24 de março de 2008

São Paulo, 24 de Março de 2008

Olá a todos!

Tenho usado muito o "delete" pra escrever no blog. Agora mesmo, já fiz uns quatro começos diferentes. Tá difícil encarnar o espírito do "fluxo de texto"... (não que esse tenha que ser o espírito, mas é melhor do que ficar empacada).

Bom, nossa correspondência material começou com uma história pra contar: ela foi violada e veio faltando um cd (é isso, Mau e Gabi? Vcs tinham enviado um cd?). Que triste, não? Hoje a carta veio para as minhas mãos, após passar por Má Co e Caetano, mas eu ainda não li. Estou ansiosa, com o envelope rasgado na bolsa.

Tem sido difícil pra mim acompanhar o ritmo de tudo o que está acontecendo. Estou num momento especialmente em pé de guerra com o tempo (e nunca é bom travar guerras com o tempo! Não existem muitas chances de vitória). Mas não é uma escolha. O que acontece é que, mais do que nunca, me vem aquela sensação de não estar dando conta das coisas pra fazer... as que eu quero fazer, as que eu tenho que fazer, as que necessitam de disciplina, as que necessiatm de leveza... enfim. Não sei bem o que está acontecendo. Outro dia eu estava me questionando se eu estava mesmo com muita coisa, ou o quê, e eu conclui que eu quero fazer muitas coisas, mas na prática estou fazendo poucas de tão paralizada que eu fico com essa questão. E, principalmente, como é difícil pra mim me organizar no tempo!!! Nossa... Me dá canseira só de falar disso. É muito cansativa a sensação absolutamente permanente de que existe algo para ser feito que não está sendo feito nesse exato momento. Não sei se dá pra entender. Eu não ia falar disso... É mais um desabafo, mas acho que não era o caso, né? Sei lá, não vou usar o delete de novo. Acho que eu lembrei de escrever isso por causa do comentário do Mau, das atividades cotidianas, dos nossos compromissos (mesmo os mais queridos)... enfim. Tem sido difícil pra mim. São duas palavras fundamentais e misteriosas pra mim: disciplina e organização. Como eu apanho! Ufa...

Estou tomando um cano do professor de italiano. Ainda bem... Também não consegui estudar nada nessa semana (em continuidade ao assunto anterior). Ai, ai...

Bom, esse post vai ganhar com certeza o troféu resmungão do blog. Me desculpem. Essas questões básicas têm me tirado do sério.

Mas, só pra terminar melhor, novamente as boas novas: voltamos à casa da Cristiane (eu, Caetano, Má Co, Carla, Edu e Camilo) e a conversa foi ótima mais uma vez. Engraçado como às vezes as coisas mais interessantes estão mesmo fora das anotações do que "era para ser falado", enfim, estão soltas sem grandes pretensões por aí.

Bom, acho que é isso. Será que dessa vez eu vou me lembrar de assinar? (hehe...)

Gosto muito de ler nosso blog, os recados de vocês.

Muitos beijos e saudades! Saudações e felicidades aos auto-retratenses aniversariantes (Thaisinha e Rui)!!! Tudo de melhor pr'ocês!!!

Ma Tranjan
Berlin, 24 de marco de 2008

é triste perceber que pouco a pouco os compromissos vao ocupando o tempo dos nossos dias, e a correspondencia que há apenas três meses nos comprometemos a manter regularmente comeca a rarear. É claro que é necessário compreender as necessidades, vontades e prioridades de cada um, claro que é preciso compreender que nem sempre sobra tempo pra sentar na frente do computador e escrever, ainda mais quando a rotina se torna cheia de pequenos compromissos e projetos e decisoes. Mas escrever é um ato que implica em disciplina. Esperar que a vontade e o tempo aparecam pra escrever é um erro que só vai fazer que essa atitude seja adiada dia após dia (existe sempre algo mais importante, nao é verdade?) Talvez seja eu que prefira viver o passado ao inves do presente, nao é a toa que baseei todo o meu teatro em uma busca de conciliacao entre esses dois tempos, talvez escrever e receber notícias seja um ato importante só pra mim... Mas nao era o que tinha entendido de nossas conversas de janeiro...

