30 de abril de 2008
24 de abril de 2008
Sobre Medos e Desafios
Só mais uma intervenção:
eu gostava mesmo quando o Mau largava a gente no metrô com algumas regras e dizia: "se virem" (claro que não desta maneira.)
ou quando ele largava a gente no meio do mato e falava pra acharmos o caminho de volta.
ou na feirinha com o público... parecendo drogadas perdidas... com medo que alguém nos surpreendesse...
ou com o público e com a Cia no Retornarse última versão, onde necessitava se colocar à espreita e estar preparada para qualquer complicação.
Gosto quando a Cia me propõe uma coisa que me dá cagaço, mas ao mesmo tempo uma puta vontade de enfrentar esse cagaço.
este risco... um frio na barriga... um não saber o que fazer nem como resolver, mas uma puta vontade de se resolver.
Por isso talvez tenha proposto aquele ensaio maluco do Retornarse, quando o Mau e a Gabi estavam no Brasil... Essa vontade de tentar fazer algo que eu sabia de trás pra frente, mas não fazia há mais de dois anos... (será realmente que saberia refazer?) era me colocar em risco ao lado de vocês novamente... e é claro nos divertirmos e termos a tal dinâmica de grupo que não só à partir da fala...
Cia, alguma recomendação mirabolante? (risos) aonde eu devo me largar?
Eu gosto do risco no AGORA! eheheh! tensionar pra gozar!
Beijos
Thaisinha
eu gostava mesmo quando o Mau largava a gente no metrô com algumas regras e dizia: "se virem" (claro que não desta maneira.)
ou quando ele largava a gente no meio do mato e falava pra acharmos o caminho de volta.
ou na feirinha com o público... parecendo drogadas perdidas... com medo que alguém nos surpreendesse...
ou com o público e com a Cia no Retornarse última versão, onde necessitava se colocar à espreita e estar preparada para qualquer complicação.
Gosto quando a Cia me propõe uma coisa que me dá cagaço, mas ao mesmo tempo uma puta vontade de enfrentar esse cagaço.
este risco... um frio na barriga... um não saber o que fazer nem como resolver, mas uma puta vontade de se resolver.
Por isso talvez tenha proposto aquele ensaio maluco do Retornarse, quando o Mau e a Gabi estavam no Brasil... Essa vontade de tentar fazer algo que eu sabia de trás pra frente, mas não fazia há mais de dois anos... (será realmente que saberia refazer?) era me colocar em risco ao lado de vocês novamente... e é claro nos divertirmos e termos a tal dinâmica de grupo que não só à partir da fala...
Cia, alguma recomendação mirabolante? (risos) aonde eu devo me largar?
Eu gosto do risco no AGORA! eheheh! tensionar pra gozar!
Beijos
Thaisinha
fluxo de movimento
Preciso postar...
ando sumida...
...mas não
na verdade venho retomando o ...Mas Não com um artista plástico.
a video arte me instiga a cada dia.
Agora estou num grupo juto com outros artistas filósofos para discutir questões de Deleuzi e Niesztche.
Hoje tivemos uma reunião que começou as 18h e terminou as 01h30 cheia de formigamentos... questionamentos...
meu corpo pulsa. existe.
A minha dificuldade SOLO é conseguir colocar meus projetos no papel... em grupo era mais fácil também... sinto sempre que não está bom...
a cabeça fervilha... sim... fervilha...
sim... fluxos de pensamento....
Eu entendo MaC. e Nat quado vocês falam do fluxo sincero e da dança. Sim o Jêrome Bel fez dança sem dançar, assim como a Maguy Marin e tantos outros, assim como A Meredith Monk que é indefinível... (performer? Bailarina? cantora? video artita?). A Arte não depende do suporte. Ela é por si só. Minha questão realmente não tinha nada a ver com o movimento, apesar de eu não ter sabido como dizer naquele momento... Cheguei a comentar com o Cae a um tempo atrás... (eu também não dancei na Adormecida também... eu era "apenas" um ser Presente, parado... andando... escrevendo, e mesmo em outros trabalhos que eu dirigi, o que me importava era a maneira como eu ia falar. Aliás por isso não gosto dessa definição se eu sou ou não do teatro. esta definição realmente não importa. Sou artista).
o buraco daquele questionamento (o do movimento) pra mim era mais embaixo...
Me contradigo porque na época, e até hoje, não sei bem como dizer o que queria ter dito naquele momento...
Tinha relação com a cia brasil, ou melhor, a minha relação com a cia brasil.... enfim.
e apesar de eu ter medo talvez seja importante para mim continuar seguindo este percursso assim... solo... indo atrás da minha busca artistica individual, do desconhecido, que neste momento me instiga de uma maneira diferente da de vocês... (claro que temos falado dos mesmos temas e temos questionamentos muito parecidos, mas a maneira como cada fragmento da Cia tenta expressar isso é diferente.)
