31 de julho de 2008
Estou há um tempo lendo pra me colocar em dia com o blog. Desde que eu fui viajar, ele tinha saído do meu cotidiano e não tinha voltado mais a fazer parte da rotina. Agora, estou de volta!
(gostei tanto do texto que a Carla postou, o do Borges...)
Acho importante a discussão sobre a Cia, e acho que vocês estão colocando a coisa toda de um modo leve, interessante. Foi gostoso ler, pensar a respeito. Mas confesso que exatamente agora eu não tenho vontade de me manifestar sobre o assunto - apesar de ter sido chamada na chincha... hehe.
Repito: a questão não é achá-lo desinteressante ou desimportante. Parte da questão é apenas o avançado da hora... Mas, falando sério, tenho de dizer que, por algum motivo que eu ainda estou tentando identificar, eu tenho a cabeça com menos perguntas do que a de vocês. Eu confesso que frequentemente me sinto burra ou vazia por isso. Mas hoje é um dia de bom humor e eu me sinto apenas diferente.
Lendo algumas "dicas" que vocês, talvez principalmente o Mau, vão colocando no caminho, me dá aquela sensação de alguém colocar em palavras algo que se intue e se sente. Mas eu só tenho vontade de ir atrás dessa clareza de palavras quando é para escrever algum projeto. De resto, acho que o fazer vai dando conta de suprir esse questionamento em mim, ou de preencher esse espaço de dúvidas (não preencher no sentido de resolvê-las, mas sim, no sentido de dialogar com elas de outra maneira). Eu estou muito, muito ligada ao novo processo e sei que é complicado falar do fazer numa companhia que se encontra parte cá, parte lá. Mas talvez essa seja a minha questão. Eu acho que muito do que é da gente surge e se manifesta no dia-a-dia do trabalho. Minha sensação é a de que, se hoje o Mau e a Gabi, ou a mesmo a Nati e a Thaisinha que, por motivos diferentes, estão "afastadas", voltassem a entrar em sala de trabalho com a gente, faria perfeito sentido. E isso não é pouco. E, como a Gabi sabiamente falou na carta dela, o simples fato de que essas presenças estariam lá, faria dos resultados coisas completamente diferentes. Acho que eu já falei isso, mas para mim é curioso que, enquanto nós estamos sempre às voltas com essas perguntas, o Rui, que tem um pé dentro e um pé fora, não tem nunca nenhuma dificuldade de reconhecer nossos trabalhos como da Companhia. Quando ele viu o Seis da Tarde, ele achou claramente uma continuidade de pesquisa, sem dúvida alguma (coisa que eu também acho), quando eu conto coisas do Ruído Branco, em várias delas ele fala "bom, isso não precisa nem falar" (siginificando que pelo simples fato de ser da Companhia, tal característica já era de se esperar, já é parte intrínsica do nosso modo criar). Eu confesso que tenho essa sensação, sempre tive - que a gente tem mais coisas juntos do que da conta de falar. O que não é orgânico pra mim agora é tentar colocar isso em palavras claras - que fique claro, eu estou falando somente de mim. Me parece que isso vai ser uma questão infinita e insolúvel sempre que estivermos separados; talvez nada substitua o criar juntos, o dia-a-dia de uma companhia.
Estava me sentindo mal de escrever isso quando, lendo coisas mais antigas do blog, me deparei com um texto da Nati que fala de uma mulher que a Maria Thaís trouxe para o Ecum, sabem? Enfim, a Nati falava bastante da questão da simplicidade e contava que depois do sei-lá-o-quê da mulher (palestra? aula?) houve um silêncio de 10 minutos, até que alguém resolveu perguntar sobre o Grotowski; e que ela teria questionado se aquela pergunta era realmente a mais espontânea que aquela pessoa queria fazer naquele momento. Meu resumo foi péssimo, tentem reler. Mas me deu uma sensação de que ok, tudo bem essas perguntas não serem espontâneas pra mim agora, sem que isso queira dizer que eu estou desinteressada da cia, ou algo do gênero. E eu acabei fazendo uma pergunta pra mim mesma: por que é que eu vivo querendo pensar menos, ser menos analítica ou crítica, viver o que está acontecendo, coisa e tal, e quando eu estou finalmente nesse estado, como é o caso do meu momento na Cia, eu fico achando obrigatório buscar tudo isso de volta?