Por aqui pequenas coisas vao acontecendo. Continuo na busca pelos performers que faltam ao projeto do Koltes, e ao mesmo tempo comeco a tentar visualizar qual vai ser a prática de ensaios num período tao curto (menos de um mes), com um grupo tao diverso (atores, bailarinos, jovens e mais velhos, alemaes, espanhois, brasileiros) e para um projeto tao claro na minha cabeca... Antes de mais nada, nao se trata, como normalmente se trata, de dar espaco para que um espetáculo aconteca, se trata mais de conduzir os performers para que eles realizem o que já está na minha cabeca, algo muito novo para mim... As questoes artísticas, entretanto, pouco mudaram: A busca de um teatro sensível, a relacao entre corpo e palavra, busca de contato direto com o espectador, relacao, intimidade, uso da improvisacao como ferramenta de contato com o presente, uso da experiencia pessoal como ferramenta de contato com o passado. É aguardar pra ver como isso se configura na prática...

Na quarta feira comecei a trabalhar com o grupo de treinamento, apesar de três dos seis envolvidos me avisarem poucas horas antes que nao poderiam comparecer. Aqui a abordagem é outra. Nao me interessa o resultado, nao me interessa produzir, me interessa conduzir um trabalho de investigacao e descoberta pessoal, um trabalho de aprimoramento técnico e principalmente sensível, a busca de uma unidade de trabalho, de uma crenca, de princípios, de idéias. Nos reunimos assim, sem querer montar nada, sem ter um objetivo claro que nao seja o de propiciar um espaco de pesquisa, sem pressao, sem cobranca de resultados, sem julgamento precipitado... É engracado perceber que eu aos poucos vou me tornando um mestre, mesmo que a minha diferenca de idade pras pessoas com as quais trabalho nao sejam tao mais novas do que eu (algumas tem idade proxima da Gabi), mas há um respeito pelo que falo, pelo que peco, uma tentativa de realizar o trabalho, que vai além da compreensao, uma vontade que eu admiro. É muito cedo pra qualquer tipo de julgamento, mas eu acredito que pode dar certo, pelo menos como uma primeira semente, pela primeira vez na alemanha eu sinto que encontrei pessoas com as quais tenho uma sintonia de crenca e trabalho, pela primeira vez eu enxergo conexoes que sao mais profundas e desejos que sao mais fortes do que um projeto ou um espetáculo...

Me sinto bem...
Caminhando em várias direcoes ao mesmo tempo (será que é possível sair do lugar assim, partido?)

beijos
mau

ps: minha carta e a da gabi chegaram na casa da Macô?

16 de março de 2008

Berlin, 16 de marco de 2008

nova carta depois de algum tempo de silêncio...
foi uma semana dificil, como sabem os que se comunicaram comigo nesse meio tempo... Ontem fiz a audicao pro projeto novo, e isso me custou muito tempo e reflexao. Desde perguntas básicas, como o que eu quero com o projeto, o que eu quero com a minha arte, com a minha vida, e como eu consigo interessar outras pessoas com isso, como eu consigo saber se essas pessoas tem a pegada que eu quero, quais sao os exercícios que me apresentam e ao mesmo tempo me possibilitam perceber (a palavra seria analisar?) o comportamento e as capacidades de cada pessoa? Medos infantis de ser rejitado, de nao conseguir, sobretudo um medo inevitávelo de falhar me tiraram o sono de muitas noites na semana passada... Mas agora passou. Me questiono se foi uma boa estratégia, ou se foi a melhor estratégia, se nao podia ter conseguido resultados semelhantes tomando um café com as pessoas, conversando com elas, vendo o perfil de cada uma, minha percepcao é de qualquer forma tao intuitiva que é difícil justificar uma escolha... Mas foi uma experiencia importante, talvez mesmo por ser tao dificil... Mais uma etapa ultrapassada no caminho de virar gente grande... Mais um rito de passagem... No final, tenho quatro atores dos oito que gostaria, continuo na busca, mas me tranquilizei ao perceber que isso nao é o que importa... Preparei e fiz um belo ensaio, as pessoas estavam comigo, se interessaram... Isso sim é importante... Pequenas conquistas... Uma hoje, uma amanha, e em dois anos e maio estamos tao longe como jamais poderia imaginar...

Se por um lado eu procuro pessoas específicas pra um projeto específico e com prazo de validade, por outro lado eu finalmente consegui dar o start no meu projeto maior desde que cheguei a Berlin. Na próxima quarta eu finalmente comeco a trabalhar com um grupo de pessoas reunidas com o unico intuito de manter um treinamento em movimento, sem qualquer perspectiva imediata de espetáculo, no fundo um grupo de pessoas que está reunida porque tem interesse em mim, no meu trabalho, um grupo do qual, espero, nasca a primeira semente de uma companhia minha por aqui... A minha filial alema da Auto-retrato. A maioria sao ex-alunos meus, ou pessoas ligadas a eles, mais a Gabi, mas me parece um perfil interessante. Sao pessoas ativas e entusiasmadas, pessoas que ainda estao buscando algo, pessoas cuja vida e perspectivas ainda nao estao definidas, com as quais posso trabalhar, exercer verdadeira influência, conjugar... Me sinto um pouco mais velho e um pouco mais "responsável" que na auto-retrato (aqui, sem duvida, nada teria acontecido sem a minha presenca e influencia), sinto que minha figura nao é exatamente de um igual, como era pra vocês, mas ainda de alguém que sabe mais, de alguém que tem algo a transmitir, mas acho que essa é a tendencia, quanto mais eu envelheco, mais natural é que exista essa diferenca de idade/conhecimento/experiencia de vida entre mim e as pessoas que me cercam...

