Leme, 04 de janeiro de 2009!!!
Olá queridos, feliz ano novo pra todo mundo!!!!
bom, passo o ano dizendo que não tenho tempo pra fazer nada, pela quantidade de trabalho que costumo ter e, agora que teoricamente tenho férias, cá estou eu pensando em... trabalho!! eheheAliás, isso me faz ter certeza de que o meu trabalho e minha vida são mesmo quase indissociáveis. Esta constatação tem sido forte nestes dias, sem dores, sem peso, apenas feliz por reencontrar um lado da nossa profissão que não é o burocrático, mas sim de paixão mesmo, de uma entrega contente.
Por isso, nestes dias de folga, eu tenho sentido vontade de estudar, de entender melhor o que temos feito. Promessa de ano novo agora é bancar o meu trabalho, minhas escolhas artísticas. Desculpem se estou sendo "caxias", nerd demais, mas achei que seria interessante compartilhar com vcs um pouco disso...
Bom, lendo alguns textos do Grotovski, um trecho me chamou a atenção:
“O que é possível? Em primeiro lugar, o confronto com o mito mais do que com a identificação. Em outras palavras, enquanto mantivermos as nossas experiências privadas, podemos tentar encarnar o mito, vestindo a sua incômoda pele para perceber a relatividade dos nossos problemas, a sua ligação com as raízes e a relatividade das “raízes” à luz da experiência contemporânea. Se a situação é brutal, se nos despimos e tocamos um estrato extraordinariamente íntimo, expondo-o, a máscara cotidiana se rompe e desaparece.”
...
Em segundo lugar, mesmo com a perda de um “céu comum” de fé e com a perda de fronteiras inexpugnáveis, a perceptividade do organismo humano permanece. Somente o mito – encarnado na realidade do ator, no seu organismo vivente – pode funcionar como um tabu. A violação do organismo vivente, o desvelamento levado a excesso ultrajoso, reporta-nos a uma situação mítica concreta, a uma experiência de verdade humana comum.
Jerzy Grotowski – Em Busca de um Teatro Pobre (página 111)
É que tenho mesmo refletido no quão universal e legítimo é o termo que usamos pra definir nosa pesquisa: Pessoalidade. Quando nos chamamos Auto-Retrato claramente aspiramos ser algo, e claramente associamos nossa busca à idéia de Identidade. E muitas coisas compõem o que somos, a nossa identidade. Muitas dessas coisas provavelmente a gente contemple em nossos espetáculos, conscientemente ou intuitivamente, como a relação com o tempo: o presente, o jogo, e a memória.
Lendo umas coisas na internet, descobri que, de fato, a Psicologia e as Ciências Sociais sequer concebem falar de Identidade sem tocar na temática da Memória. Justamente porque a memória de um indivíduo, ou de um país, está na base da formulação de uma identidade
Uma das coisas legais que percebi é que a idéia de lembrança em si não é um conceito fixo, mas inclui as mudanças pelas quais passamos. Memória não é algo que prescinda da representação, da mudança, da reavaliação.
A mesma recordação pode ser lembrada diferente conforma a etapa de nossa vida. E isso me fez, claro, pensar muito na frase do Guimarães, do Nenhum Nenhuma: "Como eu vivi e mudei, o passado mudou também".
Não vou querer aqui entender os pormenores dos conceitos todos, nem é este meu objetivo, mas percebi que há distinções dentro do próprio conceito, e eu vou separar aqui (muito aleatória e irresponsávelmente) pra gente, alguns tipo deles:
-Mémoria individual: mais ligada às recordações particulares da pessoa, vividas por ela.
- Memória Coletiva ou Social: têm origem na teoria psicossocial sobre a memória de Maurice Halbwachs (1990). Defender que as recordações são sempre originarias no grupo social ao qual o sujeito faz parte. Incluem o ponto de vista de quem recorda, do individuo, existem com a finalidade de continuidade de uma comunidade, estão vivas. “Os quadros coletivos da memória não se resumem em datas, nomes e fórmulas, que eles representam correntes de pensamento e de experiência onde reencontramos nosso passado porque este foi atravessado por isso tudo”. A memória apóia-se sobre o “passado vivido”, o qual permite a , reconstituição de uma narrativa sobre o passado do sujeito de forma viva e natural, mais do que sobre o “passado apreendido pela história escrita” (HALBWACHS, 2004: p.75).
E, ainda diz: "a lembrança é em larga medida uma reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados do presente, e além disso, preparada por outras reconstruções feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora manifestou-se já bem alterada” (HALBWACHS, 2004: pp. 75-6). "
- Memória Histórica: bom, pelo que eu entendi, existe uma distinção entre essa e memória Social. A história, pro tal do Maurice Halbwachs, "começa somente do ponto onde acaba a tradição, momento em que se apaga ou se decompõe a memória social. Enquanto uma lembrança subsiste, é inútil fixa-la por escrito” . Ou seja, a história se refere menos ao indivídio, a algo vivo ou à continuidade de um processo. "A história de uma nação pode ser entendida como a síntese dos fatos mais relevantes a um conjunto de cidadãos, mas encontra-se muito distante das percepções do indivíduo, daí a diferenciação estabelecida por Halbwachs entre Memória e História"
- Memória Ancestral: bom, aí é onde reside minha obcessão, porém eu não achei uma definição exata pro termo... minhas pesquisas me levaram a idéias menos "cientificas" e mais espiritualistas, mais ocultistas. No entanto, na própria leitura dos textos do Grotovski e em algumas coisas que andei lendo acho que poderíamos dizer que esse tipo de Memória se refere a um contexto mais mítico mesmo. Os mitos que nos compõem, e que se manifestam em formas de imagens, arquétipos. Falando em mito:
De outro lado, o mito é sempre uma representação coletiva, transmitida através de várias gerações e que relata uma explicação do mundo. Mito é, por conseguinte, a parole, a palavra "revelada", o dito. E, desse modo, se o mito pode se exprimir ao nível da linguagem, "ele é, antes de tudo, uma palavra que circunscreve e fixa um acontecimento". "O mito é sentido e vivido antes de ser inteligido e formulado. Mito é a palavra, a imagem, o gesto, que circunscreve o acontecimento no coração do homem, emotivo como uma criança, antes de fixar-se como narrativa".
