12 de junho de 2008
Vespera - Berlin, 12 de junho de 2008
Um mundo do qual você nunca fez parte...
Ou entao algo que está tao distante, tao perdido no tempo que nao pode ser real, nunca foi...
Voltar a ser performer, a propor de forma inconsequente, a nao ter que pensar formatos e lógicas e significados, voltar a me concentrar no ato e nao no conceito, nao me preocupar com o significado, ter a consciencia e a seguranca de que alguém te ampara no que você faz... Estar a servico de alguém, nao querer comandar, nao ter que dar ordens, nao ter que ter sempre a resposta certa e a atitude brilhante que vai solucionar de uma só vez todos os problemas...
Poder se concentrar no movimento de um dedo, numa forma de olhar, na lógica interna que me empurra de um canto para outro da sala. Me preocupar com o como, nao com o que... Estar em laboratório, ser cobaia, ser destilado, decantado, sublimado e condensado novamente... Ser materia bruta, nao ser cientista...
Buscar no corpo as respostas. Na maneira de olhar o mundo.
Buscar no corpo do outro e no olhar do outro...
Estar concentrado em ser, em estar...
Deixar de ser o artista pra voltar a ser artesao...
(me explico, no domingo viajo pra passar duas semanas em trabalho intensivo como performer para a realizacao de um work in progress em espacos urbanos em um festival de teatro aqui da alemanha, coordenado/dirigido por uma coreógrafa brasileira chamada Dani Lima... É a primeira vez que eu mergulho, como performer, em um projeto há muitos anos... Curiosa expectativa, curiosa sensacao de nao saber o que te espera, um pequeno medo de nao saber se vou dar conta, se algo nao ficou perdido no tempo, se ainda sei estar em foco. )
Estar atento ao que acontece e aceitar o que acontece
Jogar no presente e no erro...
nao pensar
nao pensar
nao pensar...
(as vezes acho quenós pensamos demais como atores - escrevo e sei que vou ser criticado por isso)
nao julgar
nao julgar
nao julgar...
respirar fundo e seguir adiante
ter o medo como companheiro de ensaio
entender a ansiedade como energia pulsante e vital...
nao encontrar comodidade...
nao encontrar certezas...
estar sempre em equilibrio precário entre eu e o outro...
(e penso no grupo de treinamento aqui, em plena atividade, quatro corpos dancando pelo espaco, e entendo meu caminho com mais clareza, entendo o que é pensar o trabalho do ator, é algo totalmente único e muito diferente de pensar o teatro ou a encenacao. Talvez seja o que realmente me move, nao é um contrasenso que como diretor eu me importe tanto com o trabalho do ator e como ator eu esteja sempre tao preocupado com a encenacao que está sendo construida?)
sempre respirar...
(ultimo parentesis: pra nao deixar passar - fiquei surpreso e feliz com as novas postagens no blog, tinha já me conformado que ele tinha se tornado um velho livro de memórias juntando poeira num canto da estante)
9 de junho de 2008
manhã de segunda-feira
Hoje a ordem era explorar objetos trazidos pelos colegas, que, por eles, tocavam o universo das coisas todas que, juntos, estamos tateando há algum tempo. Havia neles aquela delicadeza das personagens de Tchekhov que nos olham de viés; muito de cada um por uma pequenina fresta: um cartão postal antigo escrito em esperanto, a carta de um avô escrita em 2002 na Bahia, um curta-metragem de um cineasta paraguaio; Borges, Bishop. Eu poderia ter ficado o dia inteiro estendida ali no chão, lendo aquelas coisas todas, ouvindo cada canção.
O dia começou bem. Depois, no trabalho, revisando um livro pesado de filosofia, resolvi escapar e procurar um certo Borges que me lembrou esta manhã.
A vida é mesmo feita de pequenas alegrias (frase surrada de tão usada e tão verdadeira!).
CK.
Arte Poética
Mirar o rio feito de tempo e água
e recordar que o tempo é outro rio,
saber que nos perdemos como o rio
e que os rostos passam como a água.
Sentir que a vigília é um outro sonho
que sonha não sonhar, e que a morte
que teme nossa carne é essa morte
de cada noite, que se chama sonho.
Ver no dia ou no ano um símbolo
dos dias do homem e de seus anos,
converter o desrespeito dos anos
numa música, num rumor e um símbolo.
Ver na morte o sonho, no pôr-do-sol
um triste ouro, assim é a poesia
que é imortal e pobre. A poesia
volta como a aurora e o pôr-do-sol.
Às vezes numas tardes uma cara
nos mira lá do fundo de um espelho;
a arte deve ser como esse espelho
que nos revela nossa própria cara.
Contam que Ulisses, farto de prodígios,
chorou de amor ao divisar sua Ítaca
verde e humilde. A arte é essa Ítaca
de verde eternidade, não prodígios.
Também és como o rio interminável
que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
e é outro, como o rio interminável.
Jorge Luis Borges
8 de junho de 2008
sobre atalhos e encruzilhadas...
Amanheci com vontade de escrever para vocês.
Não sei bem o que quero falar, mas algo dentro de mim me obriga nessa direção.
Na sexta-feira, assisti à defesa de tese da Cristiane (que escreveu o livro das correspondências do TAM). Seu doutorado é agora sobre a autobiografia do Stanislavski, a tradução do Paulo Bezerra, que estava na banca, foi feita diretamente do russo, sem passar pelo My life in Art que pelo que contam é incompleto e não o representa plenamente, foi escrito num momento em que Stan. precisava pagar as contas de uma clínica na Suiça onde seu filho estava em tratamento (cae, má é isso, né?) e num contexto em que os americanos precisavam que seu livro "comunicasse", achavam-no muito redundante, não comercial. Depois com calma, reescreveu essa autobiografia e por sorte no Brasil temos uma edição traduzida do russo, que está esgotada a muito tempo. Impossível encontrá-la nos sebos, na biblioteca do Centro Culural SP ela está sem capa, toda desfolhando. Com dificuldade, tirei cópia da primeira parte, A Infância Artística, a garota do xerox assim como os americanos não acreditou que tudo aquilo era só o primeiro capítulo e insistiu que eu só podia tirar cópia de um.