Enfim, trocando em miúdos, explicitamente me abstenho da discussão por hora. Quando eu achar que tenho algo a acrescentar ou quando ela repercutir mais dentro de mim, prometo me manifestar.
Nati, você está lendo o Cartas a Théo? Ou ainda está na paquera?
Mau, eu já vi um espetáculo da Dani Lima e gostei bastante. Mas não lembro o nome (existiam umas formas geométricas vazadas no palco, e os bailarinos se relacionavam com elas)... Você sabe qual é?
Bom, a hora avançou mais ainda. Vou dormir.
Beijos grandes e saudades!
Ma Tranjan
22 de julho de 2008
parte de um trecho que o Mau me escreveu e que, ainda sem autorização dele, compartilho com vcs.
Gostaria de ouví-los... Má Tranjan, Cae...?
bjs
Nat
"... vamos tentando clarear um pouco que diabos é isso que se chama companhia auto-retrato nos dias de hoje... Volto ao ponto que me parece mais polêmico, ou pra usar uma palavra melhor, mais obscuro... A questao do uso da pessoalidade como ferramenta criativa.
Tenho por um lado uma tendência a concordar com você quanto à importancia, ao destque que isso tem no histórico da companhia. Todo mundo trabalha a partir da pessoalidade de uma forma ou de outra, como eu disse antes, mas talvez a clareza de definir isso como método principal de trabalho seja um ponto importante. Acho apenas que dizer: processo criativo baseado na pessoalidade é muito vago, acho que precisamos entao encontrar o que é realmente específico dentro do nosso uso da pessoalidade, que difere por exemplo de uma construcao de personagem com memória emotiva ou as perguntas da Pina Bausch... E de repente, enquanto eu escrevia pra você e refletia simultaneamente, me ocorreu que talvez nao seja o fato de que partimos da individualidade pra criar, e sim o fato de que buscamos expressar essa individualidade o fator diferenciador do nosso processo. Ou, colocando em outras palavras, a gente nao trabalha a individualidade como forma de preencher uma referencia externa, seja ela um texto ou uma encenacao pre concebida, mas sim como uma tentativa de dar uma forma concreta a essa individualidade, pela qula ela possa se expressar. E a busca das potencialidades criativas do corpo, nesse sentido, é só uma consequencia natural, já que o corpo é um aspecto importante dessa individualidade..."
ps: Mau, desculpa, mas achei importante demais o que vc disse e essa nossa conversa toda pra ficar só entre a gente
Beijos
Nat
11 de julho de 2008
Momentos de reflexao
Como sempre, penso demais. Mas o fato é que tenho pensado muito sobre a Companhia, especialmente depois de toda essa conversa ao redor do fomento, de quais espetáculos deveriam ser incluídos em um projeto de repertório da companhia, e do fato do mas nao ser ou nao parte desse repertório, e há uma pergunta que nao me sai da cabeca:
O que nos faz, hoje, uma companhia, mesmo que separados no espaco?
Ou melhor colocado: o que nos une a ponto de podermos dizer que temos trabalhos guiados pelos mesmos principios, a ponto de serem considerados de um mesmo grupo?
Ou pro fim: qual a filosofia que nos mantem unidos, apesar da distancia espaco tempo?
coloco essa discussao porque algumas vezes sinto que muito do fato de sermos uma companhia está ligada a coisas que aconteceram no passado, e acho que uma discussao como a que houve só aconteceu porque nao está claro pra ninguém qual é o principio que nos une. Eu, por exemplo, nao acredito que qualquer trabalho que eu dirija ou faca faz parte da companhia simplesmente pelo fato de ser dirigido por mim, mas entao preciso entender e conseguir separar os meus principios de trabalho individuais daqueles que sao coletivos.