Fico com um aperto de estar de fora do processo, e toda vez que falo com vocês demonstro a minha "carência". Me pergunto muitas vezes... será que enlouqueci? tinha que voltar para o meu grupo, ao mesmo tempo, o que é extemporâneo me puxa com mais força...
preciso me aprofundar mais nestas minhas novas questões... que já são velhas até... desde o "...E o Meu Secador de Cabelos Me Comeu Nesta Madrugada", elas retornaram no "Identidade em Crise", ...Mas Não, Adormecida e continuam me martelando...
Hoje falaram muito de Cartografias... achei o máximo! As nossas cartografias eram deleuzianas mesmo! (risos)
Falamos do Presentificar (olha a Cia Auto-Retrato aí!).
Um objetivo da vida é presentificar talvez?
Não se omitir.
Ler Niesztche e o reler com seus olhos... não se omitir ao pensamento dos grandes mestres...
Como diria um amigo meu (que a gente discutiu durante horas) " Ah, entendi, você perverteu o Greenaway e por isso então posso dizer que não foi uma intérprete da obra dele. Você criou com elementos da obra dele, mas também o perverteu"... é... mais ou menos assim o que ele disse... mas nós continuamos a discussão por longo tempo...
Ler e Reler.
Tá tudo muito confuso e não vou reler meu fluxo... quero deixar ele PRESENTE.
foi como foi.
Foram muitas coisas discutidas, mas todas focalizarma o mesmo tema e todas fizeram o meu corpo pulsar e estremesser... Precisava plantar bananeira e me jogar no chão... me largar....
Li o Mishima esses dias e ele faz uma relação entre teoria e corpo muito Linda... o texto era o Sol e Aço... depois explico melhor, porque agora não consiguirei explicar muito bem. Mas a questão é que corpo e teoria estão juntas... não se separam... o tal Niesztche já disse isso diversas vezes também... (aliás tenho orgasmos sempre que leio algo dele... e da Hilda Hilst também)...
Falei tanto de pular ... e cair....
resolvi mandar um texto que escrevi pra Dedé (por caussa da minha retomada das quedas no experimento do acordo), que aliás, ela defenderá o seu mestrado nesta segunda feira dia 28 de abril as 14h na USP. Gostaria muito que vocês fossem.
aí vai o tal texto que tem a ver com esse jeito thaisinha de ser:
Sobre a Queda ou A vontade de se Levantar
Cair.
Uma complexidade de movimentos...
Quedar-se é bom quando se deixa largar.
é menos doloroso quando se relaxa.
Cair para aprender a se levantar.
Meu prazer pela queda talvez tenha surgido quando era uma criança que gostava de pular.
Uma queda, aos dois anos, deixou minha primeira cicatriz. Uma cicatriz causada por cacos de vidro da minha mamadeira com leite morninho.
Pulei na cadeira e cai. O chão verde. Pessoas a minha volta.
Acho que nem doeu. As pessoas se doeram por mim.
Senti o contato da minha pele com o chão verde. meus ossos e músculos também estavam lá. Havia sangue. um sangue bem vermelho de quem ainda não viveu muito.
O grito não era de dor, era de descoberta. uma nova sensação. algo que desconhecia.
Meu corpo no chão aterrado. aterrado para voar. Voar longe.
Para saltar e se largar. Sem saber exatamente como e onde cair.
Sem olhar para baixo.
Simplesmente ir.
bom... me vou assim.... sem fim...
só soltei imagens e palavras... mas tá tudo aí...
é assim que tenho me movido....
Beijos
Amo Vocês
Thaís
ando sumida...
...mas não
na verdade venho retomando o ...Mas Não com um artista plástico.
a video arte me instiga a cada dia.
Agora estou num grupo juto com outros artistas filósofos para discutir questões de Deleuzi e Niesztche.
Hoje tivemos uma reunião que começou as 18h e terminou as 01h30 cheia de formigamentos... questionamentos...
meu corpo pulsa. existe.
A minha dificuldade SOLO é conseguir colocar meus projetos no papel... em grupo era mais fácil também... sinto sempre que não está bom...
a cabeça fervilha... sim... fervilha...
sim... fluxos de pensamento....