Ainda lá, encontrei um livro da Stella Adler em que um terço dele é dedicado a falar sobre Tchekhov e sua relação com as pesquisas de Stanislavski sobre o ator. Ela é americana, foi aluna de Stan. e bateu de frente com a visão de Lee Strasberg (não sei se a escrita está certa) que acabou dando origem ao jeito Actors Studio de ser.
Isso me lembrou quando a Cristiane falou sobre a palavra russa Pirigivani que não tem uma tradução precisa, mas que significa sentir em muitos sentidos, sensações físicas, espirituais, emocionais e o que mais couber, mas que para a tradição americana que nos atinge acabou se reduzindo ao sentir psicológico.
Ontem assisti a "Não sobre o amor" que também bebe em fontes russas e cartas. Os atores estão muito bem (Arieta Corrêa e Leonardo Medeiros), mas o virtuossismo da luz e do cenário me afastaram o tempo todo. Preferia mil vezes que eles ficassem simplesmente se olhando por quinze minutos, mais, meia hora, uma hora que fosse. Estava claro que aqueles dois fariam isso de forma simples e maravilhosa, mas infelismente algum ego onipotente foi muito maior para permitir isso e destruiu a simplicidade do que poderia ter sido.
Saudades
Marina Corazza
2 de junho de 2008
30 de abril de 2008
24 de abril de 2008
Sobre Medos e Desafios
eu gostava mesmo quando o Mau largava a gente no metrô com algumas regras e dizia: "se virem" (claro que não desta maneira.)
ou quando ele largava a gente no meio do mato e falava pra acharmos o caminho de volta.
ou na feirinha com o público... parecendo drogadas perdidas... com medo que alguém nos surpreendesse...
ou com o público e com a Cia no Retornarse última versão, onde necessitava se colocar à espreita e estar preparada para qualquer complicação.
Gosto quando a Cia me propõe uma coisa que me dá cagaço, mas ao mesmo tempo uma puta vontade de enfrentar esse cagaço.
este risco... um frio na barriga... um não saber o que fazer nem como resolver, mas uma puta vontade de se resolver.
Por isso talvez tenha proposto aquele ensaio maluco do Retornarse, quando o Mau e a Gabi estavam no Brasil... Essa vontade de tentar fazer algo que eu sabia de trás pra frente, mas não fazia há mais de dois anos... (será realmente que saberia refazer?) era me colocar em risco ao lado de vocês novamente... e é claro nos divertirmos e termos a tal dinâmica de grupo que não só à partir da fala...
Cia, alguma recomendação mirabolante? (risos) aonde eu devo me largar?
Eu gosto do risco no AGORA! eheheh! tensionar pra gozar!
Beijos
Thaisinha
fluxo de movimento
ando sumida...
...mas não
na verdade venho retomando o ...Mas Não com um artista plástico.
a video arte me instiga a cada dia.
Agora estou num grupo juto com outros artistas filósofos para discutir questões de Deleuzi e Niesztche.
Hoje tivemos uma reunião que começou as 18h e terminou as 01h30 cheia de formigamentos... questionamentos...
meu corpo pulsa. existe.
A minha dificuldade SOLO é conseguir colocar meus projetos no papel... em grupo era mais fácil também... sinto sempre que não está bom...
a cabeça fervilha... sim... fervilha...
sim... fluxos de pensamento....
Eu entendo MaC. e Nat quado vocês falam do fluxo sincero e da dança. Sim o Jêrome Bel fez dança sem dançar, assim como a Maguy Marin e tantos outros, assim como A Meredith Monk que é indefinível... (performer? Bailarina? cantora? video artita?). A Arte não depende do suporte. Ela é por si só. Minha questão realmente não tinha nada a ver com o movimento, apesar de eu não ter sabido como dizer naquele momento... Cheguei a comentar com o Cae a um tempo atrás... (eu também não dancei na Adormecida também... eu era "apenas" um ser Presente, parado... andando... escrevendo, e mesmo em outros trabalhos que eu dirigi, o que me importava era a maneira como eu ia falar. Aliás por isso não gosto dessa definição se eu sou ou não do teatro. esta definição realmente não importa. Sou artista).
o buraco daquele questionamento (o do movimento) pra mim era mais embaixo...
Me contradigo porque na época, e até hoje, não sei bem como dizer o que queria ter dito naquele momento...
Tinha relação com a cia brasil, ou melhor, a minha relação com a cia brasil.... enfim.
e apesar de eu ter medo talvez seja importante para mim continuar seguindo este percursso assim... solo... indo atrás da minha busca artistica individual, do desconhecido, que neste momento me instiga de uma maneira diferente da de vocês... (claro que temos falado dos mesmos temas e temos questionamentos muito parecidos, mas a maneira como cada fragmento da Cia tenta expressar isso é diferente.)
Fico com um aperto de estar de fora do processo, e toda vez que falo com vocês demonstro a minha "carência". Me pergunto muitas vezes... será que enlouqueci? tinha que voltar para o meu grupo, ao mesmo tempo, o que é extemporâneo me puxa com mais força...
preciso me aprofundar mais nestas minhas novas questões... que já são velhas até... desde o "...E o Meu Secador de Cabelos Me Comeu Nesta Madrugada", elas retornaram no "Identidade em Crise", ...Mas Não, Adormecida e continuam me martelando...
