24 de março de 2008

Berlin, 24 de marco de 2008

é triste perceber que pouco a pouco os compromissos vao ocupando o tempo dos nossos dias, e a correspondencia que há apenas três meses nos comprometemos a manter regularmente comeca a rarear. É claro que é necessário compreender as necessidades, vontades e prioridades de cada um, claro que é preciso compreender que nem sempre sobra tempo pra sentar na frente do computador e escrever, ainda mais quando a rotina se torna cheia de pequenos compromissos e projetos e decisoes. Mas escrever é um ato que implica em disciplina. Esperar que a vontade e o tempo aparecam pra escrever é um erro que só vai fazer que essa atitude seja adiada dia após dia (existe sempre algo mais importante, nao é verdade?) Talvez seja eu que prefira viver o passado ao inves do presente, nao é a toa que baseei todo o meu teatro em uma busca de conciliacao entre esses dois tempos, talvez escrever e receber notícias seja um ato importante só pra mim... Mas nao era o que tinha entendido de nossas conversas de janeiro...

Por aqui pequenas coisas vao acontecendo. Continuo na busca pelos performers que faltam ao projeto do Koltes, e ao mesmo tempo comeco a tentar visualizar qual vai ser a prática de ensaios num período tao curto (menos de um mes), com um grupo tao diverso (atores, bailarinos, jovens e mais velhos, alemaes, espanhois, brasileiros) e para um projeto tao claro na minha cabeca... Antes de mais nada, nao se trata, como normalmente se trata, de dar espaco para que um espetáculo aconteca, se trata mais de conduzir os performers para que eles realizem o que já está na minha cabeca, algo muito novo para mim... As questoes artísticas, entretanto, pouco mudaram: A busca de um teatro sensível, a relacao entre corpo e palavra, busca de contato direto com o espectador, relacao, intimidade, uso da improvisacao como ferramenta de contato com o presente, uso da experiencia pessoal como ferramenta de contato com o passado. É aguardar pra ver como isso se configura na prática...

Na quarta feira comecei a trabalhar com o grupo de treinamento, apesar de três dos seis envolvidos me avisarem poucas horas antes que nao poderiam comparecer. Aqui a abordagem é outra. Nao me interessa o resultado, nao me interessa produzir, me interessa conduzir um trabalho de investigacao e descoberta pessoal, um trabalho de aprimoramento técnico e principalmente sensível, a busca de uma unidade de trabalho, de uma crenca, de princípios, de idéias. Nos reunimos assim, sem querer montar nada, sem ter um objetivo claro que nao seja o de propiciar um espaco de pesquisa, sem pressao, sem cobranca de resultados, sem julgamento precipitado... É engracado perceber que eu aos poucos vou me tornando um mestre, mesmo que a minha diferenca de idade pras pessoas com as quais trabalho nao sejam tao mais novas do que eu (algumas tem idade proxima da Gabi), mas há um respeito pelo que falo, pelo que peco, uma tentativa de realizar o trabalho, que vai além da compreensao, uma vontade que eu admiro. É muito cedo pra qualquer tipo de julgamento, mas eu acredito que pode dar certo, pelo menos como uma primeira semente, pela primeira vez na alemanha eu sinto que encontrei pessoas com as quais tenho uma sintonia de crenca e trabalho, pela primeira vez eu enxergo conexoes que sao mais profundas e desejos que sao mais fortes do que um projeto ou um espetáculo...

Me sinto bem...
Caminhando em várias direcoes ao mesmo tempo (será que é possível sair do lugar assim, partido?)

beijos
mau

ps: minha carta e a da gabi chegaram na casa da Macô?

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