Eu entendo MaC. e Nat quado vocês falam do fluxo sincero e da dança. Sim o Jêrome Bel fez dança sem dançar, assim como a Maguy Marin e tantos outros, assim como A Meredith Monk que é indefinível... (performer? Bailarina? cantora? video artita?). A Arte não depende do suporte. Ela é por si só. Minha questão realmente não tinha nada a ver com o movimento, apesar de eu não ter sabido como dizer naquele momento... Cheguei a comentar com o Cae a um tempo atrás... (eu também não dancei na Adormecida também... eu era "apenas" um ser Presente, parado... andando... escrevendo, e mesmo em outros trabalhos que eu dirigi, o que me importava era a maneira como eu ia falar. Aliás por isso não gosto dessa definição se eu sou ou não do teatro. esta definição realmente não importa. Sou artista).
o buraco daquele questionamento (o do movimento) pra mim era mais embaixo...
Me contradigo porque na época, e até hoje, não sei bem como dizer o que queria ter dito naquele momento...
Tinha relação com a cia brasil, ou melhor, a minha relação com a cia brasil.... enfim.
e apesar de eu ter medo talvez seja importante para mim continuar seguindo este percursso assim... solo... indo atrás da minha busca artistica individual, do desconhecido, que neste momento me instiga de uma maneira diferente da de vocês... (claro que temos falado dos mesmos temas e temos questionamentos muito parecidos, mas a maneira como cada fragmento da Cia tenta expressar isso é diferente.)
Fico com um aperto de estar de fora do processo, e toda vez que falo com vocês demonstro a minha "carência". Me pergunto muitas vezes... será que enlouqueci? tinha que voltar para o meu grupo, ao mesmo tempo, o que é extemporâneo me puxa com mais força...
preciso me aprofundar mais nestas minhas novas questões... que já são velhas até... desde o "...E o Meu Secador de Cabelos Me Comeu Nesta Madrugada", elas retornaram no "Identidade em Crise", ...Mas Não, Adormecida e continuam me martelando...
Hoje falaram muito de Cartografias... achei o máximo! As nossas cartografias eram deleuzianas mesmo! (risos)
Falamos do Presentificar (olha a Cia Auto-Retrato aí!).
Um objetivo da vida é presentificar talvez?
Não se omitir.
Ler Niesztche e o reler com seus olhos... não se omitir ao pensamento dos grandes mestres...
Como diria um amigo meu (que a gente discutiu durante horas) " Ah, entendi, você perverteu o Greenaway e por isso então posso dizer que não foi uma intérprete da obra dele. Você criou com elementos da obra dele, mas também o perverteu"... é... mais ou menos assim o que ele disse... mas nós continuamos a discussão por longo tempo...
Ler e Reler.
Tá tudo muito confuso e não vou reler meu fluxo... quero deixar ele PRESENTE.
foi como foi.
Foram muitas coisas discutidas, mas todas focalizarma o mesmo tema e todas fizeram o meu corpo pulsar e estremesser... Precisava plantar bananeira e me jogar no chão... me largar....
Li o Mishima esses dias e ele faz uma relação entre teoria e corpo muito Linda... o texto era o Sol e Aço... depois explico melhor, porque agora não consiguirei explicar muito bem. Mas a questão é que corpo e teoria estão juntas... não se separam... o tal Niesztche já disse isso diversas vezes também... (aliás tenho orgasmos sempre que leio algo dele... e da Hilda Hilst também)...
Falei tanto de pular ... e cair....
resolvi mandar um texto que escrevi pra Dedé (por caussa da minha retomada das quedas no experimento do acordo), que aliás, ela defenderá o seu mestrado nesta segunda feira dia 28 de abril as 14h na USP. Gostaria muito que vocês fossem.
aí vai o tal texto que tem a ver com esse jeito thaisinha de ser:
Sobre a Queda ou A vontade de se Levantar
Cair.
Uma complexidade de movimentos...
Quedar-se é bom quando se deixa largar.
é menos doloroso quando se relaxa.
Cair para aprender a se levantar.
Meu prazer pela queda talvez tenha surgido quando era uma criança que gostava de pular.
Uma queda, aos dois anos, deixou minha primeira cicatriz. Uma cicatriz causada por cacos de vidro da minha mamadeira com leite morninho.
Pulei na cadeira e cai. O chão verde. Pessoas a minha volta.
Acho que nem doeu. As pessoas se doeram por mim.
Senti o contato da minha pele com o chão verde. meus ossos e músculos também estavam lá. Havia sangue. um sangue bem vermelho de quem ainda não viveu muito.
O grito não era de dor, era de descoberta. uma nova sensação. algo que desconhecia.
Meu corpo no chão aterrado. aterrado para voar. Voar longe.
Para saltar e se largar. Sem saber exatamente como e onde cair.
Sem olhar para baixo.
Simplesmente ir.
bom... me vou assim.... sem fim...
só soltei imagens e palavras... mas tá tudo aí...