Hoje falaram muito de Cartografias... achei o máximo! As nossas cartografias eram deleuzianas mesmo! (risos)
Falamos do Presentificar (olha a Cia Auto-Retrato aí!).
Um objetivo da vida é presentificar talvez?
Não se omitir.
Ler Niesztche e o reler com seus olhos... não se omitir ao pensamento dos grandes mestres...
Como diria um amigo meu (que a gente discutiu durante horas) " Ah, entendi, você perverteu o Greenaway e por isso então posso dizer que não foi uma intérprete da obra dele. Você criou com elementos da obra dele, mas também o perverteu"... é... mais ou menos assim o que ele disse... mas nós continuamos a discussão por longo tempo...
Ler e Reler.
Tá tudo muito confuso e não vou reler meu fluxo... quero deixar ele PRESENTE.
foi como foi.
Foram muitas coisas discutidas, mas todas focalizarma o mesmo tema e todas fizeram o meu corpo pulsar e estremesser... Precisava plantar bananeira e me jogar no chão... me largar....
Li o Mishima esses dias e ele faz uma relação entre teoria e corpo muito Linda... o texto era o Sol e Aço... depois explico melhor, porque agora não consiguirei explicar muito bem. Mas a questão é que corpo e teoria estão juntas... não se separam... o tal Niesztche já disse isso diversas vezes também... (aliás tenho orgasmos sempre que leio algo dele... e da Hilda Hilst também)...
Falei tanto de pular ... e cair....
resolvi mandar um texto que escrevi pra Dedé (por caussa da minha retomada das quedas no experimento do acordo), que aliás, ela defenderá o seu mestrado nesta segunda feira dia 28 de abril as 14h na USP. Gostaria muito que vocês fossem.
aí vai o tal texto que tem a ver com esse jeito thaisinha de ser:
Sobre a Queda ou A vontade de se Levantar
Cair.
Uma complexidade de movimentos...
Quedar-se é bom quando se deixa largar.
é menos doloroso quando se relaxa.
Cair para aprender a se levantar.
Meu prazer pela queda talvez tenha surgido quando era uma criança que gostava de pular.
Uma queda, aos dois anos, deixou minha primeira cicatriz. Uma cicatriz causada por cacos de vidro da minha mamadeira com leite morninho.
Pulei na cadeira e cai. O chão verde. Pessoas a minha volta.
Acho que nem doeu. As pessoas se doeram por mim.
Senti o contato da minha pele com o chão verde. meus ossos e músculos também estavam lá. Havia sangue. um sangue bem vermelho de quem ainda não viveu muito.
O grito não era de dor, era de descoberta. uma nova sensação. algo que desconhecia.
Meu corpo no chão aterrado. aterrado para voar. Voar longe.
Para saltar e se largar. Sem saber exatamente como e onde cair.
Sem olhar para baixo.
Simplesmente ir.
bom... me vou assim.... sem fim...
só soltei imagens e palavras... mas tá tudo aí...
é assim que tenho me movido....
Beijos
Amo Vocês
Thaís
19 de abril de 2008
oi amores-parceiros,
Mau e Gabi, receberam minha breve carta?
Peço desculpas por não escrever muito. Estou numa fase estranha, meio "brigada" com as palavras, tentando captar o mundo e me fazer captar talvez por uma outra lógica.
Aliás, acabo de me dar conta de que é engraçado dizer que ando "brigada com as palavras" quando há na companhia um novo processo que justamente lida com elas, em essência...
Queria dizer uma coisa a respeito do SEIS DA TARDE, e não é para dar ênfase à polêmica, nem nada. É só porque me lembrei disso hoje e para comentar o fato de que, pra mim, o SEIS DA TARDE tem a dança como base, ao menos no meu aprendizado do que entendo por dança.
Embora poucas vezes a gente se lembre, a idéia de trazer o universo das cartas pro processo da peça partiu do Caetano, a partir de uma cena que eu preparei em que duas cartas gravadas e sobrepostas eram como uma música ensurdecedora que às vezes me paralisava, nos gestos cotidianos de lavar a louça e varrer a casa. Não só na forma, a dança para mim ali estáva. Uma das cartas inaudíveis na cena era uma em que eu mesma escrevia para alguém. Falava sobre minha imensa necessidade de aprender a dançar do lado de dentro, porque a forma de fora que eu havia aprendido até então, muitas vezes não me impedia de permancer imóvel.
Uma carta que fala de uma escrita que é fluxo, que é dança, de uma dança que é resposta, de um gesto que é palavra, de uma palavra que é gesto e que é movimento e que não dura mais de um segundo, uma efemeridade que às vezes não faz sentido, mas que no fundo é o que mais importa.
Enfim, estou vaga e sei que me faço muito pouco compreendida nessas minhas frases.
Ontem a apresentaçao em São José dos Campos foi muito legal. Tivemos um público maior do que a média de lá, segundo o programador do SESC. O Vina assistiu ao espetáculo novamente e falou coisas muito bonitas, sobre a sutileza do trabalho, sobre as imagens marcantes que traz, e falou também sobre a necessidade de conseguirmos ainda dançar e falar como uma coisa só...
Antes da apresentação a gente se aqueceu com a música do Mestre Ambrósio, sabem, aquela?... Má Corazza, eu, Má tranjan e Cae; deu saudades do Mau, Gabi, Thaís, deu saudade de todos nós juntos. Mas o mais importante era a memória daquele momento, o que carregamos, o que nos movia, o que nos move agora. Sempre o que nos move.
Neste momento, não sei o que me move. Mas sei que não estou parada. Estou numa fase quase que de dança espontânea, desapercebida.
