Tenho andado pensando...
Como sempre, penso demais. Mas o fato é que tenho pensado muito sobre a Companhia, especialmente depois de toda essa conversa ao redor do fomento, de quais espetáculos deveriam ser incluídos em um projeto de repertório da companhia, e do fato do mas nao ser ou nao parte desse repertório, e há uma pergunta que nao me sai da cabeca:
O que nos faz, hoje, uma companhia, mesmo que separados no espaco?
Ou melhor colocado: o que nos une a ponto de podermos dizer que temos trabalhos guiados pelos mesmos principios, a ponto de serem considerados de um mesmo grupo?
Ou pro fim: qual a filosofia que nos mantem unidos, apesar da distancia espaco tempo?
coloco essa discussao porque algumas vezes sinto que muito do fato de sermos uma companhia está ligada a coisas que aconteceram no passado, e acho que uma discussao como a que houve só aconteceu porque nao está claro pra ninguém qual é o principio que nos une. Eu, por exemplo, nao acredito que qualquer trabalho que eu dirija ou faca faz parte da companhia simplesmente pelo fato de ser dirigido por mim, mas entao preciso entender e conseguir separar os meus principios de trabalho individuais daqueles que sao coletivos.
Pode parecer uma mera punhetacao filosofica, mas eu realmente acredito ser importante... A companhia esta em claro processo de transformacao, e acho importante sabermos pra onde estamos querendo ir, pra evitar que simplesmente sejamos conduzidos pela correnteza do trabalho prático.
Comeco a discussao tentando levantar algumas pistas... Pelo que me recordo, a companhia tinha, na sua origem, três pontos básicos de investigacao (ainda que naquele momento a gente nao tivesse tanta clareza ou pudesse se expressar de forma adequada) : a busca das possibilidades expressivas do corpo e do movimento; a pesquisa de uma dramaturgia específica que conjugasse corpo e palavra, uma dramaturgia que fosse composta junto e para o movimento; o uso da individualidade de cada performaer como fator determinante do processo criativo.
Ao que me parece, e por favor, nao quero em momento algum fazer uma crítica ou discutir a qualidade do rumo que está sendo trilhado, os dois primeiros aspectos nao parecem mais tao importantes dentro do processo do núcleo central da companhia. Quero dizer, observando o seis da tarde (o novo processo eu nao posso opinar, porque o que sei dele é quase nada) eu nao posso dizer que é um espetáculo centrado no uso expressivo do corpo, é claramente um espetáculo centrado na construcao dramatúriga e esta, por sua vez, também nao me parece ter como objetivo, como uma dia, a busca de uma conjugacao entre corpo e palavra... Mais uma vez quero dizer que isso nao é um julgamento de valor, apenas uma tentativa fria de análise objetiva do espetáculo, buscando descobrir que diabos é a identidade da auto-retrato hoje em dia.
A questao da individualidade do performer ainda é válida, mas ela sozinha me parece vaga. No fundo, todos os processos se baseiam de uma forma ou de outra na individualidade dos performers (da memoria emotiva de Stanislawski ao teatro coletivo do Living Theatre ou ao clown do LUME)... Por isso, me parece que os valores do passado sao valores do passado. Dai a pergunta: qual sao os valores do presente?
Tenho uma intuicao: pra mim, tem alguma coisa a ver como um olhar nostálgico sobre o mundo e a realidade. Quando vejo os espetáculos da companhia, existe sempre uma sensacao de inadequacao à realidade presente, que pode ser expressa de forma direta pelos performers (como no retornarse) ou de forma indireta (como no ausencia ou no seis da tarde). Ainda tenho a insistencia de achar que tem alguma coisa a ver com o corpo, apesar de nao saber bem qual a relacao que vocês tem estabelecido com ele nos últimos tempos. Também há algo do método de criacao, mas tudo o que penso a esse respeito é tao generico que poderia ser enquadrado a pelo menos outros duzentos grupos.
Lancei algumas ideias?
Alguém quer comentar? Mais alguém acha essa uma discussao importante?
beijos a todos
mau
PS. Macô: explicando a minha outra postagem.
Existe um orgao ligado à UNESCO que é o ITI (International Theatre Institute). Na Alemanha eles sao bem ativos e um dos eventos que eles produzem é um festival de teatro denominado Theater der Welt. O festival acontece a cada dois anos em uma cidade diferente da Alemanha e a idéia é levar companhias do mundo todo, muitas com obras feitas para estrear no festival, em duas semanas de apresentacoes. Esse ano, dentro do Festival o ITI resolveu desenvolver um projeto específico para discutir liberdade e vigilância nos espacos públicos e dentro desse projeto foram convidados três videomakers e quatro coreógrafos de diferentes locais do mundo pra realizarem intervencoes em espacos públicos. Uma dessas coreografas foi uma brasileira chamada Dani Lima ( ninguém conheca ela? Eu ja tinha visto dois espetáculos dela aí no Brasil) que resolveu, por sua vez, que queria um grupo de doze pessoas de diferentes origens, idades e tipos de movimentacao, e eu fui um dos escolhidos... Acabou sendo um work in progress, porque a cada dia experimentavamos coisas novas em sala de ensaio e depois nas ruas da cidade, nao havia uma forma fixa, mas era teoricamente um espetáculo dentro do festival. Sobre ela: ela mora no rio, tem um trabalho muito interessante entre espetáculo e performance, uso do momento presente, improvisacao em cena, etc. Quanto ao grupo, duvido que nos vejamos de novo. Na verdade, estou botando fogo pra ver se a gente manda uns projetos pra uns outros festivais, porque pra mim foi uma experiencia bem interessante... Mas nao sei se vai rolar...
Ah, adorei a carta...
11 de julho de 2008
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Um comentário:
Sim, a Michellinha minha amiga fazia ou faz parte da Cia Dani Lima.
vi algun trabalhos bem interessantes...
Beijos
Thaisinha
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