é assim que tenho me movido....
Beijos
Amo Vocês
Thaís
19 de abril de 2008
São Paulo, 18 de abril de 2008
oi amores-parceiros,
Mau e Gabi, receberam minha breve carta?
Peço desculpas por não escrever muito. Estou numa fase estranha, meio "brigada" com as palavras, tentando captar o mundo e me fazer captar talvez por uma outra lógica.
Aliás, acabo de me dar conta de que é engraçado dizer que ando "brigada com as palavras" quando há na companhia um novo processo que justamente lida com elas, em essência...
Queria dizer uma coisa a respeito do SEIS DA TARDE, e não é para dar ênfase à polêmica, nem nada. É só porque me lembrei disso hoje e para comentar o fato de que, pra mim, o SEIS DA TARDE tem a dança como base, ao menos no meu aprendizado do que entendo por dança.
Embora poucas vezes a gente se lembre, a idéia de trazer o universo das cartas pro processo da peça partiu do Caetano, a partir de uma cena que eu preparei em que duas cartas gravadas e sobrepostas eram como uma música ensurdecedora que às vezes me paralisava, nos gestos cotidianos de lavar a louça e varrer a casa. Não só na forma, a dança para mim ali estáva. Uma das cartas inaudíveis na cena era uma em que eu mesma escrevia para alguém. Falava sobre minha imensa necessidade de aprender a dançar do lado de dentro, porque a forma de fora que eu havia aprendido até então, muitas vezes não me impedia de permancer imóvel.
Uma carta que fala de uma escrita que é fluxo, que é dança, de uma dança que é resposta, de um gesto que é palavra, de uma palavra que é gesto e que é movimento e que não dura mais de um segundo, uma efemeridade que às vezes não faz sentido, mas que no fundo é o que mais importa.
Enfim, estou vaga e sei que me faço muito pouco compreendida nessas minhas frases.
Ontem a apresentaçao em São José dos Campos foi muito legal. Tivemos um público maior do que a média de lá, segundo o programador do SESC. O Vina assistiu ao espetáculo novamente e falou coisas muito bonitas, sobre a sutileza do trabalho, sobre as imagens marcantes que traz, e falou também sobre a necessidade de conseguirmos ainda dançar e falar como uma coisa só...
Antes da apresentação a gente se aqueceu com a música do Mestre Ambrósio, sabem, aquela?... Má Corazza, eu, Má tranjan e Cae; deu saudades do Mau, Gabi, Thaís, deu saudade de todos nós juntos. Mas o mais importante era a memória daquele momento, o que carregamos, o que nos movia, o que nos move agora. Sempre o que nos move.
Neste momento, não sei o que me move. Mas sei que não estou parada. Estou numa fase quase que de dança espontânea, desapercebida.
Esse mês conheci a Moud Roubart, uma alemã-haitiana que desenvolve processos de cantos haitianos sagrados. Ela veio pro ECUM a convite da Maria Thais, por isso tive a oportunidade de conhecê-la um pouco melhor, e fiquei realmente impressionada. Primeiro porque ela é, em si, alguém que comove, move, impressiona. Não faz teatro. Não define o que faz. Canta e ensina a cantar com uma memória ancestral. O que faz, certa vez, chegou aos ouvidos do Grotowski, que a convidou para contribuir com ele. Dizem que ela o influenciou muito na sua busca por esse algo que já quase deixa de ser teatro para voltar a ser rito.
Depois de sua fala no ECUM e da mostra de um vídeo sem tradução de uma "aula" dela, quando abriram para perguntas, houve quase dez minutos de silêncio, numa platéia de mais de cem pessoas. Moud agradeceu ao silêncio e disse que talvez não fôsse necessário perguntar, falar nada. Mas alguém na platéia finalmente se manifestou, e foi para perguntar sobre seu trabalho com o Grotowski... então ela se voltou à pessoa da platéia e perguntou se aquela era a questão mais espontânea que poderia ser feita, a que vinha de fato de seu coração.
A Moud disse ter ficado impressionada com umas brincadeiras populares que nos viu fazendo na Balagan. Disse que é raro no mundo encontrar pessoas que ainda saibam brincar por brincar, dançar e cantar sem um objetivo, apenas pelo prazer da coisa em si. Suas poucas palavras e aquela olhar marcante e atento de alguém que viveu muito em busca da simplicidade de simplesmente ser, enfim, ensinaram-me mais do que talvez dois ou três anos de faculdade.
Sei que é muito difícil ser sempre assim, mas às vezes conseguimos. E, comigo, costuma acontecer quando ando distraída, como agora...
bjs, desculpem a desconexão das palavras, a falta de lógica...