Esse mês conheci a Moud Roubart, uma alemã-haitiana que desenvolve processos de cantos haitianos sagrados. Ela veio pro ECUM a convite da Maria Thais, por isso tive a oportunidade de conhecê-la um pouco melhor, e fiquei realmente impressionada. Primeiro porque ela é, em si, alguém que comove, move, impressiona. Não faz teatro. Não define o que faz. Canta e ensina a cantar com uma memória ancestral. O que faz, certa vez, chegou aos ouvidos do Grotowski, que a convidou para contribuir com ele. Dizem que ela o influenciou muito na sua busca por esse algo que já quase deixa de ser teatro para voltar a ser rito.
Depois de sua fala no ECUM e da mostra de um vídeo sem tradução de uma "aula" dela, quando abriram para perguntas, houve quase dez minutos de silêncio, numa platéia de mais de cem pessoas. Moud agradeceu ao silêncio e disse que talvez não fôsse necessário perguntar, falar nada. Mas alguém na platéia finalmente se manifestou, e foi para perguntar sobre seu trabalho com o Grotowski... então ela se voltou à pessoa da platéia e perguntou se aquela era a questão mais espontânea que poderia ser feita, a que vinha de fato de seu coração.
A Moud disse ter ficado impressionada com umas brincadeiras populares que nos viu fazendo na Balagan. Disse que é raro no mundo encontrar pessoas que ainda saibam brincar por brincar, dançar e cantar sem um objetivo, apenas pelo prazer da coisa em si. Suas poucas palavras e aquela olhar marcante e atento de alguém que viveu muito em busca da simplicidade de simplesmente ser, enfim, ensinaram-me mais do que talvez dois ou três anos de faculdade.
Sei que é muito difícil ser sempre assim, mas às vezes conseguimos. E, comigo, costuma acontecer quando ando distraída, como agora...
bjs, desculpem a desconexão das palavras, a falta de lógica...
Nat
6 de abril de 2008
Tenho pensado muito sobre teatro...
Como vocês devem ter percebido, ando num processo de recuperacao de leituras perdidas, primeiro foi Stanislawski (o velho, dos livros, o das cartas nao tive o prazer de encontrar), agora estou me deparando com o maior dos meus mestres: Grotowski... E percebendo o quanto, sem perceber, andei trilhando meu caminho paralelo a ele, o quanto mesmo encostado num canto da minha estante ele continuava alimentando minhas crenhcas, o quanto ele é fonte... Por isso, quando respondo, é inevitável que as palavras dele ecoem na minha voz...
O que nos faz um grupo... Ou melhor, o que nos une como grupo...
Eu nao acho que seja a danca, nunca achei... Ou, como eu preferiria dizer, as possibilidades expressivas do movimento (já que a danca mesmo nunca foi um foco do trabalho)... A danca, o movimento, era um valor paralelo, era uma inquietacao de algumas pessoas, a saber especialmente Gabi e Natacha, um valor que eu fui assumindo ao longo do tempo, nao era de qualquer forma uma prerrogativa... (abro um parentesis, talvez no Picasso sim a danca fosse o foco do trabalho, da pesquisa, e talvez por isso a danca seja uma heranca principalmente das pessoas que estiveram presentes lá)... O que pra mim nos mantem como companhia, antes de mais nada, é a crenca em um determinado tipo de performer, a crenca numa forma de fazer teatro, uma vontade de pesquisar profundamente a arte do ator e de descobrir as possibilidades sensíveis do corpo, as formas de expressao dessa linguagem sensível, eu poderia também chamar de nostalgica ou poética... O que nos une como grupo, ou o que na minha opiniao é a essência da companhia é uma linguagem na qual o performer é mais importante que a obra, em que a obra é um canal para a exploracao da individualidade, para o crescimento pessoal, para a busca de uma comunicacao profunda com o espectador, centrada na exploracao das fraquezas e dificuldades, na exposicao, na composicao do que Grotowski chamaria de um ato total, completo, repleto...
Talvez seja isso que eu sinta falta no seis da tarde (e escrevo isso enquanto me preparo para as críticas que sei que vou receber, mas peco desculpas desde já, nao assisti o espetáculo pessoalmente, nao participei ativamente do processo de criacao, escrevo a prtir de sensacoes e impulsos, que podem ser verdadeiros ou falsos). Mesmo que eu veja muito da Marina e da Natacha na composicao das personagens, eu sinto as duas confortavelmente protegidas, eu sinto que as duas estao a servico de personagens, de uma estória que está fora delas. Talvez seja só ranco, mas eu gostaria dever as personagens (e o problema nao é que elas existam) a servico das duas, é uma diferenca extremamente sutil, mas que pra mim muda tudo...
Nao sei se me faco compreender... Gosto do resultado que vocês obtem, acho o clima e a intimidade do espaco totalmente pertinentes e conectadas ao histórico da companhia, acho que é um espetáculo que na forma combina perfeitamente com a auto-retrato... Mas pra mim há algo que soa estranho, distinto, algo que talvez fosse a minha especificidade no trabalho, fosse a minha marca, algo que tende a mudar, como tudo...
Falei... Espero nao causar mágoas, gosto da companhia porque acredito ser um espaco em que tudo pode ser discutido, acho que temos proximidade suficiente pra que tudo possa ser ouvido e pensado sem magoas...
beijos
mau
ps1: sei que é dificil arrumar um tempo, mas realmente acho que a gente devia se policiar mais e escrever mais... Sinto falta de uma comunicacao mais presente, mais ativa, mais rápida... Senao, pra que optar por e-mails ao inves de cartas?
ps2: Sugestao de leitura pras horas vagas: Agota Kristoff, "Em algum lugar", ou "Em qualeur lugar " (em alemao se chama "Irgendwo", nao sei a traducao em portugues)
4 de abril de 2008
Gosta-se deles como algo real
Queridos de pertinho e de distante!