Pode parecer uma mera punhetacao filosofica, mas eu realmente acredito ser importante... A companhia esta em claro processo de transformacao, e acho importante sabermos pra onde estamos querendo ir, pra evitar que simplesmente sejamos conduzidos pela correnteza do trabalho prático.
Comeco a discussao tentando levantar algumas pistas... Pelo que me recordo, a companhia tinha, na sua origem, três pontos básicos de investigacao (ainda que naquele momento a gente nao tivesse tanta clareza ou pudesse se expressar de forma adequada) : a busca das possibilidades expressivas do corpo e do movimento; a pesquisa de uma dramaturgia específica que conjugasse corpo e palavra, uma dramaturgia que fosse composta junto e para o movimento; o uso da individualidade de cada performaer como fator determinante do processo criativo.
Ao que me parece, e por favor, nao quero em momento algum fazer uma crítica ou discutir a qualidade do rumo que está sendo trilhado, os dois primeiros aspectos nao parecem mais tao importantes dentro do processo do núcleo central da companhia. Quero dizer, observando o seis da tarde (o novo processo eu nao posso opinar, porque o que sei dele é quase nada) eu nao posso dizer que é um espetáculo centrado no uso expressivo do corpo, é claramente um espetáculo centrado na construcao dramatúriga e esta, por sua vez, também nao me parece ter como objetivo, como uma dia, a busca de uma conjugacao entre corpo e palavra... Mais uma vez quero dizer que isso nao é um julgamento de valor, apenas uma tentativa fria de análise objetiva do espetáculo, buscando descobrir que diabos é a identidade da auto-retrato hoje em dia.
A questao da individualidade do performer ainda é válida, mas ela sozinha me parece vaga. No fundo, todos os processos se baseiam de uma forma ou de outra na individualidade dos performers (da memoria emotiva de Stanislawski ao teatro coletivo do Living Theatre ou ao clown do LUME)... Por isso, me parece que os valores do passado sao valores do passado. Dai a pergunta: qual sao os valores do presente?
Tenho uma intuicao: pra mim, tem alguma coisa a ver como um olhar nostálgico sobre o mundo e a realidade. Quando vejo os espetáculos da companhia, existe sempre uma sensacao de inadequacao à realidade presente, que pode ser expressa de forma direta pelos performers (como no retornarse) ou de forma indireta (como no ausencia ou no seis da tarde). Ainda tenho a insistencia de achar que tem alguma coisa a ver com o corpo, apesar de nao saber bem qual a relacao que vocês tem estabelecido com ele nos últimos tempos. Também há algo do método de criacao, mas tudo o que penso a esse respeito é tao generico que poderia ser enquadrado a pelo menos outros duzentos grupos.
Lancei algumas ideias?
Alguém quer comentar? Mais alguém acha essa uma discussao importante?
beijos a todos
mau
PS. Macô: explicando a minha outra postagem.
Existe um orgao ligado à UNESCO que é o ITI (International Theatre Institute). Na Alemanha eles sao bem ativos e um dos eventos que eles produzem é um festival de teatro denominado Theater der Welt. O festival acontece a cada dois anos em uma cidade diferente da Alemanha e a idéia é levar companhias do mundo todo, muitas com obras feitas para estrear no festival, em duas semanas de apresentacoes. Esse ano, dentro do Festival o ITI resolveu desenvolver um projeto específico para discutir liberdade e vigilância nos espacos públicos e dentro desse projeto foram convidados três videomakers e quatro coreógrafos de diferentes locais do mundo pra realizarem intervencoes em espacos públicos. Uma dessas coreografas foi uma brasileira chamada Dani Lima ( ninguém conheca ela? Eu ja tinha visto dois espetáculos dela aí no Brasil) que resolveu, por sua vez, que queria um grupo de doze pessoas de diferentes origens, idades e tipos de movimentacao, e eu fui um dos escolhidos... Acabou sendo um work in progress, porque a cada dia experimentavamos coisas novas em sala de ensaio e depois nas ruas da cidade, nao havia uma forma fixa, mas era teoricamente um espetáculo dentro do festival. Sobre ela: ela mora no rio, tem um trabalho muito interessante entre espetáculo e performance, uso do momento presente, improvisacao em cena, etc. Quanto ao grupo, duvido que nos vejamos de novo. Na verdade, estou botando fogo pra ver se a gente manda uns projetos pra uns outros festivais, porque pra mim foi uma experiencia bem interessante... Mas nao sei se vai rolar...
