6 de julho de 2008

De volta pra casa

De volta...

Mas nenhuma volta é na verdade uma volta, um recomeco...
tem mais a ver com continuar em frente, ou mais ainda em ao mesmo tempo voltar e prosseguir, uma mistura de tempos e sensacoes distintas... Olhar o passado com os olhos do presente...

O trabalho com a Dani (desculpem, a Dani Lima), foi incrível...
Em um dos poucos e-mails que pude escrever enquanto estive lá, lembro de ter escrito como era incrível que eu tivesse esperado tanto pra voltar a trabalhar como performer, se isso me dava tanto prazer... Mas é também incrível que logo na primeira tentativa eu tenha encontrado um projeto que me dissesse tanto, compartilhado por algumas pessoas que tivessem tanta sintonia comigo, e principalmente coorenado por alguém tao especial. Foi um encontro desses que poucas vezes acontecem, quinze dias de trabalhos intensos, muitas vezes difíceis, mas nunca desinteressantes.

Em alguns momentos, me senti de novo em grupo de amigos, de pessoas interessantes com objetivos comuns, uma sensacao que nao tinha desde abandonar a auto retrato rumo a alemanha, uma sensacao que mesmo na auto retrato já havia perdido quando fui embora... Trabalhamos muito com improvisacao de movimento a partir de jogos, em alguns momentos numa linha próxima a que haviamos trabalhado com o alex (sem a parte da consciencia corporal, mas jogados direto no jogo com o espaco, o tempo e o outro). Depois iamos para a praca central da cidade e tentavamos fazer com que o ambiente transformasse o jogo, com que as pessoas, mesmo inconscientemente, interferissem e determinassem o rumo das improvisacoes. Em outros momentos, tinhamos acoes claras determinadas com o objetivo de criar um estranhamento na vida quotidiana da cidade, mas buscando o tenue limite entre o real e o performático. Tudo partindo do uso do corpo como ferramenta expressiva, mas com um conceito de danca muito mais amplo do que o que é tradicionalmente associado a ela.

Engracado, porque comecei essa carta com a idéia do retorno, mas as vezes sinto como se o verdadeiro retorno tivesse sido o trabalho em Halle, e nao a volta pra casa. Um retorno muito mais antigo e muito mais profundo, há um tempo que nem eu mesmo sei aonde se localiza, se é que algum dia existiu. Estou mais nostálgico do que nunca, mas sinto mais do que nunca que nao tenho patria, que nao tenho casa, que sou apenas eu... O resto gira ao meu redor, mas pode ir embora a qualquer instante...

E já que estamos nas postagens com anexos, vou colocar trechos do meu diário de trabalho... Quem quiser, de uma lida

beijos
mau

Diario de trabalho (trechos)

Escalators - Halle, junho 2008

Primeiras impressões (15.06)

“(...)Halle é uma cidade simpática, e depois de estar perdido por algum tempo (essa maravilhosa sensacao de chegar a um lugar desconhecido) parece fácil de se entender e locomover (...) Primeira impressao da Dani Lima: incrível conhecer uma diretora que parece gente normal, que conversa como uma pessoa normal, que nao tem ataques de estrela (...)”

Primeiro dia de trabalho (16.06)

“(...) as bases sobre o qual ele (o trabalho) é construído sao muito próximas àquelas nas quais acredito: comunicacao em grupo, percepcao do outro e do espaco, por exemplo (...) Os exercícios na galeria foram um pouco frustrantes. A primeira pergunta clara é: como retomar a sensacao de percepcao e contato com o grupo num lugar cheio de estímulos e sem aquecimento prévio? (...)”

Segundo dia de trabalho (17.06)

“(...) Uma sensacao diferente tomou conta de mim hoje. De manha estive displicente, agindo de forma pouco consequente e automática. Me deixei envolver pelo jogo e pelas regras, e acabei respondendo de forma pouco criativa, e pior, pouco presente (...)Certamente nao entrei na sala de trabalho com a energia de ontem e isso foi definitivo (...) Fui almocar chateado, decepcionado comigo mesmop e decidido a dar mais atencao pra mim e escutar mais o meu corpo. Comecei almocando sozinho e aceitando o fato de que precisava descansar pra aguentar a tarde (...) (a tarde) trabalhei de forma mais tranquila com o fato de ser o equilibrio da balanca, o peso de controle, aquele que está lá nao para ser o foco mas para funcionar de contrapeso contra o excesso. Sai muito mais satisfeito (...) Percebi hoje que a experimentacao em sala de ensaio é mais voltada pra que nós, performers, entendamos cada jogoe suas possibilidades/limites, enquanto as improvisacoes no espaco sao muito mais importantes para a decisao de “pensamentos coreográficos” (caracteristicas que o jogo tem que ter naquele espaco) (...) PS: Novamente uma pequena nota de rodapé para comentar a loeveza e a generosidade com a qual a Dani nos orienta e nos acompanha. Por enquanto, mais do que qualquer coisa, o projeto serve pra entender e me identificar com essa referência de direcao (...)”