Hoje faz 1 ano que o Seis da Tarde estreou no Sesc (ontem, eu, ma tranjan, naty e caetano comemoramos no dia anterior... sem perceber...). É muito feliz essa realidade de ter um espetáculo vivo por um ano, com a perspectiva de vida longa.
O novo projeto está a todo vapor. Essa expressão assim meio antiquada dá a medida do que sinto: sem pressa e passando por momentos muito especiais, as energias e o trabalho vão se configurando ao nosso redor. Nossa relação com os três atores convidados (Carla, Edu e Camilo) têm sido de um encontro íntimo, as cartas e o material explorado movem a eles tanto quanto a nós, e assim, o trabalho já é de todos.
Gostei muito de receber as cartas de vocês, Mau e Gabi, até quero propor para que os outros passem os endereços para vocês, porque a sensação de receber uma carta deve fazer parte do processo.
Gabi, seu relato assim no meio do seu dia, no ensaio, no metro tem uma vivacidade que parece que te enxergo melhor do que em muitos momentos em que já estivemos próximas fisicamente.
Na sua carta e em outros momentos, você, o Mau e a Thais apontam essa distância do núcleo MacorazzaNatyMatranjanCaetano com a dança. Eu entendo. Não sei se eu vou dar conta de exprimir o que quero, mas vamos lá...
Hoje analisando nossa trajetória, e simultaneamente, engatando neste novo trabalho (que inicia um contato com um Stanislavski absolutamente desconhecido e estimulante) penso que temos ido em busca de um fluxo sincero. Não importa se é com teatro de bonecos, teatro de sombras, dança, rádio-novela... temos ido em busca de um fluxo de energia/vida no qual a gente acredite, que se faça verdadeiro em cena (sem entrar nos "academicismos" do que significa verdade). Com certeza o Seis da Tarde fica no meio do caminho em relação a essa busca, mas assim como tudo na vida, ele tem sido uma etapa. Uma etapa muito importante. Eu, ao fazer o Seis da Tarde, quero ser simples, me relacionar com a Natacha e deixar aquela situação, a nossa relação ecoar...
Neste novo trabalho, acho inevitável a expressividade do corpo aparecer com maior liberdade... isso já vem acontecendo nos ensaios. Mas tem sido muito, muito importante vivenciar o Seis da Tarde para encontrar o que estamos deixando aparecer!!!
Sim, quando vocês estavam por aqui eu achava que o que nos unia era a busca por uma linguagem de interação do teatro e da dança, mas hoje sei que é algo muito maior do que isso. Repito, não sei nomear exatamente o que faz sermos da mesma companhia, mas sei que está relacionado à ética do trabalho colaborativo e à busca pelo revelar, iluminar(assim como os abajures do Retornarse) pequenos momentos de vida.
Amo vocês!
Marina Corazza
PS: O título da mensagem é um trecho de uma carta de um jovem Meierhold para sua esposa à respeito do cenário de Tsar Fiódor do Teatro de Arte de Moscou.
24 de março de 2008
Olá a todos!
Tenho usado muito o "delete" pra escrever no blog. Agora mesmo, já fiz uns quatro começos diferentes. Tá difícil encarnar o espírito do "fluxo de texto"... (não que esse tenha que ser o espírito, mas é melhor do que ficar empacada).
Bom, nossa correspondência material começou com uma história pra contar: ela foi violada e veio faltando um cd (é isso, Mau e Gabi? Vcs tinham enviado um cd?). Que triste, não? Hoje a carta veio para as minhas mãos, após passar por Má Co e Caetano, mas eu ainda não li. Estou ansiosa, com o envelope rasgado na bolsa.
Tem sido difícil pra mim acompanhar o ritmo de tudo o que está acontecendo. Estou num momento especialmente em pé de guerra com o tempo (e nunca é bom travar guerras com o tempo! Não existem muitas chances de vitória). Mas não é uma escolha. O que acontece é que, mais do que nunca, me vem aquela sensação de não estar dando conta das coisas pra fazer... as que eu quero fazer, as que eu tenho que fazer, as que necessitam de disciplina, as que necessiatm de leveza... enfim. Não sei bem o que está acontecendo. Outro dia eu estava me questionando se eu estava mesmo com muita coisa, ou o quê, e eu conclui que eu quero fazer muitas coisas, mas na prática estou fazendo poucas de tão paralizada que eu fico com essa questão. E, principalmente, como é difícil pra mim me organizar no tempo!!! Nossa... Me dá canseira só de falar disso. É muito cansativa a sensação absolutamente permanente de que existe algo para ser feito que não está sendo feito nesse exato momento. Não sei se dá pra entender. Eu não ia falar disso... É mais um desabafo, mas acho que não era o caso, né? Sei lá, não vou usar o delete de novo. Acho que eu lembrei de escrever isso por causa do comentário do Mau, das atividades cotidianas, dos nossos compromissos (mesmo os mais queridos)... enfim. Tem sido difícil pra mim. São duas palavras fundamentais e misteriosas pra mim: disciplina e organização. Como eu apanho! Ufa...
Estou tomando um cano do professor de italiano. Ainda bem... Também não consegui estudar nada nessa semana (em continuidade ao assunto anterior). Ai, ai...
Bom, esse post vai ganhar com certeza o troféu resmungão do blog. Me desculpem. Essas questões básicas têm me tirado do sério.
Mas, só pra terminar melhor, novamente as boas novas: voltamos à casa da Cristiane (eu, Caetano, Má Co, Carla, Edu e Camilo) e a conversa foi ótima mais uma vez. Engraçado como às vezes as coisas mais interessantes estão mesmo fora das anotações do que "era para ser falado", enfim, estão soltas sem grandes pretensões por aí.
Bom, acho que é isso. Será que dessa vez eu vou me lembrar de assinar? (hehe...)
Gosto muito de ler nosso blog, os recados de vocês.
