para mim refletiria este momento de início de um novo processo com a Companhia; momento que traz a necessidade de uma nova forma, ainda desconhecida, mas com uma confiança absoluta em todo o tempo que antes já estivemos trabalhando, lapidando o essencial. Confiança de que há em nós acumuladas muitas memórias, formas reaproveitáveis, formas essenciais que nos compõem e que nos ajudam cada vez mais a saber improvisar sobre nós mesmos.
beijos a todos
Nat
21 de janeiro de 2008
Galáxia
Mau,
Valeu por ter criado o blog.
Pra mim também foi muito importante ter vocês por perto e também me aproximar da Thais que, apesar de estar no mesmo território de São Paulo, passeia por outros cantos.
Que as nossas alianças prosperem!
Muito interessante você ter citado um artigo de jornal porque ontem eu li a crônica do Ferreira Gullar na Folha e fiquei com muita vontade de compartilhar com todos vocês. Não sei se nós do Seis da Tarde comentamos alguma vez, mas um poema específico do Ferreira Gullar nos influenciou muito, o Galáxia. Nele, assim como nesta crônica (se eu estiver equivocada no gênero, por favor, me avisem) existe a sensação de um coditiano bastante prosaico intremeado da sensação do mistério, do sublime.
Estou enviando os dois.
Amo vocês Beijos
Marina Cora
PS: Não consegui escrever sem imaginar um leitor totalmente desconhecido pronto para capturar qualquer fragilidadedas nas minhas pobres linhas.
FERREIRA GULLAR Dentro da noite
A PRIMEIRA vez que vi a noite, se bem me lembro, foi na esquina da rua da Alegria com Afogados, em São Luís. Pode ser que já a tivesse visto antes, mas não me dera conta porque, na vida, só conta o que nos espanta. E foi naquela esquina, na porta da quitanda de Newton Ferreira, meu pai, que a noite se revelou a mim, quando ergui os olhos, inadvertidamente, por cima das platibandas das casas.A rua da Alegria, para quem não sabe, começa na avenida Silva Maia e desce na direção do largo da Cadeia, que esse era então o seu nome, quando ali situava-se a penitenciária. Nossa casa ficava perto da quitanda, na primeira quadra entre a avenida e a rua dos Afogados. Foi nela, no quintal dela, que posei para a única foto em que apareço menino, junto com alguns de meus irmãos, irmãs e minha mãe. Como meu pai não aparece, ele é quem deve ter sido o fotógrafo. Estou ali, sentado numa cadeira, de meias e sapatos, os pés não chegavam a tocar o chão.Mas até aquele momento, não havia reparado na noite, que só vi de fato, como já contei, ao sair da quitanda e olhar para o céu, que estava cravejado de estrelas a brilhar como se fosse o rastro de um cometa. Fiquei deslumbrado e temeroso, pois era como se uma força estranha quisesse me puxar junto com elas para o infinito do mundo.Foi só um instante. Pois logo meu pai saiu da quitanda, trancou a porta com chave e tomamos o rumo de casa, onde a família nos esperava para o jantar. Depois de comer, ouvimos um programa da rádio Nacional com Vicente Celestino, e então fui para minha rede, armada junto à janela que dava para a rua. Mas não resisti: abri a janela, deixei que o clarão da Via Láctea dourasse meu rosto e saí voando.Isso foi em 1938, quando mal completara oito anos de idade. No dia seguinte, pela manhã, estava normalmente observando Bizuza, na cozinha, a socar farinha de mesa com camarão e gergelim torrado para o cuxá. Não demorou muito para que me tornasse moleque de rua a vagabundear pela cidade, roubando copos em botecos e jogando bilhar na zona do meretrício, na rua da Palma. Mais tarde, chegariam os soldados ianques para ocupar a base aérea do Tirirical e tomar cerveja no Motobar.Nessas minhas andanças noturnas pela cidade, tinha plena consciência de que o fazia sob o fulgor da Via Láctea, que me acompanhava pelos becos e ladeiras, por onde vagava sem saber o que viera fazer no mundo.Mas foi durante umas férias no sítio de tio Felinto que pude perceber o silêncio infinito da noite cósmica, que de tão intenso me deixava ouvir até o rumor da grama