Ah, adorei a carta...
10 de julho de 2008
Eu fiquei curiosa, não sei se você explicou em outra mensagem, mas o que foi este processo que você viveu (uma oficina? uma pesquisa pontual?). Esta pessoa que coordenou é brasileira? Vive aqui ou ai? O grupo irá se encontrar novamente? Podem parecer curiosidades bobas, mas gosto de saber dos trâmites "burocráticos". Às vezes pode ser um conhecimento útil que abre nossas possibilidades de estrutura e organização....
Agora... o que você escreveu sobre o trabalho... me veio à cabeça uma das cartas que trabalhamos por coincidência hoje no ensaio. É uma carta de Meierhold para um destinatário desconhecido, gosto muito dela.
No ensaio, a Marina e o Caetano selecionaram algumas cartas que já trabalhamos anteriormente como estímulo para explorarmos diferentes estados que surgem pela voz de seus remetentes.
Vou transcrever um trecho dela aqui:
(...)
Sofro frequentemente porque tenho uma consciênciamuito exigente. Sofro frequentemente porque sei que não sou como deveria ser. Estou constantemente em desacordo como meu meio ou comigo mesmo. Duvido constantemente, amo a vida, mas eu a evito. Desprezo minha falta de personalidade e quero força, procuro empenho. Sou mais infeliz que feliz, mas encontrarei a felicidade quando parar de me absorver nas análises, quando recuperar minhas forças para lançar-me na luta enérgica. Na peça de Górki alguém diz: "É preciso se incorporar à substância da vida". É verdade. E Seriojka, o miserável, diz em Malva: "É preciso sempre fazer algo para que, em torno de si, as pessoas se agitem e sintam que há vida. É preciso agitar a vida mais frequentemente para que ela não se torne azeda". (...) Tenho vontade de ferver, de me fazer força impetuosa para criar, não somente destruir, mas criar destruindo. Agora estou em crise. O momento mais perigoso. E uma consciência muito exigente, dúvidas, hesitações, auto-análise, atitude crítica em relação ao que me rodeia, entusiasmo pelas doutrinas, tudo isso não deve ser um fim, mas um meio. Tudo isso deve existir somente como evidência de algo mais.
Sofri e Sofro. Tudo a que fiz alusão nesta carta, fique claro, estimulou meu trabalho criativo.
Minhas criações carregam a marca das pertubações de nossa época.
Diante de nós figuram novas criações, porque a vida também será nova. Uma nova onda já se apoderou de mim.
Beijos
Marina Corazza
6 de julho de 2008
De volta pra casa
Mas nenhuma volta é na verdade uma volta, um recomeco...
tem mais a ver com continuar em frente, ou mais ainda em ao mesmo tempo voltar e prosseguir, uma mistura de tempos e sensacoes distintas... Olhar o passado com os olhos do presente...
O trabalho com a Dani (desculpem, a Dani Lima), foi incrível...
Em um dos poucos e-mails que pude escrever enquanto estive lá, lembro de ter escrito como era incrível que eu tivesse esperado tanto pra voltar a trabalhar como performer, se isso me dava tanto prazer... Mas é também incrível que logo na primeira tentativa eu tenha encontrado um projeto que me dissesse tanto, compartilhado por algumas pessoas que tivessem tanta sintonia comigo, e principalmente coorenado por alguém tao especial. Foi um encontro desses que poucas vezes acontecem, quinze dias de trabalhos intensos, muitas vezes difíceis, mas nunca desinteressantes.