Muitos beijos e saudades! Saudações e felicidades aos auto-retratenses aniversariantes (Thaisinha e Rui)!!! Tudo de melhor pr'ocês!!!
Ma Tranjan
é triste perceber que pouco a pouco os compromissos vao ocupando o tempo dos nossos dias, e a correspondencia que há apenas três meses nos comprometemos a manter regularmente comeca a rarear. É claro que é necessário compreender as necessidades, vontades e prioridades de cada um, claro que é preciso compreender que nem sempre sobra tempo pra sentar na frente do computador e escrever, ainda mais quando a rotina se torna cheia de pequenos compromissos e projetos e decisoes. Mas escrever é um ato que implica em disciplina. Esperar que a vontade e o tempo aparecam pra escrever é um erro que só vai fazer que essa atitude seja adiada dia após dia (existe sempre algo mais importante, nao é verdade?) Talvez seja eu que prefira viver o passado ao inves do presente, nao é a toa que baseei todo o meu teatro em uma busca de conciliacao entre esses dois tempos, talvez escrever e receber notícias seja um ato importante só pra mim... Mas nao era o que tinha entendido de nossas conversas de janeiro...
Por aqui pequenas coisas vao acontecendo. Continuo na busca pelos performers que faltam ao projeto do Koltes, e ao mesmo tempo comeco a tentar visualizar qual vai ser a prática de ensaios num período tao curto (menos de um mes), com um grupo tao diverso (atores, bailarinos, jovens e mais velhos, alemaes, espanhois, brasileiros) e para um projeto tao claro na minha cabeca... Antes de mais nada, nao se trata, como normalmente se trata, de dar espaco para que um espetáculo aconteca, se trata mais de conduzir os performers para que eles realizem o que já está na minha cabeca, algo muito novo para mim... As questoes artísticas, entretanto, pouco mudaram: A busca de um teatro sensível, a relacao entre corpo e palavra, busca de contato direto com o espectador, relacao, intimidade, uso da improvisacao como ferramenta de contato com o presente, uso da experiencia pessoal como ferramenta de contato com o passado. É aguardar pra ver como isso se configura na prática...
Na quarta feira comecei a trabalhar com o grupo de treinamento, apesar de três dos seis envolvidos me avisarem poucas horas antes que nao poderiam comparecer. Aqui a abordagem é outra. Nao me interessa o resultado, nao me interessa produzir, me interessa conduzir um trabalho de investigacao e descoberta pessoal, um trabalho de aprimoramento técnico e principalmente sensível, a busca de uma unidade de trabalho, de uma crenca, de princípios, de idéias. Nos reunimos assim, sem querer montar nada, sem ter um objetivo claro que nao seja o de propiciar um espaco de pesquisa, sem pressao, sem cobranca de resultados, sem julgamento precipitado... É engracado perceber que eu aos poucos vou me tornando um mestre, mesmo que a minha diferenca de idade pras pessoas com as quais trabalho nao sejam tao mais novas do que eu (algumas tem idade proxima da Gabi), mas há um respeito pelo que falo, pelo que peco, uma tentativa de realizar o trabalho, que vai além da compreensao, uma vontade que eu admiro. É muito cedo pra qualquer tipo de julgamento, mas eu acredito que pode dar certo, pelo menos como uma primeira semente, pela primeira vez na alemanha eu sinto que encontrei pessoas com as quais tenho uma sintonia de crenca e trabalho, pela primeira vez eu enxergo conexoes que sao mais profundas e desejos que sao mais fortes do que um projeto ou um espetáculo...
Me sinto bem...
Caminhando em várias direcoes ao mesmo tempo (será que é possível sair do lugar assim, partido?)
beijos
mau
ps: minha carta e a da gabi chegaram na casa da Macô?
16 de março de 2008
nova carta depois de algum tempo de silêncio...
foi uma semana dificil, como sabem os que se comunicaram comigo nesse meio tempo... Ontem fiz a audicao pro projeto novo, e isso me custou muito tempo e reflexao. Desde perguntas básicas, como o que eu quero com o projeto, o que eu quero com a minha arte, com a minha vida, e como eu consigo interessar outras pessoas com isso, como eu consigo saber se essas pessoas tem a pegada que eu quero, quais sao os exercícios que me apresentam e ao mesmo tempo me possibilitam perceber (a palavra seria analisar?) o comportamento e as capacidades de cada pessoa? Medos infantis de ser rejitado, de nao conseguir, sobretudo um medo inevitávelo de falhar me tiraram o sono de muitas noites na semana passada... Mas agora passou. Me questiono se foi uma boa estratégia, ou se foi a melhor estratégia, se nao podia ter conseguido resultados semelhantes tomando um café com as pessoas, conversando com elas, vendo o perfil de cada uma, minha percepcao é de qualquer forma tao intuitiva que é difícil justificar uma escolha... Mas foi uma experiencia importante, talvez mesmo por ser tao dificil... Mais uma etapa ultrapassada no caminho de virar gente grande... Mais um rito de passagem... No final, tenho quatro atores dos oito que gostaria, continuo na busca, mas me tranquilizei ao perceber que isso nao é o que importa... Preparei e fiz um belo ensaio, as pessoas estavam comigo, se interessaram... Isso sim é importante... Pequenas conquistas... Uma hoje, uma amanha, e em dois anos e maio estamos tao longe como jamais poderia imaginar...