queria só contar dessas duas coisas...
e queria escrever, porque há tempos já nao fazia...

beijos a todos
saudades como sempre
mau

14 de março de 2008

São Paulo, dia 14 de março de 2008


Hoje, um dia cinza e levemente frio...

vontade por doces...

Hoje, resolvi escrever depois de tanto tempo em estágio de observação... era mais um estágio de “sem saber muito o que dizer...”

Hoje, véspera do meu aniversário. 27º primavera, ou deveria dizer 27º verão? Num frio de São Paulo....

Hoje, estou rememorando o meu subsolo.

Rememorando coisas que já abandonei para seguir um infindável “desejo”.


Se foi bom?


Sim, foi.

Sim, é muito bom, mas dói ao olhar para traz.

É uma dor ingênua, de criança, que queria brincar de tudo e de todos.

Porém, a vida segue o seu percurso... E eu estou aqui... pulso, respiro, vivo, crio e continuo sempre desejando o desconhecido.


Mas família é sempre a família... e quando estamos carentes e sozinhos percebemos ainda mais a falta que ela nos faz.

Sinto saudades da Família Auto-Retrato... saudade de salas de ensaio... contatos em grupo... mover-se e trocar. É difícil fazer tudo isso quando estamos sozinhos. É difícil também, saber quando é bom o que fazemos sem ter olhado nos olhos de ninguém... apenas no olho do seu próprio umbigo.

A insegurança pulsa às vezes... cadê a criança sem ego e sem fronteiras?



Rememorar – memória - subsolo – meu subsolo – solo – buracos profundos – buracos superficiais – diamantes – cinzas – ancestrais – a terra que é o barro - a geografia do eu – cartografia.

Onde foi que pisamos antes de termos pisado?




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Resolvi colocar algumas palavras do RUSSO F. Dostoiévski:


“O Homem é um animal criador por excelência, condenado a tender conscientemente para um objetivo e a ocupar-se da arte da engenharia, isto é, abrir para si mesmo um caminho, eterna e incessantemente, para onde quer que seja. Mas talvez precisamente por isto lhe venha à vezes uma vontade de se desviar, justamente por estar condenado a abrir este caminho, e talvez ainda porque, por mais estúpido que seja um homem direto e de ação, ocorre-lhe às vezes que o caminho vai quase sempre para alguma parte, e que o principal não está em se saber para onde se dirige, mas simplesmente em que se dirija, (...)”

(Memórias do Subsolo, pg 46. Editora 34)




Na verdade ia escrever um outro trecho sobre a necessidade de se escrever para si mesmo, sem pensar em um público leitor... vejamos:





“(...) trata-se de forma, unicamente de forma vazia, e eu nunca hei de ter leitores (...).

Não quero constranger-me a nada na redação das minhas memórias. Não instaurei nelas uma ordem nem um sistema. Anotarei tudo o que vier à minha lembrança. (...)

Bem, por exemplo, alguém poderia implicar com essas palavras e me perguntar: se de fato não conta com leitores, para que faz tais contratos consigo mesmo, e ainda por escrito, no sentido de que não instaurará uma ordem ou um sistema, que há de anotar tudo o que lhe vier à memória etc. Etc.? Para que está dando explicações? Para que se desculpa?

Já vou responder.

Há toda uma psicologia nisso. Talvez mesmo o fato de que eu seja simplesmente um medroso. E talvez também imagine, de propósito, diante de mim um público para que me comporte de modo mais decente, quando estiver escrevendo.

Pode haver mil razões até.

Fica ainda uma pergunta: para que, em suma, quero eu escrever? Se não é para um público, não se poderia recordar tudo mentalmente, sem lançar mão do papel?