Em alguns momentos, me senti de novo em grupo de amigos, de pessoas interessantes com objetivos comuns, uma sensacao que nao tinha desde abandonar a auto retrato rumo a alemanha, uma sensacao que mesmo na auto retrato já havia perdido quando fui embora... Trabalhamos muito com improvisacao de movimento a partir de jogos, em alguns momentos numa linha próxima a que haviamos trabalhado com o alex (sem a parte da consciencia corporal, mas jogados direto no jogo com o espaco, o tempo e o outro). Depois iamos para a praca central da cidade e tentavamos fazer com que o ambiente transformasse o jogo, com que as pessoas, mesmo inconscientemente, interferissem e determinassem o rumo das improvisacoes. Em outros momentos, tinhamos acoes claras determinadas com o objetivo de criar um estranhamento na vida quotidiana da cidade, mas buscando o tenue limite entre o real e o performático. Tudo partindo do uso do corpo como ferramenta expressiva, mas com um conceito de danca muito mais amplo do que o que é tradicionalmente associado a ela.
Engracado, porque comecei essa carta com a idéia do retorno, mas as vezes sinto como se o verdadeiro retorno tivesse sido o trabalho em Halle, e nao a volta pra casa. Um retorno muito mais antigo e muito mais profundo, há um tempo que nem eu mesmo sei aonde se localiza, se é que algum dia existiu. Estou mais nostálgico do que nunca, mas sinto mais do que nunca que nao tenho patria, que nao tenho casa, que sou apenas eu... O resto gira ao meu redor, mas pode ir embora a qualquer instante...
E já que estamos nas postagens com anexos, vou colocar trechos do meu diário de trabalho... Quem quiser, de uma lida
beijos
mau
Diario de trabalho (trechos)
Escalators - Halle, junho 2008
Primeiras impressões (15.06)
“(...)Halle é uma cidade simpática, e depois de estar perdido por algum tempo (essa maravilhosa sensacao de chegar a um lugar desconhecido) parece fácil de se entender e locomover (...) Primeira impressao da Dani Lima: incrível conhecer uma diretora que parece gente normal, que conversa como uma pessoa normal, que nao tem ataques de estrela (...)”
Primeiro dia de trabalho (16.06)
“(...) as bases sobre o qual ele (o trabalho) é construído sao muito próximas àquelas nas quais acredito: comunicacao em grupo, percepcao do outro e do espaco, por exemplo (...) Os exercícios na galeria foram um pouco frustrantes. A primeira pergunta clara é: como retomar a sensacao de percepcao e contato com o grupo num lugar cheio de estímulos e sem aquecimento prévio? (...)”
Segundo dia de trabalho (17.06)
“(...) Uma sensacao diferente tomou conta de mim hoje. De manha estive displicente, agindo de forma pouco consequente e automática. Me deixei envolver pelo jogo e pelas regras, e acabei respondendo de forma pouco criativa, e pior, pouco presente (...)Certamente nao entrei na sala de trabalho com a energia de ontem e isso foi definitivo (...) Fui almocar chateado, decepcionado comigo mesmop e decidido a dar mais atencao pra mim e escutar mais o meu corpo. Comecei almocando sozinho e aceitando o fato de que precisava descansar pra aguentar a tarde (...) (a tarde) trabalhei de forma mais tranquila com o fato de ser o equilibrio da balanca, o peso de controle, aquele que está lá nao para ser o foco mas para funcionar de contrapeso contra o excesso. Sai muito mais satisfeito (...) Percebi hoje que a experimentacao em sala de ensaio é mais voltada pra que nós, performers, entendamos cada jogoe suas possibilidades/limites, enquanto as improvisacoes no espaco sao muito mais importantes para a decisao de “pensamentos coreográficos” (caracteristicas que o jogo tem que ter naquele espaco) (...) PS: Novamente uma pequena nota de rodapé para comentar a loeveza e a generosidade com a qual a Dani nos orienta e nos acompanha. Por enquanto, mais do que qualquer coisa, o projeto serve pra entender e me identificar com essa referência de direcao (...)”
