21 de janeiro de 2008

Galáxia

Mau,
Valeu por ter criado o blog.
Pra mim também foi muito importante ter vocês por perto e também me aproximar da Thais que, apesar de estar no mesmo território de São Paulo, passeia por outros cantos.
Que as nossas alianças prosperem!
Muito interessante você ter citado um artigo de jornal porque ontem eu li a crônica do Ferreira Gullar na Folha e fiquei com muita vontade de compartilhar com todos vocês. Não sei se nós do Seis da Tarde comentamos alguma vez, mas um poema específico do Ferreira Gullar nos influenciou muito, o Galáxia. Nele, assim como nesta crônica (se eu estiver equivocada no gênero, por favor, me avisem) existe a sensação de um coditiano bastante prosaico intremeado da sensação do mistério, do sublime.
Estou enviando os dois.
Amo vocês Beijos
Marina Cora
PS: Não consegui escrever sem imaginar um leitor totalmente desconhecido pronto para capturar qualquer fragilidadedas nas minhas pobres linhas.

FERREIRA GULLAR Dentro da noite

A PRIMEIRA vez que vi a noite, se bem me lembro, foi na esquina da rua da Alegria com Afogados, em São Luís. Pode ser que já a tivesse visto antes, mas não me dera conta porque, na vida, só conta o que nos espanta. E foi naquela esquina, na porta da quitanda de Newton Ferreira, meu pai, que a noite se revelou a mim, quando ergui os olhos, inadvertidamente, por cima das platibandas das casas.A rua da Alegria, para quem não sabe, começa na avenida Silva Maia e desce na direção do largo da Cadeia, que esse era então o seu nome, quando ali situava-se a penitenciária. Nossa casa ficava perto da quitanda, na primeira quadra entre a avenida e a rua dos Afogados. Foi nela, no quintal dela, que posei para a única foto em que apareço menino, junto com alguns de meus irmãos, irmãs e minha mãe. Como meu pai não aparece, ele é quem deve ter sido o fotógrafo. Estou ali, sentado numa cadeira, de meias e sapatos, os pés não chegavam a tocar o chão.Mas até aquele momento, não havia reparado na noite, que só vi de fato, como já contei, ao sair da quitanda e olhar para o céu, que estava cravejado de estrelas a brilhar como se fosse o rastro de um cometa. Fiquei deslumbrado e temeroso, pois era como se uma força estranha quisesse me puxar junto com elas para o infinito do mundo.Foi só um instante. Pois logo meu pai saiu da quitanda, trancou a porta com chave e tomamos o rumo de casa, onde a família nos esperava para o jantar. Depois de comer, ouvimos um programa da rádio Nacional com Vicente Celestino, e então fui para minha rede, armada junto à janela que dava para a rua. Mas não resisti: abri a janela, deixei que o clarão da Via Láctea dourasse meu rosto e saí voando.Isso foi em 1938, quando mal completara oito anos de idade. No dia seguinte, pela manhã, estava normalmente observando Bizuza, na cozinha, a socar farinha de mesa com camarão e gergelim torrado para o cuxá. Não demorou muito para que me tornasse moleque de rua a vagabundear pela cidade, roubando copos em botecos e jogando bilhar na zona do meretrício, na rua da Palma. Mais tarde, chegariam os soldados ianques para ocupar a base aérea do Tirirical e tomar cerveja no Motobar.Nessas minhas andanças noturnas pela cidade, tinha plena consciência de que o fazia sob o fulgor da Via Láctea, que me acompanhava pelos becos e ladeiras, por onde vagava sem saber o que viera fazer no mundo.Mas foi durante umas férias no sítio de tio Felinto que pude perceber o silêncio infinito da noite cósmica, que de tão intenso me deixava ouvir até o rumor da grama crescendo sob meu corpo, ali recostado junto ao curral. Entendi que a noite não era apenas estrelas no céu, mas também o abafado vozerio dos vegetais, que não falam nem brilham, mas pulsam na escuridão que lhes oculta as cores como o zumbido dos pequeninos bichos a trafegarem nos ramos.A escuridão é o estado natural do mundo, e a luz é pouca, ainda que as galáxias sejam feitas de matéria luminosa e incandescente a explodir no vazio do espaço sem que se ouça.E dali, onde estava, junto ao curral, no Maranhão, nada se ouvia daquelas explosões de gases e matéria estelar. No escuro da noite provinciana, só em minha boca se mantinha algum possível lume a se acender na saliva, entre os dentes, uma palavra qualquer que iluminasse a existência.É que a fala nega a noite e dá sentido a nossa presença no planeta.Mais tarde, bem mais tarde, descobriria que a noite é muito mais veloz nos trópicos do que nas zonas temperadas. Nos pólos, então, a noite quase não passa, dura meses. Mas a noite custa a passar também nos cárceres. Já imaginou quanto deve demorar a noite, nas selvas colombianas, para as pessoas que as Farc mantêm seqüestradas? Para quem teve roubado seu futuro, a noite se prolonga dia adentro e emenda com a seguinte, é a noite sem aurora.Que diferença daquela noite boliviana, nos anos 60, quando Guevara punha em risco sua vida por um sonho: o sonho de criar uma sociedade fraterna e igualitária nas Américas. Sonho, que ele sonhou errado, na hora errada, no lugar errado, por acreditar que quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Não faz. Esse voluntarismo juvenil só conduz à derrota.É que o homem perdeu o paraíso pela impaciência, como disse Kafka. Mas podemos dizer que, pela paciência, quem sabe, ainda poderá recuperá-lo. Paciência que signifique determinação, persistir na luta, demore o que demorar, paciência que nos ajude a vencer a noite com todos os seus fantasmas e pesadelos.Como se vê, há muitas noites na noite -o que nos fascina e assusta, como disse Murilo Mendes, "com seus abismos azuis"