crescendo sob meu corpo, ali recostado junto ao curral. Entendi que a noite não era apenas estrelas no céu, mas também o abafado vozerio dos vegetais, que não falam nem brilham, mas pulsam na escuridão que lhes oculta as cores como o zumbido dos pequeninos bichos a trafegarem nos ramos.A escuridão é o estado natural do mundo, e a luz é pouca, ainda que as galáxias sejam feitas de matéria luminosa e incandescente a explodir no vazio do espaço sem que se ouça.E dali, onde estava, junto ao curral, no Maranhão, nada se ouvia daquelas explosões de gases e matéria estelar. No escuro da noite provinciana, só em minha boca se mantinha algum possível lume a se acender na saliva, entre os dentes, uma palavra qualquer que iluminasse a existência.É que a fala nega a noite e dá sentido a nossa presença no planeta.Mais tarde, bem mais tarde, descobriria que a noite é muito mais veloz nos trópicos do que nas zonas temperadas. Nos pólos, então, a noite quase não passa, dura meses. Mas a noite custa a passar também nos cárceres. Já imaginou quanto deve demorar a noite, nas selvas colombianas, para as pessoas que as Farc mantêm seqüestradas? Para quem teve roubado seu futuro, a noite se prolonga dia adentro e emenda com a seguinte, é a noite sem aurora.Que diferença daquela noite boliviana, nos anos 60, quando Guevara punha em risco sua vida por um sonho: o sonho de criar uma sociedade fraterna e igualitária nas Américas. Sonho, que ele sonhou errado, na hora errada, no lugar errado, por acreditar que quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Não faz. Esse voluntarismo juvenil só conduz à derrota.É que o homem perdeu o paraíso pela impaciência, como disse Kafka. Mas podemos dizer que, pela paciência, quem sabe, ainda poderá recuperá-lo. Paciência que signifique determinação, persistir na luta, demore o que demorar, paciência que nos ajude a vencer a noite com todos os seus fantasmas e pesadelos.Como se vê, há muitas noites na noite -o que nos fascina e assusta, como disse Murilo Mendes, "com seus abismos azuis"
Galáxia
Ferreira Gullar
Aqui estive
neste
banheiro branco
de piso branco
de louça fria
aqui estive
(estou) neste hoje
dia 3 de fevereiro
de 2003
aqui
dentro deste silêncio
de banheiro (de
pia, de torneira
de vaso sanitário
de bidê)
estou
mortal
e conformado
estou
num tempo branco
pequeno (2m por
2m) e eterno?
fora da morte, eu,
futuro morto
e lá fora chispa
a tarde célere
e clara
(lampejo na
areia ofuscante)
na praia atravessada de veículos
que vão e vêm
pela avenida ruidosa
tendo ao fundo
horizontal
a massa pesada e azul
da baía
lá fora (fora
do banheiro, fora
da casa)
a cidade é uma galáxia
a mover-se desigual
em seus diferentes estratos
veloz e lenta
e em contraditórias direções
uma galáxia
que em seu girar arrasta
nossas vidas, nossas
casas, nossas
caixas
de lembranças
cheias de papéis velhos e fotos
doídas
de olhos que nos fitam
de tempo algum
agora que são apenas manchas
e não obstante falam ainda
na poeira do cemitério doméstico
misturado com fungo e mofo
à beira do buraco voraz
e a galáxia urbana
tem como as outra
cósmicas
insondáveis labirintos
de espaços e tempos e mais
os tempos humanos da memória, essa
antimatéria que pode
num átimo
reacender o que na matéria
se apaga para sempre
assim
a cidade girando
arrasta em seu giro
pânicos destinos desatinos
risos choros
luzi-luzindo nos cômodos sombrios
da Urca, da Tijuca, do Flamengo,
e misturados às conversas na cozinha
ou na área de serviço
o lixar de alguma porta, o cheiro de Tonitrin,
o chilrear dos pardais e o arrulhar dos pombos,
barulhos inumeráveis da cidade que é bem mais lenta
nos arvoredos do Jardim Botânico com seus esquilos e macaquinhos
lépidos a mover-se, seres que são daquele universo de folhas,
e somando-se a isto a Praça XV e a Ilha Fiscal,
tudo girando em torno deste imaginário eixo
- o banheiro,
onde estou
(onde estive)
e donde apenas ouço
o acelerar do motor de um ônibus
(talvez)
que passa pela rua Duvivier
não sei com que destino.
