Berlin, 06 de abril de 2008
Tenho pensado muito sobre teatro...
Como vocês devem ter percebido, ando num processo de recuperacao de leituras perdidas, primeiro foi Stanislawski (o velho, dos livros, o das cartas nao tive o prazer de encontrar), agora estou me deparando com o maior dos meus mestres: Grotowski... E percebendo o quanto, sem perceber, andei trilhando meu caminho paralelo a ele, o quanto mesmo encostado num canto da minha estante ele continuava alimentando minhas crenhcas, o quanto ele é fonte... Por isso, quando respondo, é inevitável que as palavras dele ecoem na minha voz...
O que nos faz um grupo... Ou melhor, o que nos une como grupo...
Eu nao acho que seja a danca, nunca achei... Ou, como eu preferiria dizer, as possibilidades expressivas do movimento (já que a danca mesmo nunca foi um foco do trabalho)... A danca, o movimento, era um valor paralelo, era uma inquietacao de algumas pessoas, a saber especialmente Gabi e Natacha, um valor que eu fui assumindo ao longo do tempo, nao era de qualquer forma uma prerrogativa... (abro um parentesis, talvez no Picasso sim a danca fosse o foco do trabalho, da pesquisa, e talvez por isso a danca seja uma heranca principalmente das pessoas que estiveram presentes lá)... O que pra mim nos mantem como companhia, antes de mais nada, é a crenca em um determinado tipo de performer, a crenca numa forma de fazer teatro, uma vontade de pesquisar profundamente a arte do ator e de descobrir as possibilidades sensíveis do corpo, as formas de expressao dessa linguagem sensível, eu poderia também chamar de nostalgica ou poética... O que nos une como grupo, ou o que na minha opiniao é a essência da companhia é uma linguagem na qual o performer é mais importante que a obra, em que a obra é um canal para a exploracao da individualidade, para o crescimento pessoal, para a busca de uma comunicacao profunda com o espectador, centrada na exploracao das fraquezas e dificuldades, na exposicao, na composicao do que Grotowski chamaria de um ato total, completo, repleto...
Talvez seja isso que eu sinta falta no seis da tarde (e escrevo isso enquanto me preparo para as críticas que sei que vou receber, mas peco desculpas desde já, nao assisti o espetáculo pessoalmente, nao participei ativamente do processo de criacao, escrevo a prtir de sensacoes e impulsos, que podem ser verdadeiros ou falsos). Mesmo que eu veja muito da Marina e da Natacha na composicao das personagens, eu sinto as duas confortavelmente protegidas, eu sinto que as duas estao a servico de personagens, de uma estória que está fora delas. Talvez seja só ranco, mas eu gostaria dever as personagens (e o problema nao é que elas existam) a servico das duas, é uma diferenca extremamente sutil, mas que pra mim muda tudo...
Nao sei se me faco compreender... Gosto do resultado que vocês obtem, acho o clima e a intimidade do espaco totalmente pertinentes e conectadas ao histórico da companhia, acho que é um espetáculo que na forma combina perfeitamente com a auto-retrato... Mas pra mim há algo que soa estranho, distinto, algo que talvez fosse a minha especificidade no trabalho, fosse a minha marca, algo que tende a mudar, como tudo...
Falei... Espero nao causar mágoas, gosto da companhia porque acredito ser um espaco em que tudo pode ser discutido, acho que temos proximidade suficiente pra que tudo possa ser ouvido e pensado sem magoas...
beijos
mau
ps1: sei que é dificil arrumar um tempo, mas realmente acho que a gente devia se policiar mais e escrever mais... Sinto falta de uma comunicacao mais presente, mais ativa, mais rápida... Senao, pra que optar por e-mails ao inves de cartas?
ps2: Sugestao de leitura pras horas vagas: Agota Kristoff, "Em algum lugar", ou "Em qualeur lugar " (em alemao se chama "Irgendwo", nao sei a traducao em portugues)
6 de abril de 2008
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Um comentário:
Mau, entendo muito o que você diz no sei da tarde, e acho que concordo... talvez fosse isso que me incomodasse no trabalho de uma certa maneira... esta proteção...
ao vivo, é perceptível isso...
talvez por isso me identifique com o seu trabalho.
para variar a PRESENÇA é tema das minhas relações com a arte. preciso estar presente, principlamente nas artes cênicas. E estar presente significa sair da confortável, sair da proteção e se colocar em risco. por menor que seja. mas o risco de não saber como será o dizer de hoje. porque hoje é agora. e agora acabou de ser já...
enfim... acho que sei porque dizia que me identifico mais com a Cia de Berlin...
Beijos
Tha
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