Galáxia
Ferreira Gullar



Aqui estive
neste
banheiro branco
de piso branco
de louça fria

aqui estive
(estou) neste hoje
dia 3 de fevereiro
de 2003

aqui
dentro deste silêncio
de banheiro (de
pia, de torneira
de vaso sanitário
de bidê)
estou
mortal
e conformado

estou
num tempo branco
pequeno (2m por
2m) e eterno?
fora da morte, eu,
futuro morto

e lá fora chispa
a tarde célere
e clara
(lampejo na
areia ofuscante)
na praia atravessada de veículos
que vão e vêm
pela avenida ruidosa
tendo ao fundo
horizontal
a massa pesada e azul
da baía

lá fora (fora
do banheiro, fora
da casa)
a cidade é uma galáxia
a mover-se desigual
em seus diferentes estratos
veloz e lenta
e em contraditórias direções


uma galáxia
que em seu girar arrasta
nossas vidas, nossas
casas, nossas
caixas
de lembranças
cheias de papéis velhos e fotos
doídas
de olhos que nos fitam
de tempo algum
agora que são apenas manchas
e não obstante falam ainda
na poeira do cemitério doméstico
misturado com fungo e mofo
à beira do buraco voraz

e a galáxia urbana
tem como as outra
cósmicas
insondáveis labirintos
de espaços e tempos e mais
os tempos humanos da memória, essa
antimatéria que pode
num átimo
reacender o que na matéria
se apaga para sempre

assim
a cidade girando
arrasta em seu giro
pânicos destinos desatinos
risos choros
luzi-luzindo nos cômodos sombrios
da Urca, da Tijuca, do Flamengo,
e misturados às conversas na cozinha
ou na área de serviço
o lixar de alguma porta, o cheiro de Tonitrin,
o chilrear dos pardais e o arrulhar dos pombos,
barulhos inumeráveis da cidade que é bem mais lenta
nos arvoredos do Jardim Botânico com seus esquilos e macaquinhos
lépidos a mover-se, seres que são daquele universo de folhas,
e somando-se a isto a Praça XV e a Ilha Fiscal,
tudo girando em torno deste imaginário eixo
- o banheiro,
onde estou
(onde estive)
e donde apenas ouço
o acelerar do motor de um ônibus
(talvez)
que passa pela rua Duvivier
não sei com que destino.

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