Valeu por ter criado o blog.
Pra mim também foi muito importante ter vocês por perto e também me aproximar da Thais que, apesar de estar no mesmo território de São Paulo, passeia por outros cantos.
Que as nossas alianças prosperem!
Muito interessante você ter citado um artigo de jornal porque ontem eu li a crônica do Ferreira Gullar na Folha e fiquei com muita vontade de compartilhar com todos vocês. Não sei se nós do Seis da Tarde comentamos alguma vez, mas um poema específico do Ferreira Gullar nos influenciou muito, o Galáxia. Nele, assim como nesta crônica (se eu estiver equivocada no gênero, por favor, me avisem) existe a sensação de um coditiano bastante prosaico intremeado da sensação do mistério, do sublime.
Estou enviando os dois.
Amo vocês Beijos
Marina Cora
PS: Não consegui escrever sem imaginar um leitor totalmente desconhecido pronto para capturar qualquer fragilidadedas nas minhas pobres linhas.
FERREIRA GULLAR Dentro da noite
A PRIMEIRA vez que vi a noite, se bem me lembro, foi na esquina da rua da Alegria com Afogados, em São Luís. Pode ser que já a tivesse visto antes, mas não me dera conta porque, na vida, só conta o que nos espanta. E foi naquela esquina, na porta da quitanda de Newton Ferreira, meu pai, que a noite se revelou a mim, quando ergui os olhos, inadvertidamente, por cima das platibandas das casas.A rua da Alegria, para quem não sabe, começa na avenida Silva Maia e desce na direção do largo da Cadeia, que esse era então o seu nome, quando ali situava-se a penitenciária. Nossa casa ficava perto da quitanda, na primeira quadra entre a avenida e a rua dos Afogados. Foi nela, no quintal dela, que posei para a única foto em que apareço menino, junto com alguns de meus irmãos, irmãs e minha mãe. Como meu pai não aparece, ele é quem deve ter sido o fotógrafo. Estou ali, sentado numa cadeira, de meias e sapatos, os pés não chegavam a tocar o chão.Mas até aquele momento, não havia reparado na noite, que só vi de fato, como já contei, ao sair da quitanda e olhar para o céu, que estava cravejado de estrelas a brilhar como se fosse o rastro de um cometa. Fiquei deslumbrado e temeroso, pois era como se uma força estranha quisesse me puxar junto com elas para o infinito do mundo.Foi só um instante. Pois logo meu pai saiu da quitanda, trancou a porta com chave e tomamos o rumo de casa, onde a família nos esperava para o jantar. Depois de comer, ouvimos um programa da rádio Nacional com Vicente Celestino, e então fui para minha rede, armada junto à janela que dava para a rua. Mas não resisti: abri a janela, deixei que o clarão da Via Láctea dourasse meu rosto e saí voando.Isso foi em 1938, quando mal completara oito anos de idade. No dia seguinte, pela manhã, estava normalmente observando Bizuza, na cozinha, a socar farinha de mesa com camarão e gergelim torrado para o cuxá. Não demorou muito para que me tornasse moleque de rua a vagabundear pela cidade, roubando copos em botecos e jogando bilhar na zona do meretrício, na rua da Palma. Mais tarde, chegariam os soldados ianques para ocupar a base aérea do Tirirical e tomar cerveja no Motobar.Nessas minhas andanças noturnas pela cidade, tinha plena consciência de que o fazia sob o fulgor da Via Láctea, que me acompanhava pelos becos e ladeiras, por onde vagava sem saber o que viera fazer no mundo.Mas foi durante umas férias no sítio de tio Felinto que pude perceber o silêncio infinito da noite cósmica, que de tão intenso me deixava ouvir até o rumor da grama crescendo sob meu corpo, ali recostado junto ao curral. Entendi que a noite não era apenas estrelas no céu, mas também o abafado vozerio dos vegetais, que não falam nem brilham, mas pulsam na escuridão que lhes oculta as cores como o zumbido dos pequeninos bichos a trafegarem nos ramos.A escuridão é o estado natural do mundo, e a luz é pouca, ainda que as galáxias sejam feitas de matéria luminosa e incandescente a explodir no vazio do espaço sem que se ouça.E dali, onde estava, junto ao curral, no Maranhão, nada se ouvia daquelas explosões de gases e matéria estelar. No escuro da noite provinciana, só em minha boca se mantinha algum possível lume a se acender na saliva, entre os dentes, uma palavra qualquer que iluminasse a existência.