Assim é; mas, por escrito, isto sairá, de certo modo, solene. O papel tem algo que me intimida, haverá mais severidade comigo mesmo, o estilo há de lucrar. Além disso, é possível que as anotações me tragam realmente um alívio. Agora, por exemplo, pressiona-me particularmente uma remota recordação. Lembrei-me disso com nitidez há poucos dias, e desde então, ela ficou comigo, qual um motivo musical magoado, que não quer nos deixar. E, assim mesmo, é preciso livrar-se dele. Tenho centenas de tais recordações; mas, de tempos em tempos, uma delas destaca-se das demais e passa a pressionar-me. Não sei por quê, mas acredito que, se eu a anotar, há de me deixar em paz. E por que não tentar?”

(Memórias do Subsolo, pg 53 e 54. Editora 34)


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Agora, relatos Fragmentados (será que eles deveriam estar aqui?):

  • No processo “videográfico” (vou chamar assim aqui) que estou desenvolvendo com a Nathália, à partir de imagens da Adormecida, encontramos algumas temáticas que provavelmente farão parte do trabalho:

    confinamento, desgaste/ putrefação, ausência, tentativa de vida dentro do que jaz. (tudo dentro da Espera)...

    Tsai Ming-Liang e Matthew Barney nos inspiram de uma certa maneira....

  • Engraçado Mau, o Mircea Eliade já me inspirou muito também... e acho que pode voltar a me ajudar no “projeto solo” que venho buscando...

  • Nat, da última vez que te vi realmente senti tudo isso que você descreveu em você. Fiquei muito feliz em ter te visto naquele dia... muito mesmo. Uma fase nova.

    E sobre não estar em carne e osso neste novo trabalho da Cia, eu entendo bastante o que você está dizendo. Me sinto assim muitas vezes... Mas são decisões... e isso é sempre bem vindo na vida... eu acho...


Beijos a Todos,

Thaisinha



11 de março de 2008

São Paulo, 11 de Março de 2008 (quase 12 de Março...)

Olá, meus queridos!

Escrevo cansada, com os olhos pesados, mas querendo dar as boas novas!

Queria contar aos "ausentes" que iniciamos ontem os ensaios práticos do nosso novo projeto. Foi um belo começo! Foi um ensaio fluido, gostoso, cheio de pequenos momentos... hum... eu queria achar um adjetivo para "momentos", mas vou deixar assim mesmo.

Além disso, conseguimos marcar mais uma apresentação do Seis da Tarde, dessa vez no Sesc São José dos Campos (olha aí, Gabi... já vai avisando a família: dia 18 de Abril!)

Os anos passam e tem coisa que não muda... Me lembro bem de ter escrito (ou falado?) em algum ensaio do Retornarse (o da bebedeira?) que eu não era poética para escrever fluxos de pensamento que valessem à pena. Parecia que eu tentava ser poética e tudo soava falso. Pois é, me sinto igual escrevendo aqui. Leio os textos de vocês e acho tudo bonito, e acho que a minha cartinha vai ser o patinho feio. Mas é isso! Antes patinho feio autêntico do que cisne afetado, não?

(Acabo de deletar um trecho enorme que eu tinha escrito porque, de repente, eu não sabia mais do que eu estava falando. Digamos que eu rasguei o rascunho. Quem sabe mais tarde eu não consigo elaborar melhor...)

Acho que fico mesmo por aqui... A portadora das boas notícias!

Muitos beijos a todos e boa noite! Já é dia 12...

10 de março de 2008

Fiquei com vontade de colocar aqui pra gente um trecho de "A Gaivota"
TRIGORIN (falando para NINA):
"Agora devo ir, estou escrevendo. Perdoe-me, não me sobra mais tempo... (ri). Como se diz, a senhora pisou em meu calo de estimação e estou começando a ficar agitado, e até um pouco irritado... Está bem, vamos conversar então. Falemos de minha vida risonha e maravilhosa. Por onde devo começar? (após pensar um pouco). Às vezes uma idéia se impõe à força. Por exemplo: pensar dia e noite, initerruptamente, na lua. Pois também eu tenho minha lua. Uma idéia fixa me domina, dia e noite: tenho de escrever, tenho de escrever, tenho... Nem bem terminei um romance, já devo, não sei por que, começar outro, depois um terceiro, após o terceiro o quarto... escrevo sem me dar trégua, sem interrupção, de outro modo não posso. Pois então, o que há de tão maravilhoso e risonho nisso? - eu lhe pergunto. A vida é uma corrida selvagem! Agora estou aqui em sua companhia, estou agitado, e, no entanto, a todo instante passa pela minha cabeça que uma novela inacabada está à minha espera. Vejo, por exemplo, aquela nuvem. Parece um piano. E penso: devo mencionar em alguma parte de um conto que uma nuvem que lembrava um piano passou por mim... Sinto o perfume de heliotrópos. Logo minha mente registra: odor nauseante, flor-de-viúva, devo mencioná-lo ao descrever uma noite de verão. Caço cada frase ou palavra sua, e minha também, e me apresso a guardar essas frases e palavras o quanto antes em meu armazém litérário: quem sabe me sirvam para algo um dia! Quando termino o trabalho, vou correndo ao teatro ou à pescaria; gostaria de descansar, de esquecer tudo - em minha cabeça já está está começando a dar voltas outra pesada bala de canhão: o novo tema já me arrasta à mesa, e novamente tenho de escrever, escrever... E é assim sempre, sempre, eu mesmo não me dou sossego, sinto que devoro a minha própria vida, que coleto o pólen das mais belas flores apra o mel que atirarei a esmo, e enquanto isso arranco as flores também e esmago as raízes."
Natacha
escreverei novamente, então.