O mito expressa o mundo e a realidade humana, mas cuja essência é efetivamente uma representação coletiva, que chegou até nós através de várias gerações. E, na medida em que pretende explicar o mundo e o homem, isto é, a complexidade do real, o mito não pode ser lógico: ao revés, é ilógico e irracional. Abre-se como uma janela a todos os ventos; presta-se a todas as interpretações. Decifrar o mito é, pois, decifrar-se. E, como afirma Roland Barthes, o mito não pode, conseqüentemente, "ser um objeto, um conceito ou uma idéia: ele é um modo de significação, uma forma". Assim, não se há de definir o mito "pelo objeto de sua mensagem, mas pelo modo como a profere".
Pelo pensamento de Carl Gustav Jung talvez pudessemos pensar o mito como a conscientização de arquétipos do inconsciente coletivo, quer dizer, um elo entre o consciente e o inconsciente coletivo, bem como as formas através das quais o inconsciente se manifesta. Arquétipo, do grego "arkhétypos", etimologicamente, significa modelo primitivo, idéias inatas. Como conteúdo do inconsciente coletivo foi empregado pela primeira vez por Yung. No mito, esses conteúdos remontam a uma tradição, cuja idade é impossível determinar. Pertencem a um mundo do passado, primitivo, cujas exigências espirituais são semelhantes às que se observam entre culturas primitivas ainda existentes. Normalmente, ou didaticamente, se distinguem dois tipos de imagens:
a) imagens (incluídos os sonhos) de caráter pessoal, que remontam a experiências pessoais esquecidas ou reprimidas, que podem ser explicadas pela anamnese individual;
b) imagens (incluídos os sonhos) de caráter impessoal, que não podem ser incorporados à história individual. Correspondem a certos elementos coletivos: são hereditárias.
A palavra textual de Jung ilustra melhor o que expôs: "Os conteúdos do inconsciente pessoal são aquisições da existência individual, ao passo que os conteúdos do inconsciente coletivo são arquétipos que existem sempre a priori.
Bom, pelo que percebi, essas separações sobre o conceito de Memória são puramente conceituais, já que na prática são coisas que se permeiam, que coexistem e que dependem uma da outra pra se manifestarem. A Memória individual influencia a Memória Coletiva que, por sua vez, inclui coisas da Memória Histórica. A Memória Ancestral compõem e composta por todas as outras... enfim...
aiaiaiaiaiaiaia pessoas, estou viajando. Talvez e muito provavelmente muito dessas coisas que escrevi estejam profundamente equivocadas mas o importante é que eu comecei a fazer o exercicio de pensar qual desses "tipos de Memória" os nossos espetáculos abordam, temáticamente, ou pelo processo de investigação, enfim. O Retornase obviamente queria se referir a um tipo de memória individual mas, hoje, pensando, acho que tocou de alguma forma numa me,mória mais mítica, arquetípica (ancestral), principalmente nos momentos de fluxo, nas danças - infância, ballet, adolescência, aula de dança.
Hoje, de alguma forma, o Ruido dialoga coma idéia de Memória Histórica, mas também Coletiva... O Vôo Solo claramente traz um mito (a vontade de voar) como objeto principal, enfim...
O Seis da Tarde fala do que gostaríamos de ser, da recriação e reinvenção do nosso passado, de nossas lembranças, de nós mesmos, diante do olhar do outro.
O Não-Distãncia trilhava um caminho de memórias individuais tentando tocar nas memórias ancestrais, e tocar em arquétipos como A velhice, o amor, a infância...
enfim...
Bom, ai, lendo o Grotoviski, eu fiquei pensando na nossa responsabilidade sobre como de fato evocar essas memórias. Memórias diversas, que podem adotar formas diversas, mas que compõem uma identidade complexa, uma Pessoalidade como a vislumbramos
Acho que o caminho do corpo foi por algum tempo muito claro no nosso histórico. E é o caminho que o Grotovski adotava. Afinal, ele achava que a nossa sociedade perdeu o sentido e a prática do mito, da religião, da cultura oral e, por isso, atentar para a realidade do corpo orgânico seria uma das únicas maneiras de nos religarmos com nossas verdades mais essenciais, nossas raízes, nossos "mitos particulares", como ele chamava.
Mas qual é o nosso caminho agora? Nossa via de acesso à memória? Em cada um dos processos?
Pensando no que temos discutido nos últimos tempos, tenho receio de que estejamos pensando a idéia de Metodologia antes de pensar no que queremos dela.
Pensei de repente que a coisa da Memória, no nosso trabalho, não define apenas os temas que escolhemos trabalhar mas também é definidora do que até agora conquistamos como metodologia de trabalho própria.
Não sei se continuaria destacando apenas uma concepção de criação baseada na Identidade (ou Pessoalidade??) ou se incluiria mais fortemente nossas abordagens sobre a Memória. E, claro, isso justamente porque começo a achar que a nossa forma de conceber Identidade/pessoalidade talvez seja pela investigação da Memória...
Enfim, queridos, desculpem o texto imenso logo neste começo de ano.
Espero que de alguma forma interesse a vocês isso que andei pensando, ehehehehe. Se não interessar, façam de conta que é trote de ano novo, ok?
E que venha 2009!!!
bjcas
Nat