Se por um lado eu procuro pessoas específicas pra um projeto específico e com prazo de validade, por outro lado eu finalmente consegui dar o start no meu projeto maior desde que cheguei a Berlin. Na próxima quarta eu finalmente comeco a trabalhar com um grupo de pessoas reunidas com o unico intuito de manter um treinamento em movimento, sem qualquer perspectiva imediata de espetáculo, no fundo um grupo de pessoas que está reunida porque tem interesse em mim, no meu trabalho, um grupo do qual, espero, nasca a primeira semente de uma companhia minha por aqui... A minha filial alema da Auto-retrato. A maioria sao ex-alunos meus, ou pessoas ligadas a eles, mais a Gabi, mas me parece um perfil interessante. Sao pessoas ativas e entusiasmadas, pessoas que ainda estao buscando algo, pessoas cuja vida e perspectivas ainda nao estao definidas, com as quais posso trabalhar, exercer verdadeira influência, conjugar... Me sinto um pouco mais velho e um pouco mais "responsável" que na auto-retrato (aqui, sem duvida, nada teria acontecido sem a minha presenca e influencia), sinto que minha figura nao é exatamente de um igual, como era pra vocês, mas ainda de alguém que sabe mais, de alguém que tem algo a transmitir, mas acho que essa é a tendencia, quanto mais eu envelheco, mais natural é que exista essa diferenca de idade/conhecimento/experiencia de vida entre mim e as pessoas que me cercam...
queria só contar dessas duas coisas...
e queria escrever, porque há tempos já nao fazia...
beijos a todos
saudades como sempre
mau
14 de março de 2008
São Paulo, dia 14 de março de 2008
Hoje, um dia cinza e levemente frio...
vontade por doces...
Hoje, resolvi escrever depois de tanto tempo em estágio de observação... era mais um estágio de “sem saber muito o que dizer...”
Hoje, véspera do meu aniversário. 27º primavera, ou deveria dizer 27º verão? Num frio de São Paulo....
Hoje, estou rememorando o meu subsolo.
Rememorando coisas que já abandonei para seguir um infindável “desejo”.
Se foi bom?
Sim, foi.
Sim, é muito bom, mas dói ao olhar para traz.
É uma dor ingênua, de criança, que queria brincar de tudo e de todos.
Porém, a vida segue o seu percurso... E eu estou aqui... pulso, respiro, vivo, crio e continuo sempre desejando o desconhecido.
Mas família é sempre a família... e quando estamos carentes e sozinhos percebemos ainda mais a falta que ela nos faz.
Sinto saudades da Família Auto-Retrato... saudade de salas de ensaio... contatos em grupo... mover-se e trocar. É difícil fazer tudo isso quando estamos sozinhos. É difícil também, saber quando é bom o que fazemos sem ter olhado nos olhos de ninguém... apenas no olho do seu próprio umbigo.
A insegurança pulsa às vezes... cadê a criança sem ego e sem fronteiras?
Rememorar – memória - subsolo – meu subsolo – solo – buracos profundos – buracos superficiais – diamantes – cinzas – ancestrais – a terra que é o barro - a geografia do eu – cartografia.
Onde foi que pisamos antes de termos pisado?
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Resolvi colocar algumas palavras do RUSSO F. Dostoiévski:
“O Homem é um animal criador por excelência, condenado a tender conscientemente para um objetivo e a ocupar-se da arte da engenharia, isto é, abrir para si mesmo um caminho, eterna e incessantemente, para onde quer que seja. Mas talvez precisamente por isto lhe venha à vezes uma vontade de se desviar, justamente por estar condenado a abrir este caminho, e talvez ainda porque, por mais estúpido que seja um homem direto e de ação, ocorre-lhe às vezes que o caminho vai quase sempre para alguma parte, e que o principal não está em se saber para onde se dirige, mas simplesmente em que se dirija, (...)”
(Memórias do Subsolo, pg 46. Editora 34)
Na verdade ia escrever um outro trecho sobre a necessidade de se escrever para si mesmo, sem pensar em um público leitor... vejamos:
“(...) trata-se de forma, unicamente de forma vazia, e eu nunca hei de ter leitores (...).
Não quero constranger-me a nada na redação das minhas memórias. Não instaurei nelas uma ordem nem um sistema. Anotarei tudo o que vier à minha lembrança. (...)
Bem, por exemplo, alguém poderia implicar com essas palavras e me perguntar: se de fato não conta com leitores, para que faz tais contratos consigo mesmo, e ainda por escrito, no sentido de que não instaurará uma ordem ou um sistema, que há de anotar tudo o que lhe vier à memória etc. Etc.? Para que está dando explicações? Para que se desculpa?
Já vou responder.
Há toda uma psicologia nisso. Talvez mesmo o fato de que eu seja simplesmente um medroso. E talvez também imagine, de propósito, diante de mim um público para que me comporte de modo mais decente, quando estiver escrevendo.
Pode haver mil razões até.
Fica ainda uma pergunta: para que, em suma, quero eu escrever? Se não é para um público, não se poderia recordar tudo mentalmente, sem lançar mão do papel?
Assim é; mas, por escrito, isto sairá, de certo modo, solene. O papel tem algo que me intimida, haverá mais severidade comigo mesmo, o estilo há de lucrar. Além disso, é possível que as anotações me tragam realmente um alívio. Agora, por exemplo, pressiona-me particularmente uma remota recordação. Lembrei-me disso com nitidez há poucos dias, e desde então, ela ficou comigo, qual um motivo musical magoado, que não quer nos deixar. E, assim mesmo, é preciso livrar-se dele. Tenho centenas de tais recordações; mas, de tempos em tempos, uma delas destaca-se das demais e passa a pressionar-me. Não sei por quê, mas acredito que, se eu a anotar, há de me deixar em paz. E por que não tentar?”
(Memórias do Subsolo, pg 53 e 54. Editora 34)
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Agora, relatos Fragmentados (será que eles deveriam estar aqui?):
No processo “videográfico” (vou chamar assim aqui) que estou desenvolvendo com a Nathália, à partir de imagens da Adormecida, encontramos algumas temáticas que provavelmente farão parte do trabalho:
confinamento, desgaste/ putrefação, ausência, tentativa de vida dentro do que jaz. (tudo dentro da Espera)...