Terceiro dia de trabalho (18.06)
“(...) dia de muitas sensações confusas (...) tudo comecou no aquecimento, mover-se livremente mas sendo observado por alguém. (...) saber que eu posso me aquecer “como eu quiser foi para mim maravilhoso, e ao final da primeira hora de trabalho eu estava, talvez pela primeira vez, realmente pronto e ligado. A presenca do observador nao representou uma pressao, em alguns momentos foi até um estímulo para trabalhar com a atencao redobrada e nao cair no lugar comum. (...) A improvisacao na escada rolante foi bem intensa e prazerosa. Porque foi realmente uma improvisacao, estavamos livres pra buscar as solucoes a cada momento, e essa necessidade de decisoes muito rápidas despertou um estado incrível de atencao e reacao as propostas. (...) Depois fomos para o Marktplatz experimentar a cena das roupas. (...) O contato estava extremamente enfraquecido, e a gente correu MUITO na acao. Nao sei bem como definir, mas tenho certeza de que o ela entre a gente se perdeu. Nao sei até que ponto eu contribuo para isso, ou o que eu posso fazer para mudar. Tenho a sensacao de estar concentrado, focado e de tntar ser preciso, mas pode ser que seja uma impressao errada (...)”
Quarto dia de trabalho (19.06)
“(...) Hoje foi um dia difícil em muitos sentidos, mas principalmente porque comeca a ficar clara a expectativa de cada pessoa, sua opiniao a respeito do trabalho e sua maneira de agir ligada a isso (...) Sintomas: uma longa discussao que nao interessava a quase ningue, um pedido de treinamento em danca no comeco do trabalho (...) percebo que durante o trabalho sou tentado a procurar sempre as mesmas pessoas e que jogo somente com elas, como se uma rede de conexao se criasse entre uma parcela do grupo, que tenta de alguma forma dar sustentacao ao trabalho como um todo (...) a afinacao do grupo parece emperrar sempre nos mesmos lugares, nas mesmas pessoas, nos mesmos problemas (...) A tarde, no Marktplatz, fizemos o jogo da “passagem”, e eu senti grandes focos de absoluta ausencia de conexao, concentracao e vontade de jogar. Sinto que algumas pessoas estao insatisfeitas e que isso, num trabalho como esse, pode ser comprometedor (...)
Quinto dia de trabalho (20.06)
“(...) Cansaco. Quando você exige do corpo o que ele nao é capaz de dar. Hoje foi um dia difícil, nao ruim, mas difícil. Como já era de se esperar, depois da festa de ontem e da noite mal dormida (...) Houve momentos interessantes, especialmente quando algum tipo de conexao realmente acontecia e eu conseguia usar a energia do outro como catalisador, mas em muitos momentos eu me senti pouco criativo, obvio, incapaz de ultrapassar os limites da primeira idéia (...) Busco as pessoas com quem a conexao realmente acontece, que veem o jogo de forma semelhante à minha, e fujo de outras (...) Também entrei um pouco em crise por causa da minha capacidade de “desaparecer” no espaco (que tem sido ressaltada pela Dani). Tenho medo que, em dias como hoje, em que a energia está baixa, eu desapareca realmente e as pequenas interferencia que eu crio no espaco nao se concretizem (...)”
Sexto dia de trabalho (21.06)
“(...) Como explicar o que aconteceu hoje? Em algum momento, enquanto eu deitava no chao da paraca, uma nova conexao se abriu dentro de mim, uma conexao absoluta entre interno e externo (a praca em movimento e eu ali, parado) que realmente nao passa por nenhum tipo de premeditacao ou compreensao lógica dos ritmos e desenhos de um espaco... Um estado absoluto, fora do quotidiano, um estado leve, sem esforco, sem necessidade, um estado, por assim dizer, sagrado (...) O jogo depois, com a Esther, só podia ser assim: uma sensacao absoluta de comunicacao, de enxergar o espaco através dos olhos do outro e saber antes dele mesmo o que ele vai fazer (...) A pergunta que ficam: as pessoas que respiram, escutam, conseguem transformar um grupo? Em tao pouco tempo? Acho difícil, me parece que vamos ter essas duas forcas (a necessidade de escuta e a incapacidade de nao propor) lutando o tempo todo ao longo do trabalho (...)”