Terceiro dia de trabalho (18.06)

“(...) dia de muitas sensações confusas (...) tudo comecou no aquecimento, mover-se livremente mas sendo observado por alguém. (...) saber que eu posso me aquecer “como eu quiser foi para mim maravilhoso, e ao final da primeira hora de trabalho eu estava, talvez pela primeira vez, realmente pronto e ligado. A presenca do observador nao representou uma pressao, em alguns momentos foi até um estímulo para trabalhar com a atencao redobrada e nao cair no lugar comum. (...) A improvisacao na escada rolante foi bem intensa e prazerosa. Porque foi realmente uma improvisacao, estavamos livres pra buscar as solucoes a cada momento, e essa necessidade de decisoes muito rápidas despertou um estado incrível de atencao e reacao as propostas. (...) Depois fomos para o Marktplatz experimentar a cena das roupas. (...) O contato estava extremamente enfraquecido, e a gente correu MUITO na acao. Nao sei bem como definir, mas tenho certeza de que o ela entre a gente se perdeu. Nao sei até que ponto eu contribuo para isso, ou o que eu posso fazer para mudar. Tenho a sensacao de estar concentrado, focado e de tntar ser preciso, mas pode ser que seja uma impressao errada (...)”

Quarto dia de trabalho (19.06)

“(...) Hoje foi um dia difícil em muitos sentidos, mas principalmente porque comeca a ficar clara a expectativa de cada pessoa, sua opiniao a respeito do trabalho e sua maneira de agir ligada a isso (...) Sintomas: uma longa discussao que nao interessava a quase ningue, um pedido de treinamento em danca no comeco do trabalho (...) percebo que durante o trabalho sou tentado a procurar sempre as mesmas pessoas e que jogo somente com elas, como se uma rede de conexao se criasse entre uma parcela do grupo, que tenta de alguma forma dar sustentacao ao trabalho como um todo (...) a afinacao do grupo parece emperrar sempre nos mesmos lugares, nas mesmas pessoas, nos mesmos problemas (...) A tarde, no Marktplatz, fizemos o jogo da “passagem”, e eu senti grandes focos de absoluta ausencia de conexao, concentracao e vontade de jogar. Sinto que algumas pessoas estao insatisfeitas e que isso, num trabalho como esse, pode ser comprometedor (...)

Quinto dia de trabalho (20.06)

“(...) Cansaco. Quando você exige do corpo o que ele nao é capaz de dar. Hoje foi um dia difícil, nao ruim, mas difícil. Como já era de se esperar, depois da festa de ontem e da noite mal dormida (...) Houve momentos interessantes, especialmente quando algum tipo de conexao realmente acontecia e eu conseguia usar a energia do outro como catalisador, mas em muitos momentos eu me senti pouco criativo, obvio, incapaz de ultrapassar os limites da primeira idéia (...) Busco as pessoas com quem a conexao realmente acontece, que veem o jogo de forma semelhante à minha, e fujo de outras (...) Também entrei um pouco em crise por causa da minha capacidade de “desaparecer” no espaco (que tem sido ressaltada pela Dani). Tenho medo que, em dias como hoje, em que a energia está baixa, eu desapareca realmente e as pequenas interferencia que eu crio no espaco nao se concretizem (...)”

Sexto dia de trabalho (21.06)

“(...) Como explicar o que aconteceu hoje? Em algum momento, enquanto eu deitava no chao da paraca, uma nova conexao se abriu dentro de mim, uma conexao absoluta entre interno e externo (a praca em movimento e eu ali, parado) que realmente nao passa por nenhum tipo de premeditacao ou compreensao lógica dos ritmos e desenhos de um espaco... Um estado absoluto, fora do quotidiano, um estado leve, sem esforco, sem necessidade, um estado, por assim dizer, sagrado (...) O jogo depois, com a Esther, só podia ser assim: uma sensacao absoluta de comunicacao, de enxergar o espaco através dos olhos do outro e saber antes dele mesmo o que ele vai fazer (...) A pergunta que ficam: as pessoas que respiram, escutam, conseguem transformar um grupo? Em tao pouco tempo? Acho difícil, me parece que vamos ter essas duas forcas (a necessidade de escuta e a incapacidade de nao propor) lutando o tempo todo ao longo do trabalho (...)”