Acho que aproveitarei para inverter a ordem dos pensamentos que escrevo. Poucos segundos depois e o pensamento já mudou. Sim, Mau, há um fluxo na escrita, eu acho. Um fluxo que é o próprio instante.
Estou ouvindo a trilha sonora do Não-Distância e, com a isenção de tanto tempo que já passou, consigo achar que é bonita demais! Não tenho qualquer intuição do que tenha sido a peça para os olhos de quem a viu, não há fotos, vídeo... mas que bom saber que existia algo ali tão precioso. Viva o Rui!

Lendo a última postagem do Mauricio eu me identifico com a fase que ele diz estar vivendo. Ando tão solta, leve, fluída, que quase não me reconheço, rsrsrs. E é claro que isso tem reflexos no trabalho, acabo por me sentir até meio descomprometida com tudo, fosca, sem criatividade alguma. Mas há poucos dias fiquei mais tranquila ao ler um texto do Grotowski em que ele justamente falava de que esses momentos na vida do ator são importantes, e que a toda fase de "espontaneidade" segue-se um momento de assimilação técnica realmente orgânica.
Bom ouvir os mestres!

Na última semana essa minha fase "leve e fluída" fez com que eu tentasse me livrar de dúvidas que têm me vindo sobre se eu de fato daria conta (por questão de tempo e de disponibilidade) de estar nos processos da Auto-Retrato e da Balagan ao mesmo tempo. Acabei concluindo que o simples fato de me sentir em dúvida já era prova de que eu não estáva dando conta, e que isso atrapalharia a Companhia. Então conversei com a Marina Corazza, Marina Tranjan e Caetano e lhes disse que não estarei. Pelo menos não como atriz.
Não que isso tenha me solucionado as dúvidas... talvez tenha sido mais prático, mas ainda não me soa natural. Sinto-me próxima das pessoas da Auto-Retrato, sinto que esse projeto novo das cartas-tchecov também é meu, e muito.
Mas não ficarei aqui falando das minhas dúvidas. Estou de alguma forma confiante que o tempo vai apaziguar isso que está me inquietando.
Beijos a todos
Nat
Há uma postagem vazia.
Eu escrevi e, sei lá que tecla apertei sem querer, apagou-se tudo...
Natacha

3 de março de 2008

Palavra

Escrito a partir da correspondência do Mau....
Sobre o fluxo da escrita e a relação com a palavra, transcrevo trechos de um livro do Rubem Alves:

"Diz Fernando Pessoa que 'pensamento é doença dos olhos'. Correto. O pensamento se insinua onde a visão falhou. Ou onde o ouvido, e o olfato, e a língua e a pele falharam. A palavra é o testemunho de uma ausência. Como tal, ela possui uma intenção mágica, a de trazer à existência o que não está lá... A intenção de manter viva a promessa do retorno. Mais que simples símbolos operacionais, as palavras me ligam aos objetos do meu amor, ausentes."

E ainda ele citando Nietzche:

"Corpo eu sou, inteiramente, nada mais
Alma é apenas um nome para algo que pertence ao corpo
O corpo é a grande razão...
Um instrumento do seu corpo é também a sua pequena razão, a que você dá nome de 'espírito' - um pequeno instrumento e um brinquedo de sua grande razão."

Sobre a prática: estou ausente na construção do site e peço desculpas.... Acho perfeita a distinção que você fez entre os grupo de sites.... vou pesquisar o que acho interessante e te passo.
Obrigada pelas orientações sonoras/musicais. Vamos pesquisar!!
Beijos e abraços
Ma Corazza

PS: Como vocês fazem para colocar o local e a data da carta??? Vou tentar, se eu não conseguir, alguém pode me explicar???