Segunda semana
Sétimo dia de trabalho (23.07)
“(...) Hoje eu estive quotidiano. Nao consegui ultrapassar a barreira, de maneira geral foi assim: nao exatamente bom, nao exatamente ruim. Pouco criativo, grande demais, pouco expressivo (...)Quando estou assim, os movimentos ficam grandes e artificiais, os contatos sao logicos, os jogos se transformam em piada (...) Pelo menso acho que nao fui só eu, percebi várias pessoas aquem do que elas realmente podem, tive dificuldades de encontrar parceiros de jogo, nao vi as coisas aconteceram como em outros dias (...)Sinto falta de me aquecer de verdade, pular, suar, ser tirado da energia quotidiana. Me cobrar, conheco esse caminho e nao dependo de ninguém pra seguir por ele (...)”
Oitavo dia de trabalho (24.07)
“(...) Desde a chegada na sala de ensaio outra postura, mais independente, mais consciente do MEU corpo e das MINHAS necessidades, menos envergonhado. Aqueci de verdade, pulei, suei, criei resistência. Depois a Dani ainda aqueceu mais um pouco e, quando paramos, eu sentia meu corpo completamente acordado, preparado, perceptível, fluido (...) Mas nao fui só eu, o grupo todo estava lá, a rede de seguranca estava montada, e mesmo as pessoas naturalmente menos concentradas mostravam mais vontade e mais escuta do que ontem (...) O jogo na escada rolante foi incrivelmente melhor do que ontem, mais flexível, muito mais criativo, sem tanto atropelamente, com propostas que se completavam ao inves de se repetir. Eu busquei o contraste, o jogo em nivel mais complexo, e isso me abriu possibilidades incabaveis de combinacao (...) Resumindo, a questao parece ser: jogar com a energia quotidiana e nao deixar ser sugado por ela. Mesmo dentro de um espaco e de um tempo quotidiano (e eu diria principalmente) prtecisamos manter nosaa qualidade cenica de atencao e nossa energia dilatada (...)”
Nono dia de trabalho (25.07)
“(...) Frustracao. Hoje fizemos muito pouco (e isso foi terrível, depois da expectativa de ontem). Choveu, e a Dani insistiu em ir pra praca mesmo assim. O chao estava molhado, e pior, escorregadio, o que tornou impossível realizar qualquer coisa decente (...) No Mäc Geiz, o jogo nao chegou a ser ruim, mas a escuta nao estava tao afinada como ontem. Havia jogos interessantes, mas o espaco nao era percebido como um todo, o que gerava muitas propostas simultâneas (...)”
Décimo dia de trabalho (26.07)
Sem anotacao
Décimo primeiro dia de trabalho (27.07)
“(...) o cansaco e o desgaste sao evidentes, o interesse comeca a diminuir e a propensao a repetir padroes ja conhecidos é imensa. Poucos ainda parecem querer jogar, buscar coisas novas (...) De repente a Dani surtou, teve uma gigantesca crise de ansiedade e comecou a querer que a gente “mostrasse coisas”, “fizesse acoes de impacto”, que a coisa “comecasse a acontecer rapidamente” (as palavras sao dela). Conexao, sutileza, deixar o jogo acontecer? Nada. O resultado foi tao obvio quanto catastrofico (...) Sensacao de retroceder no trabalho, mesmo as pessoas naturalmente mais propensas a jogar pareciam ter perdido a calma, a “rede de seguranca” era instável e esporádica, nao dava conta de sustentar o trabalho (...) foi preciso respirar fundo e aceitar que a Dani também é humana, e também püode ficar ansiosa e perder por alguns instantes sua mao precisa na forma de comandar o grupo (...) Trabalhar com improvisacao parece implicar obrigatoriamente em uma confianca absoluta no que os performers sao capazes de realizar, superar problemas e perceber o espaco e as relacoes que eles estao criando, e é preciso ter calma pra saber que as vezes eles vao errar, e que isso é parte do processo de aprendizado (...)”