Nat
"Fazer do corpo uma potência que não se reduz ao organismo, fazer do pensamento uma potência que não se reduz à consciência."
(Deleuze)
oi amores-parceiros,
Mau e Gabi, receberam minha breve carta?
Peço desculpas por não escrever muito. Estou numa fase estranha, meio "brigada" com as palavras, tentando captar o mundo e me fazer captar talvez por uma outra lógica.
Aliás, acabo de me dar conta de que é engraçado dizer que ando "brigada com as palavras" quando há na companhia um novo processo que justamente lida com elas, em essência...
Queria dizer uma coisa a respeito do SEIS DA TARDE, e não é para dar ênfase à polêmica, nem nada. É só porque me lembrei disso hoje e para comentar o fato de que, pra mim, o SEIS DA TARDE tem a dança como base, ao menos no meu aprendizado do que entendo por dança.
Embora poucas vezes a gente se lembre, a idéia de trazer o universo das cartas pro processo da peça partiu do Caetano, a partir de uma cena que eu preparei em que duas cartas gravadas e sobrepostas eram como uma música ensurdecedora que às vezes me paralisava, nos gestos cotidianos de lavar a louça e varrer a casa. Não só na forma, a dança para mim ali estáva. Uma das cartas inaudíveis na cena era uma em que eu mesma escrevia para alguém. Falava sobre minha imensa necessidade de aprender a dançar do lado de dentro, porque a forma de fora que eu havia aprendido até então, muitas vezes não me impedia de permancer imóvel.
Uma carta que fala de uma escrita que é fluxo, que é dança, de uma dança que é resposta, de um gesto que é palavra, de uma palavra que é gesto e que é movimento e que não dura mais de um segundo, uma efemeridade que às vezes não faz sentido, mas que no fundo é o que mais importa.
Enfim, estou vaga e sei que me faço muito pouco compreendida nessas minhas frases.
Ontem a apresentaçao em São José dos Campos foi muito legal. Tivemos um público maior do que a média de lá, segundo o programador do SESC. O Vina assistiu ao espetáculo novamente e falou coisas muito bonitas, sobre a sutileza do trabalho, sobre as imagens marcantes que traz, e falou também sobre a necessidade de conseguirmos ainda dançar e falar como uma coisa só...
Antes da apresentação a gente se aqueceu com a música do Mestre Ambrósio, sabem, aquela?... Má Corazza, eu, Má tranjan e Cae; deu saudades do Mau, Gabi, Thaís, deu saudade de todos nós juntos. Mas o mais importante era a memória daquele momento, o que carregamos, o que nos movia, o que nos move agora. Sempre o que nos move.
Neste momento, não sei o que me move. Mas sei que não estou parada. Estou numa fase quase que de dança espontânea, desapercebida.
Esse mês conheci a Moud Roubart, uma alemã-haitiana que desenvolve processos de cantos haitianos sagrados. Ela veio pro ECUM a convite da Maria Thais, por isso tive a oportunidade de conhecê-la um pouco melhor, e fiquei realmente impressionada. Primeiro porque ela é, em si, alguém que comove, move, impressiona. Não faz teatro. Não define o que faz. Canta e ensina a cantar com uma memória ancestral. O que faz, certa vez, chegou aos ouvidos do Grotowski, que a convidou para contribuir com ele. Dizem que ela o influenciou muito na sua busca por esse algo que já quase deixa de ser teatro para voltar a ser rito.
Depois de sua fala no ECUM e da mostra de um vídeo sem tradução de uma "aula" dela, quando abriram para perguntas, houve quase dez minutos de silêncio, numa platéia de mais de cem pessoas. Moud agradeceu ao silêncio e disse que talvez não fôsse necessário perguntar, falar nada. Mas alguém na platéia finalmente se manifestou, e foi para perguntar sobre seu trabalho com o Grotowski... então ela se voltou à pessoa da platéia e perguntou se aquela era a questão mais espontânea que poderia ser feita, a que vinha de fato de seu coração.
A Moud disse ter ficado impressionada com umas brincadeiras populares que nos viu fazendo na Balagan. Disse que é raro no mundo encontrar pessoas que ainda saibam brincar por brincar, dançar e cantar sem um objetivo, apenas pelo prazer da coisa em si. Suas poucas palavras e aquela olhar marcante e atento de alguém que viveu muito em busca da simplicidade de simplesmente ser, enfim, ensinaram-me mais do que talvez dois ou três anos de faculdade.
Sei que é muito difícil ser sempre assim, mas às vezes conseguimos. E, comigo, costuma acontecer quando ando distraída, como agora...
bjs, desculpem a desconexão das palavras, a falta de lógica...