Segunda semana

Sétimo dia de trabalho (23.07)

“(...) Hoje eu estive quotidiano. Nao consegui ultrapassar a barreira, de maneira geral foi assim: nao exatamente bom, nao exatamente ruim. Pouco criativo, grande demais, pouco expressivo (...)Quando estou assim, os movimentos ficam grandes e artificiais, os contatos sao logicos, os jogos se transformam em piada (...) Pelo menso acho que nao fui só eu, percebi várias pessoas aquem do que elas realmente podem, tive dificuldades de encontrar parceiros de jogo, nao vi as coisas aconteceram como em outros dias (...)Sinto falta de me aquecer de verdade, pular, suar, ser tirado da energia quotidiana. Me cobrar, conheco esse caminho e nao dependo de ninguém pra seguir por ele (...)”

Oitavo dia de trabalho (24.07)

“(...) Desde a chegada na sala de ensaio outra postura, mais independente, mais consciente do MEU corpo e das MINHAS necessidades, menos envergonhado. Aqueci de verdade, pulei, suei, criei resistência. Depois a Dani ainda aqueceu mais um pouco e, quando paramos, eu sentia meu corpo completamente acordado, preparado, perceptível, fluido (...) Mas nao fui só eu, o grupo todo estava lá, a rede de seguranca estava montada, e mesmo as pessoas naturalmente menos concentradas mostravam mais vontade e mais escuta do que ontem (...) O jogo na escada rolante foi incrivelmente melhor do que ontem, mais flexível, muito mais criativo, sem tanto atropelamente, com propostas que se completavam ao inves de se repetir. Eu busquei o contraste, o jogo em nivel mais complexo, e isso me abriu possibilidades incabaveis de combinacao (...) Resumindo, a questao parece ser: jogar com a energia quotidiana e nao deixar ser sugado por ela. Mesmo dentro de um espaco e de um tempo quotidiano (e eu diria principalmente) prtecisamos manter nosaa qualidade cenica de atencao e nossa energia dilatada (...)”

Nono dia de trabalho (25.07)

“(...) Frustracao. Hoje fizemos muito pouco (e isso foi terrível, depois da expectativa de ontem). Choveu, e a Dani insistiu em ir pra praca mesmo assim. O chao estava molhado, e pior, escorregadio, o que tornou impossível realizar qualquer coisa decente (...) No Mäc Geiz, o jogo nao chegou a ser ruim, mas a escuta nao estava tao afinada como ontem. Havia jogos interessantes, mas o espaco nao era percebido como um todo, o que gerava muitas propostas simultâneas (...)”

Décimo dia de trabalho (26.07)

Sem anotacao

Décimo primeiro dia de trabalho (27.07)

“(...) o cansaco e o desgaste sao evidentes, o interesse comeca a diminuir e a propensao a repetir padroes ja conhecidos é imensa. Poucos ainda parecem querer jogar, buscar coisas novas (...) De repente a Dani surtou, teve uma gigantesca crise de ansiedade e comecou a querer que a gente “mostrasse coisas”, “fizesse acoes de impacto”, que a coisa “comecasse a acontecer rapidamente” (as palavras sao dela). Conexao, sutileza, deixar o jogo acontecer? Nada. O resultado foi tao obvio quanto catastrofico (...) Sensacao de retroceder no trabalho, mesmo as pessoas naturalmente mais propensas a jogar pareciam ter perdido a calma, a “rede de seguranca” era instável e esporádica, nao dava conta de sustentar o trabalho (...) foi preciso respirar fundo e aceitar que a Dani também é humana, e também püode ficar ansiosa e perder por alguns instantes sua mao precisa na forma de comandar o grupo (...) Trabalhar com improvisacao parece implicar obrigatoriamente em uma confianca absoluta no que os performers sao capazes de realizar, superar problemas e perceber o espaco e as relacoes que eles estao criando, e é preciso ter calma pra saber que as vezes eles vao errar, e que isso é parte do processo de aprendizado (...)”

Décimo segundo e último dia de trabalho (28.07)

“(...) hoje nao fizemos, nao na prática. Cheguei no estúdio e fui aquecer, como todos os dias, e uns cinco minutos depois fui chamado pela Zoe, que me avisou que a gente nao ia aquecer. A incompreensao era latente na voz dela (...) Fomos para a praca, mas parecia que só estavamos jogando pra que a Dani pudesse filmar da cobertura da Kaufhof. Como se o jogo nao tivesse importância, como se as pessoas que estavam na praca nao tivessem importancia. Importante era desenhar linhas no espaco e nao deitar muito perto dos toldos, pra que a camera pudesse filmar (...) Depois, quando tudo já parecia perdido, fui jogar o abraco com a Britta. Nao tinha a menor vontade. E por incrível que pareca, o jogo foi ótimo. É verdade que eu joguei sozinho, porque a Britta nao reagia a qualquer tipo de proposta ou mudanca de dinâmica, mas de repente eu estava acordado, ligado, presente (...) Pena que os últimos dias tenham tirado um pouco do brilho do trabalho que fizemos nas duas semanas (...)”

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