Décimo segundo e último dia de trabalho (28.07)
“(...) hoje nao fizemos, nao na prática. Cheguei no estúdio e fui aquecer, como todos os dias, e uns cinco minutos depois fui chamado pela Zoe, que me avisou que a gente nao ia aquecer. A incompreensao era latente na voz dela (...) Fomos para a praca, mas parecia que só estavamos jogando pra que a Dani pudesse filmar da cobertura da Kaufhof. Como se o jogo nao tivesse importância, como se as pessoas que estavam na praca nao tivessem importancia. Importante era desenhar linhas no espaco e nao deitar muito perto dos toldos, pra que a camera pudesse filmar (...) Depois, quando tudo já parecia perdido, fui jogar o abraco com a Britta. Nao tinha a menor vontade. E por incrível que pareca, o jogo foi ótimo. É verdade que eu joguei sozinho, porque a Britta nao reagia a qualquer tipo de proposta ou mudanca de dinâmica, mas de repente eu estava acordado, ligado, presente (...) Pena que os últimos dias tenham tirado um pouco do brilho do trabalho que fizemos nas duas semanas (...)”
3 de julho de 2008
Ensaios
Quero compartilhar sem o menor distanciamento como foi bom não dormir, ficar mais de 24 horas acordada com vocês (os que estão próximos ou distantes), um vão no espaço/tempo se abriu e nos dedicamos integralmente a dar formas para os nossos objetivos que, assim mesmo no plural, moram no encontro entre nós. Não houve brigas, nem cara feia apesar do nosso estado. Nem aquela ansiedade que deixa a todos à flor da pele e inibe qualquer tipo de pensamento lógico... Desculpe meu entusiasmo, mas tenho me empenhado no exercício de dar crédito às minhas coisas antes e independente do que Os Outros percebam. Sei que estou escrevendo como uma adolescente no tom e nas palavras, mas às vesperas de completar 29 anos não tenho mais tanto medo de ser mal compreendida ou parecer ingênua ou burra. É isso. Texto para um Retornarse II.
Hoje a Cristiane assistiu pela primeira vez nosso ensaio e novamente... encontros. Essa é uma relação que tende a enriquecer muito o trabalho, ela é muito generosa e traduziu com palavras, sensações obscuras e caminhos meio escorregadios.
Beijos a todos
Marina Corazza
2 de julho de 2008
cada vez que a gente escreve um projeto juntos sinto que gente se modifica, se reorganiza, se reestabelece, não?
Mau, eu vi as fotos da sua performance no seu orkut. Pareceu muito bacana, escreva contando!
Pessoas, empolguei-me na leitura do Vang Gogh e queria compartilhar umas coisas com vcs, que achei que eram a nossa cára (perdoem o excesso de citações!).
Bjs
............................................
Em vez de me deixar sucumbir pelo desespero, tomei o partido da melancolia ativa enquanto tinha a potência da atividade ou, em outras palavras, preferi a melancolia que espera e aspira e que busca, àquela que embota e, estagnada, desespera.
...
Mas qual é seu objetivo definitivo? Você perguntará. Este objetivo torna-se mais definido, desenhar-se-á lenta e seguramente como o croquis que se torna esboço que se torna quadro, à medida que se trabalhe mais seriamente, que se aprofunde mais a idéia, no início vaga, o primeiro pensamento fugidio e passageiro a não ser que o fixemos.
...
... diga-lhe que o quero dizer é que se fotografássemos um homem lavrando, ele certamente não estaria lavrando. Diga-lhe que acho as figuras de Michelangelo admiráveis, embora as pernas sejam decididamente muito compridas , os quadris e as coxas muito largos. Diga-lhe que é por isto que Millet e Lhermitte são aos meus olhos os verdadeiros pintores, porque eles não pintam as coisas como elas são, segundo uma análise rebuscada e seca, mas como eles, Millet, Lhermitte, Michelangelo as sentem. Diga-lhe que o meu grande desejo é aprender a fazer tais incorreções, tais anomalias, tais modificações, tais mudanças de realidade, de forma qeu resultem, sim, mentiras, se lhe apraz, mas mais verdadeiras qeu a verdade literal.
Van Gogh - Cartas a Theo
bjs, mandem notícias
Natacha