É que a fala nega a noite e dá sentido a nossa presença no planeta.Mais tarde, bem mais tarde, descobriria que a noite é muito mais veloz nos trópicos do que nas zonas temperadas. Nos pólos, então, a noite quase não passa, dura meses. Mas a noite custa a passar também nos cárceres. Já imaginou quanto deve demorar a noite, nas selvas colombianas, para as pessoas que as Farc mantêm seqüestradas? Para quem teve roubado seu futuro, a noite se prolonga dia adentro e emenda com a seguinte, é a noite sem aurora.Que diferença daquela noite boliviana, nos anos 60, quando Guevara punha em risco sua vida por um sonho: o sonho de criar uma sociedade fraterna e igualitária nas Américas. Sonho, que ele sonhou errado, na hora errada, no lugar errado, por acreditar que quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Não faz. Esse voluntarismo juvenil só conduz à derrota.É que o homem perdeu o paraíso pela impaciência, como disse Kafka. Mas podemos dizer que, pela paciência, quem sabe, ainda poderá recuperá-lo. Paciência que signifique determinação, persistir na luta, demore o que demorar, paciência que nos ajude a vencer a noite com todos os seus fantasmas e pesadelos.Como se vê, há muitas noites na noite -o que nos fascina e assusta, como disse Murilo Mendes, "com seus abismos azuis"
Galáxia
Ferreira Gullar
Aqui estive
neste
banheiro branco
de piso branco
de louça fria
aqui estive
(estou) neste hoje
dia 3 de fevereiro
de 2003
aqui
dentro deste silêncio
de banheiro (de
pia, de torneira
de vaso sanitário
de bidê)
estou
mortal
e conformado
estou
num tempo branco
pequeno (2m por
2m) e eterno?
fora da morte, eu,
futuro morto
e lá fora chispa
a tarde célere
e clara
(lampejo na
areia ofuscante)
na praia atravessada de veículos
que vão e vêm
pela avenida ruidosa
tendo ao fundo
horizontal
a massa pesada e azul
da baía
lá fora (fora
do banheiro, fora
da casa)
a cidade é uma galáxia
a mover-se desigual
em seus diferentes estratos
veloz e lenta
e em contraditórias direções
uma galáxia
que em seu girar arrasta
nossas vidas, nossas
casas, nossas
caixas
de lembranças
cheias de papéis velhos e fotos
doídas
de olhos que nos fitam
de tempo algum
agora que são apenas manchas
e não obstante falam ainda
na poeira do cemitério doméstico
misturado com fungo e mofo
à beira do buraco voraz
e a galáxia urbana
tem como as outra
cósmicas
insondáveis labirintos
de espaços e tempos e mais
os tempos humanos da memória, essa
antimatéria que pode
num átimo
reacender o que na matéria
se apaga para sempre
assim
a cidade girando
arrasta em seu giro
pânicos destinos desatinos
risos choros
luzi-luzindo nos cômodos sombrios
da Urca, da Tijuca, do Flamengo,
e misturados às conversas na cozinha
ou na área de serviço
o lixar de alguma porta, o cheiro de Tonitrin,
o chilrear dos pardais e o arrulhar dos pombos,
barulhos inumeráveis da cidade que é bem mais lenta
nos arvoredos do Jardim Botânico com seus esquilos e macaquinhos
lépidos a mover-se, seres que são daquele universo de folhas,
e somando-se a isto a Praça XV e a Ilha Fiscal,
tudo girando em torno deste imaginário eixo
- o banheiro,
onde estou
(onde estive)
e donde apenas ouço
o acelerar do motor de um ônibus
(talvez)
que passa pela rua Duvivier
não sei com que destino.