Nat
6 de abril de 2008
Berlin, 06 de abril de 2008
Tenho pensado muito sobre teatro...
Como vocês devem ter percebido, ando num processo de recuperacao de leituras perdidas, primeiro foi Stanislawski (o velho, dos livros, o das cartas nao tive o prazer de encontrar), agora estou me deparando com o maior dos meus mestres: Grotowski... E percebendo o quanto, sem perceber, andei trilhando meu caminho paralelo a ele, o quanto mesmo encostado num canto da minha estante ele continuava alimentando minhas crenhcas, o quanto ele é fonte... Por isso, quando respondo, é inevitável que as palavras dele ecoem na minha voz...
O que nos faz um grupo... Ou melhor, o que nos une como grupo...
Eu nao acho que seja a danca, nunca achei... Ou, como eu preferiria dizer, as possibilidades expressivas do movimento (já que a danca mesmo nunca foi um foco do trabalho)... A danca, o movimento, era um valor paralelo, era uma inquietacao de algumas pessoas, a saber especialmente Gabi e Natacha, um valor que eu fui assumindo ao longo do tempo, nao era de qualquer forma uma prerrogativa... (abro um parentesis, talvez no Picasso sim a danca fosse o foco do trabalho, da pesquisa, e talvez por isso a danca seja uma heranca principalmente das pessoas que estiveram presentes lá)... O que pra mim nos mantem como companhia, antes de mais nada, é a crenca em um determinado tipo de performer, a crenca numa forma de fazer teatro, uma vontade de pesquisar profundamente a arte do ator e de descobrir as possibilidades sensíveis do corpo, as formas de expressao dessa linguagem sensível, eu poderia também chamar de nostalgica ou poética... O que nos une como grupo, ou o que na minha opiniao é a essência da companhia é uma linguagem na qual o performer é mais importante que a obra, em que a obra é um canal para a exploracao da individualidade, para o crescimento pessoal, para a busca de uma comunicacao profunda com o espectador, centrada na exploracao das fraquezas e dificuldades, na exposicao, na composicao do que Grotowski chamaria de um ato total, completo, repleto...
Talvez seja isso que eu sinta falta no seis da tarde (e escrevo isso enquanto me preparo para as críticas que sei que vou receber, mas peco desculpas desde já, nao assisti o espetáculo pessoalmente, nao participei ativamente do processo de criacao, escrevo a prtir de sensacoes e impulsos, que podem ser verdadeiros ou falsos). Mesmo que eu veja muito da Marina e da Natacha na composicao das personagens, eu sinto as duas confortavelmente protegidas, eu sinto que as duas estao a servico de personagens, de uma estória que está fora delas. Talvez seja só ranco, mas eu gostaria dever as personagens (e o problema nao é que elas existam) a servico das duas, é uma diferenca extremamente sutil, mas que pra mim muda tudo...
Nao sei se me faco compreender... Gosto do resultado que vocês obtem, acho o clima e a intimidade do espaco totalmente pertinentes e conectadas ao histórico da companhia, acho que é um espetáculo que na forma combina perfeitamente com a auto-retrato... Mas pra mim há algo que soa estranho, distinto, algo que talvez fosse a minha especificidade no trabalho, fosse a minha marca, algo que tende a mudar, como tudo...
Falei... Espero nao causar mágoas, gosto da companhia porque acredito ser um espaco em que tudo pode ser discutido, acho que temos proximidade suficiente pra que tudo possa ser ouvido e pensado sem magoas...
beijos
mau
ps1: sei que é dificil arrumar um tempo, mas realmente acho que a gente devia se policiar mais e escrever mais... Sinto falta de uma comunicacao mais presente, mais ativa, mais rápida... Senao, pra que optar por e-mails ao inves de cartas?
ps2: Sugestao de leitura pras horas vagas: Agota Kristoff, "Em algum lugar", ou "Em qualeur lugar " (em alemao se chama "Irgendwo", nao sei a traducao em portugues)
Tenho pensado muito sobre teatro...
Como vocês devem ter percebido, ando num processo de recuperacao de leituras perdidas, primeiro foi Stanislawski (o velho, dos livros, o das cartas nao tive o prazer de encontrar), agora estou me deparando com o maior dos meus mestres: Grotowski... E percebendo o quanto, sem perceber, andei trilhando meu caminho paralelo a ele, o quanto mesmo encostado num canto da minha estante ele continuava alimentando minhas crenhcas, o quanto ele é fonte... Por isso, quando respondo, é inevitável que as palavras dele ecoem na minha voz...
O que nos faz um grupo... Ou melhor, o que nos une como grupo...
