12 de junho de 2008

Vespera - Berlin, 12 de junho de 2008

Se preparar para um mergulho em um universo novo...
Um mundo do qual você nunca fez parte...
Ou entao algo que está tao distante, tao perdido no tempo que nao pode ser real, nunca foi...

Voltar a ser performer, a propor de forma inconsequente, a nao ter que pensar formatos e lógicas e significados, voltar a me concentrar no ato e nao no conceito, nao me preocupar com o significado, ter a consciencia e a seguranca de que alguém te ampara no que você faz... Estar a servico de alguém, nao querer comandar, nao ter que dar ordens, nao ter que ter sempre a resposta certa e a atitude brilhante que vai solucionar de uma só vez todos os problemas...

Poder se concentrar no movimento de um dedo, numa forma de olhar, na lógica interna que me empurra de um canto para outro da sala. Me preocupar com o como, nao com o que... Estar em laboratório, ser cobaia, ser destilado, decantado, sublimado e condensado novamente... Ser materia bruta, nao ser cientista...

Buscar no corpo as respostas. Na maneira de olhar o mundo.
Buscar no corpo do outro e no olhar do outro...

Estar concentrado em ser, em estar...
Deixar de ser o artista pra voltar a ser artesao...

(me explico, no domingo viajo pra passar duas semanas em trabalho intensivo como performer para a realizacao de um work in progress em espacos urbanos em um festival de teatro aqui da alemanha, coordenado/dirigido por uma coreógrafa brasileira chamada Dani Lima... É a primeira vez que eu mergulho, como performer, em um projeto há muitos anos... Curiosa expectativa, curiosa sensacao de nao saber o que te espera, um pequeno medo de nao saber se vou dar conta, se algo nao ficou perdido no tempo, se ainda sei estar em foco. )

Estar atento ao que acontece e aceitar o que acontece
Jogar no presente e no erro...

nao pensar
nao pensar
nao pensar...

(as vezes acho quenós pensamos demais como atores - escrevo e sei que vou ser criticado por isso)

nao julgar
nao julgar
nao julgar...

respirar fundo e seguir adiante
ter o medo como companheiro de ensaio
entender a ansiedade como energia pulsante e vital...

nao encontrar comodidade...
nao encontrar certezas...
estar sempre em equilibrio precário entre eu e o outro...

(e penso no grupo de treinamento aqui, em plena atividade, quatro corpos dancando pelo espaco, e entendo meu caminho com mais clareza, entendo o que é pensar o trabalho do ator, é algo totalmente único e muito diferente de pensar o teatro ou a encenacao. Talvez seja o que realmente me move, nao é um contrasenso que como diretor eu me importe tanto com o trabalho do ator e como ator eu esteja sempre tao preocupado com a encenacao que está sendo construida?)

sempre respirar...

(ultimo parentesis: pra nao deixar passar - fiquei surpreso e feliz com as novas postagens no blog, tinha já me conformado que ele tinha se tornado um velho livro de memórias juntando poeira num canto da estante)

Um comentário:

thaisampr disse...

Que legal! esteve com a Dani Lima?
A minha amiga Michellinha era da Cia dela.

Lendo seus relatos me identifico muito com este momento... work in progress... assim tem sido minha busca criativa... (talvez sempre tenha sido esta, mas faz mais sentido depois que vivemos as experiências) acho que pude experimentar muito isso no trabalho com a Dedé (O experimento do Acrodo) e depois mais profundamente na Adormecida...

Agora volto a reler o Água Viva da Clarice e me emociono a cada momento com o tanto de identificação que sinto. é como seu eu tivesse falando tudo aquilo. mas não sou eu, é alguém que já até morreu...
loucura...
existem mesmo pessoas com quem nos identificamos visceralmente.
A Hilda Hilst faz a mesma coisa!

é o "IT"

Talvez eu esteja me preparando pra ir pra Berlin...

é...
é isso...

Beijos
Thaisinha