Tsai Ming-Liang e Matthew Barney nos inspiram de uma certa maneira....
Engraçado Mau, o Mircea Eliade já me inspirou muito também... e acho que pode voltar a me ajudar no “projeto solo” que venho buscando...
Nat, da última vez que te vi realmente senti tudo isso que você descreveu em você. Fiquei muito feliz em ter te visto naquele dia... muito mesmo. Uma fase nova.
E sobre não estar em carne e osso neste novo trabalho da Cia, eu entendo bastante o que você está dizendo. Me sinto assim muitas vezes... Mas são decisões... e isso é sempre bem vindo na vida... eu acho...
Beijos a Todos,
Thaisinha
11 de março de 2008
Olá, meus queridos!
Escrevo cansada, com os olhos pesados, mas querendo dar as boas novas!
Queria contar aos "ausentes" que iniciamos ontem os ensaios práticos do nosso novo projeto. Foi um belo começo! Foi um ensaio fluido, gostoso, cheio de pequenos momentos... hum... eu queria achar um adjetivo para "momentos", mas vou deixar assim mesmo.
Além disso, conseguimos marcar mais uma apresentação do Seis da Tarde, dessa vez no Sesc São José dos Campos (olha aí, Gabi... já vai avisando a família: dia 18 de Abril!)
Os anos passam e tem coisa que não muda... Me lembro bem de ter escrito (ou falado?) em algum ensaio do Retornarse (o da bebedeira?) que eu não era poética para escrever fluxos de pensamento que valessem à pena. Parecia que eu tentava ser poética e tudo soava falso. Pois é, me sinto igual escrevendo aqui. Leio os textos de vocês e acho tudo bonito, e acho que a minha cartinha vai ser o patinho feio. Mas é isso! Antes patinho feio autêntico do que cisne afetado, não?
(Acabo de deletar um trecho enorme que eu tinha escrito porque, de repente, eu não sabia mais do que eu estava falando. Digamos que eu rasguei o rascunho. Quem sabe mais tarde eu não consigo elaborar melhor...)
Acho que fico mesmo por aqui... A portadora das boas notícias!
Muitos beijos a todos e boa noite! Já é dia 12...
10 de março de 2008
Acho que aproveitarei para inverter a ordem dos pensamentos que escrevo. Poucos segundos depois e o pensamento já mudou. Sim, Mau, há um fluxo na escrita, eu acho. Um fluxo que é o próprio instante.
Estou ouvindo a trilha sonora do Não-Distância e, com a isenção de tanto tempo que já passou, consigo achar que é bonita demais! Não tenho qualquer intuição do que tenha sido a peça para os olhos de quem a viu, não há fotos, vídeo... mas que bom saber que existia algo ali tão precioso. Viva o Rui!
Lendo a última postagem do Mauricio eu me identifico com a fase que ele diz estar vivendo. Ando tão solta, leve, fluída, que quase não me reconheço, rsrsrs. E é claro que isso tem reflexos no trabalho, acabo por me sentir até meio descomprometida com tudo, fosca, sem criatividade alguma. Mas há poucos dias fiquei mais tranquila ao ler um texto do Grotowski em que ele justamente falava de que esses momentos na vida do ator são importantes, e que a toda fase de "espontaneidade" segue-se um momento de assimilação técnica realmente orgânica.
Bom ouvir os mestres!
Na última semana essa minha fase "leve e fluída" fez com que eu tentasse me livrar de dúvidas que têm me vindo sobre se eu de fato daria conta (por questão de tempo e de disponibilidade) de estar nos processos da Auto-Retrato e da Balagan ao mesmo tempo. Acabei concluindo que o simples fato de me sentir em dúvida já era prova de que eu não estáva dando conta, e que isso atrapalharia a Companhia. Então conversei com a Marina Corazza, Marina Tranjan e Caetano e lhes disse que não estarei. Pelo menos não como atriz.
Não que isso tenha me solucionado as dúvidas... talvez tenha sido mais prático, mas ainda não me soa natural. Sinto-me próxima das pessoas da Auto-Retrato, sinto que esse projeto novo das cartas-tchecov também é meu, e muito.
Mas não ficarei aqui falando das minhas dúvidas. Estou de alguma forma confiante que o tempo vai apaziguar isso que está me inquietando.
Beijos a todos
Nat
3 de março de 2008
Palavra
Sobre o fluxo da escrita e a relação com a palavra, transcrevo trechos de um livro do Rubem Alves:
"Diz Fernando Pessoa que 'pensamento é doença dos olhos'. Correto. O pensamento se insinua onde a visão falhou. Ou onde o ouvido, e o olfato, e a língua e a pele falharam. A palavra é o testemunho de uma ausência. Como tal, ela possui uma intenção mágica, a de trazer à existência o que não está lá... A intenção de manter viva a promessa do retorno. Mais que simples símbolos operacionais, as palavras me ligam aos objetos do meu amor, ausentes."
E ainda ele citando Nietzche:
"Corpo eu sou, inteiramente, nada mais
Alma é apenas um nome para algo que pertence ao corpo
O corpo é a grande razão...
Um instrumento do seu corpo é também a sua pequena razão, a que você dá nome de 'espírito' - um pequeno instrumento e um brinquedo de sua grande razão."
Sobre a prática: estou ausente na construção do site e peço desculpas.... Acho perfeita a distinção que você fez entre os grupo de sites.... vou pesquisar o que acho interessante e te passo.
Obrigada pelas orientações sonoras/musicais. Vamos pesquisar!!
Beijos e abraços
Ma Corazza
PS: Como vocês fazem para colocar o local e a data da carta??? Vou tentar, se eu não conseguir, alguém pode me explicar???