Eu nao acho que seja a danca, nunca achei... Ou, como eu preferiria dizer, as possibilidades expressivas do movimento (já que a danca mesmo nunca foi um foco do trabalho)... A danca, o movimento, era um valor paralelo, era uma inquietacao de algumas pessoas, a saber especialmente Gabi e Natacha, um valor que eu fui assumindo ao longo do tempo, nao era de qualquer forma uma prerrogativa... (abro um parentesis, talvez no Picasso sim a danca fosse o foco do trabalho, da pesquisa, e talvez por isso a danca seja uma heranca principalmente das pessoas que estiveram presentes lá)... O que pra mim nos mantem como companhia, antes de mais nada, é a crenca em um determinado tipo de performer, a crenca numa forma de fazer teatro, uma vontade de pesquisar profundamente a arte do ator e de descobrir as possibilidades sensíveis do corpo, as formas de expressao dessa linguagem sensível, eu poderia também chamar de nostalgica ou poética... O que nos une como grupo, ou o que na minha opiniao é a essência da companhia é uma linguagem na qual o performer é mais importante que a obra, em que a obra é um canal para a exploracao da individualidade, para o crescimento pessoal, para a busca de uma comunicacao profunda com o espectador, centrada na exploracao das fraquezas e dificuldades, na exposicao, na composicao do que Grotowski chamaria de um ato total, completo, repleto...
Talvez seja isso que eu sinta falta no seis da tarde (e escrevo isso enquanto me preparo para as críticas que sei que vou receber, mas peco desculpas desde já, nao assisti o espetáculo pessoalmente, nao participei ativamente do processo de criacao, escrevo a prtir de sensacoes e impulsos, que podem ser verdadeiros ou falsos). Mesmo que eu veja muito da Marina e da Natacha na composicao das personagens, eu sinto as duas confortavelmente protegidas, eu sinto que as duas estao a servico de personagens, de uma estória que está fora delas. Talvez seja só ranco, mas eu gostaria dever as personagens (e o problema nao é que elas existam) a servico das duas, é uma diferenca extremamente sutil, mas que pra mim muda tudo...
Nao sei se me faco compreender... Gosto do resultado que vocês obtem, acho o clima e a intimidade do espaco totalmente pertinentes e conectadas ao histórico da companhia, acho que é um espetáculo que na forma combina perfeitamente com a auto-retrato... Mas pra mim há algo que soa estranho, distinto, algo que talvez fosse a minha especificidade no trabalho, fosse a minha marca, algo que tende a mudar, como tudo...
Falei... Espero nao causar mágoas, gosto da companhia porque acredito ser um espaco em que tudo pode ser discutido, acho que temos proximidade suficiente pra que tudo possa ser ouvido e pensado sem magoas...
beijos
mau
ps1: sei que é dificil arrumar um tempo, mas realmente acho que a gente devia se policiar mais e escrever mais... Sinto falta de uma comunicacao mais presente, mais ativa, mais rápida... Senao, pra que optar por e-mails ao inves de cartas?
ps2: Sugestao de leitura pras horas vagas: Agota Kristoff, "Em algum lugar", ou "Em qualeur lugar " (em alemao se chama "Irgendwo", nao sei a traducao em portugues)
4 de abril de 2008
Gosta-se deles como algo real
São Paulo, 04 de abril de 2008
Queridos de pertinho e de distante!
Hoje faz 1 ano que o Seis da Tarde estreou no Sesc (ontem, eu, ma tranjan, naty e caetano comemoramos no dia anterior... sem perceber...). É muito feliz essa realidade de ter um espetáculo vivo por um ano, com a perspectiva de vida longa.
O novo projeto está a todo vapor. Essa expressão assim meio antiquada dá a medida do que sinto: sem pressa e passando por momentos muito especiais, as energias e o trabalho vão se configurando ao nosso redor. Nossa relação com os três atores convidados (Carla, Edu e Camilo) têm sido de um encontro íntimo, as cartas e o material explorado movem a eles tanto quanto a nós, e assim, o trabalho já é de todos.
Gostei muito de receber as cartas de vocês, Mau e Gabi, até quero propor para que os outros passem os endereços para vocês, porque a sensação de receber uma carta deve fazer parte do processo.
Gabi, seu relato assim no meio do seu dia, no ensaio, no metro tem uma vivacidade que parece que te enxergo melhor do que em muitos momentos em que já estivemos próximas fisicamente.
Na sua carta e em outros momentos, você, o Mau e a Thais apontam essa distância do núcleo MacorazzaNatyMatranjanCaetano com a dança. Eu entendo. Não sei se eu vou dar conta de exprimir o que quero, mas vamos lá...