de volta a Berlin
Berlin, 21 de janeiro de 2008
Estar de volta...
voltar a encontrar o quotidiano de ter uma casa, de ter uma vida com compromissos regrados, voltar a encontrar a rotina (inclusive de trabalho). Essa é a principal sensacao que me atinge hoje.
Foi muito bom ter estado ai, encontrado vocês, poder compartilhar um pouco das inquietacoes e ver o que vocês produziram e pensaram ao longo dos dois anos e meio em que estivemos separados. Deu até uma pequena dor por estar tao longe, uma vontade de ter podido compartilhar mais, a esperanca de que isso possa ser diferente de agora em diante. De que a gente realmente se acerte e encontre canais em que essa troca possa funcionar, de que nossos processos nao sejam somente paralelos, mas compartilhados.
Também queria agradecer a vocês que puderam ir ana quinta, o retorno generoso e sincero que me deram, vai ser muito importante pra poder definir os caminhos de agora em diante. Acho que as críticas vieram em uma boa hora, em que comeco a definir algumas vontades muito concretas pra trabalhar, e sinto que nesse momento as questoes se transformam, e passa a ser muito dificil manter a integridade do trabalho enquanto se tenta definir uma forma. Parece ser um dilema que nao posso evitar dentro do trabalho agora.
Por fim, nao sei se alguém viu, por isso vou comentar aqui. Ontem no aviao peguei uma edicao do Estado de Sao Paulo pra ler, e o caderno 2 falava sobre o lancamento da obra completa do Oswald de Andrade. Entre muitas coisas, havia um pequeno trecho em que se falava sobre a arte de escrever cartas e ele comentava exatamente a necessidade de se manter "verdadeiro" quando se escreve, de evitar que o sujeito que escreve se torne ficcional. Achei que podia interessar a vocês...
É isso. Ainda nao tenho novidades, mas quis escrever logo, pra já ir criando o hábito.
Beijos a todos
Mau
Estar de volta...
voltar a encontrar o quotidiano de ter uma casa, de ter uma vida com compromissos regrados, voltar a encontrar a rotina (inclusive de trabalho). Essa é a principal sensacao que me atinge hoje.
Foi muito bom ter estado ai, encontrado vocês, poder compartilhar um pouco das inquietacoes e ver o que vocês produziram e pensaram ao longo dos dois anos e meio em que estivemos separados. Deu até uma pequena dor por estar tao longe, uma vontade de ter podido compartilhar mais, a esperanca de que isso possa ser diferente de agora em diante. De que a gente realmente se acerte e encontre canais em que essa troca possa funcionar, de que nossos processos nao sejam somente paralelos, mas compartilhados.
Também queria agradecer a vocês que puderam ir ana quinta, o retorno generoso e sincero que me deram, vai ser muito importante pra poder definir os caminhos de agora em diante. Acho que as críticas vieram em uma boa hora, em que comeco a definir algumas vontades muito concretas pra trabalhar, e sinto que nesse momento as questoes se transformam, e passa a ser muito dificil manter a integridade do trabalho enquanto se tenta definir uma forma. Parece ser um dilema que nao posso evitar dentro do trabalho agora.
Por fim, nao sei se alguém viu, por isso vou comentar aqui. Ontem no aviao peguei uma edicao do Estado de Sao Paulo pra ler, e o caderno 2 falava sobre o lancamento da obra completa do Oswald de Andrade. Entre muitas coisas, havia um pequeno trecho em que se falava sobre a arte de escrever cartas e ele comentava exatamente a necessidade de se manter "verdadeiro" quando se escreve, de evitar que o sujeito que escreve se torne ficcional. Achei que podia interessar a vocês...
É isso. Ainda nao tenho novidades, mas quis escrever logo, pra já ir criando o hábito.
Beijos a todos
Mau
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