Queridos,
Desde um tempo (que não me lembro quando começou) tenho um sonho recorrente:
Eu estou em cena prestes a iniciar uma apresentação de dança, com maquigem, figurino, música colocada, coreografia decorada, público à espera. Porém, quando é chegada a hora de iniciar meu movimento, fico dominada por uma opressora paralisia, não sei o que fazer, como me mover. As coisas que eu até então julgava que sabia e que ensaiara me escapam por completo, e aquele momento preparado com tanto cuidado torna-se um pesadelo terrível e frustrante.
Esse sonho repetitivo costumava acontecer às vesperas de estréias ou de participações minhas em concursos ou festivais importantes. Nos últimos anos, no entanto, e principalmente desde que comecei a fazer teatro, ele também me surge em momentos de início dos processos, quando ainda não há a pressão toda pela apresntação em si. Eu deveria dançar mas não danço (porque sempre a dança e nunca o teatro? o simbolo do movimento paralisado, do fluxo congelado?), eu deveria saber mas não sei, não sou ninguém, estou sozinha, exposta.
Ontem, porém, enquanto tentava assistir a uma dessas peças a que se vai ver por que o amigo do amigo do amigo ganhou convites - que você jamais compraria porque é caro e porque não lhe interessa - não sei por que motivo me lembrei que há cerca de um ano atrás esse sonho recorrente de que falava me aconteceu diferente, transformado.
No início tudo igual, com o agravante da sensação pesada que nos acompanha quando parece que sabemos que tudo está fadado a terminar mal. Mas o mal esperado não vinha. No momento da apresentação, quando chegava a minha vez de entrar em cena, o que faltava era justamente o que antes sempre estivera: a maquiagem, a música, a coreografia.
O público me olhava, eu seminua (inexplicavelmemente minha roupa e todo o resto haviam sumido). Era meu momento de dançar e eu não estáva preparada, sabe que não estáva pronta, mas sabia que tinha algo a ser feito e isso bastava.
Não era vontade. Era como se todo o tempo acumulado de trabalho inevitavelmente estivesse grudado em meu corpo. Eu poderia improvisar, o essencial já estava, mesmo que não mostrasse uma forma clara pra mim mesma,o essencial existia porque foi sobre ele que eu me debruçara todo o tempo antes, nos sonhos e pesadelos anteriores. O improviso era sobre um desconhecido que no entanto fôsse muito, muito íntimo. Mesmo sem saber em que resultaria, eu confiava que podia, e devia dançar.
Então eu dançava,uma nova dança sobre algo conhecido.
Neste ano ainda não me aconteceu esse sonho. Esse que acabo de relatar foi há um ano, na iminência de estrearmos um SEIS DA TARDE ainda não pronto. Foi o último que tive.
Mas acho que, se acontecer, será novamente o sonho transformado. Porque para mim refletiria este momento de início de um novo processo com a Companhia; momento que traz a necessidade de uma nova forma, ainda desconhecida, mas com uma confiança absoluta em todo o tempo que antes já estivemos trabalhando, lapidando o essencial. Confiança de que há em nós acumuladas muitas memórias, formas reaproveitáveis, formas essenciais que nos compõem e que nos ajudam cada vez mais a saber improvisar sobre nós mesmos.
beijos a todos
Nat
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