Hoje analisando nossa trajetória, e simultaneamente, engatando neste novo trabalho (que inicia um contato com um Stanislavski absolutamente desconhecido e estimulante) penso que temos ido em busca de um fluxo sincero. Não importa se é com teatro de bonecos, teatro de sombras, dança, rádio-novela... temos ido em busca de um fluxo de energia/vida no qual a gente acredite, que se faça verdadeiro em cena (sem entrar nos "academicismos" do que significa verdade). Com certeza o Seis da Tarde fica no meio do caminho em relação a essa busca, mas assim como tudo na vida, ele tem sido uma etapa. Uma etapa muito importante. Eu, ao fazer o Seis da Tarde, quero ser simples, me relacionar com a Natacha e deixar aquela situação, a nossa relação ecoar...
Neste novo trabalho, acho inevitável a expressividade do corpo aparecer com maior liberdade... isso já vem acontecendo nos ensaios. Mas tem sido muito, muito importante vivenciar o Seis da Tarde para encontrar o que estamos deixando aparecer!!!
Sim, quando vocês estavam por aqui eu achava que o que nos unia era a busca por uma linguagem de interação do teatro e da dança, mas hoje sei que é algo muito maior do que isso. Repito, não sei nomear exatamente o que faz sermos da mesma companhia, mas sei que está relacionado à ética do trabalho colaborativo e à busca pelo revelar, iluminar(assim como os abajures do Retornarse) pequenos momentos de vida.
Amo vocês!
Marina Corazza
PS: O título da mensagem é um trecho de uma carta de um jovem Meierhold para sua esposa à respeito do cenário de Tsar Fiódor do Teatro de Arte de Moscou.
Queridos de pertinho e de distante!
Hoje faz 1 ano que o Seis da Tarde estreou no Sesc (ontem, eu, ma tranjan, naty e caetano comemoramos no dia anterior... sem perceber...). É muito feliz essa realidade de ter um espetáculo vivo por um ano, com a perspectiva de vida longa.
O novo projeto está a todo vapor. Essa expressão assim meio antiquada dá a medida do que sinto: sem pressa e passando por momentos muito especiais, as energias e o trabalho vão se configurando ao nosso redor. Nossa relação com os três atores convidados (Carla, Edu e Camilo) têm sido de um encontro íntimo, as cartas e o material explorado movem a eles tanto quanto a nós, e assim, o trabalho já é de todos.
Gostei muito de receber as cartas de vocês, Mau e Gabi, até quero propor para que os outros passem os endereços para vocês, porque a sensação de receber uma carta deve fazer parte do processo.
Gabi, seu relato assim no meio do seu dia, no ensaio, no metro tem uma vivacidade que parece que te enxergo melhor do que em muitos momentos em que já estivemos próximas fisicamente.
Na sua carta e em outros momentos, você, o Mau e a Thais apontam essa distância do núcleo MacorazzaNatyMatranjanCaetano com a dança. Eu entendo. Não sei se eu vou dar conta de exprimir o que quero, mas vamos lá...
Hoje analisando nossa trajetória, e simultaneamente, engatando neste novo trabalho (que inicia um contato com um Stanislavski absolutamente desconhecido e estimulante) penso que temos ido em busca de um fluxo sincero. Não importa se é com teatro de bonecos, teatro de sombras, dança, rádio-novela... temos ido em busca de um fluxo de energia/vida no qual a gente acredite, que se faça verdadeiro em cena (sem entrar nos "academicismos" do que significa verdade). Com certeza o Seis da Tarde fica no meio do caminho em relação a essa busca, mas assim como tudo na vida, ele tem sido uma etapa. Uma etapa muito importante. Eu, ao fazer o Seis da Tarde, quero ser simples, me relacionar com a Natacha e deixar aquela situação, a nossa relação ecoar...
Neste novo trabalho, acho inevitável a expressividade do corpo aparecer com maior liberdade... isso já vem acontecendo nos ensaios. Mas tem sido muito, muito importante vivenciar o Seis da Tarde para encontrar o que estamos deixando aparecer!!!
Sim, quando vocês estavam por aqui eu achava que o que nos unia era a busca por uma linguagem de interação do teatro e da dança, mas hoje sei que é algo muito maior do que isso. Repito, não sei nomear exatamente o que faz sermos da mesma companhia, mas sei que está relacionado à ética do trabalho colaborativo e à busca pelo revelar, iluminar(assim como os abajures do Retornarse) pequenos momentos de vida.
Amo vocês!
Marina Corazza
PS: O título da mensagem é um trecho de uma carta de um jovem Meierhold para sua esposa à respeito do cenário de Tsar Fiódor do Teatro de Arte de Moscou.
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